Se você ficar preso em uma pequena caixa de ferro por dias, mesmo com comida e água, como se sentiria?
Isso se chama tédio.
A cela de confinamento era o absoluto epítome do tédio. Tinha apenas uma pequena claraboia e uma lâmpada de promécio que ardia nos olhos. A cama era dura, a comida insossa, reduzida em calorias para evitar que ele engordasse. No momento, até mesmo as malditas sessões de filmagem que o odiado Tecaix ordenava eram preferíveis a ficar ali.
Taylor, suando de calor, tirara a camisa e agora usava embalagens de comida e latas de conserva para criar pequenos artesanatos dentro daquele cubículo de paredes metálicas.
— Haha, esse aqui vale uns bons créditos — murmurou para si mesmo.
Não havia dúvidas de que Taylor tinha talento para encontrar alegria no sofrimento. Seus brinquedinhos engenhosos encantavam as crianças das Hives – um deles, por exemplo, era baseado num pião de madeira antigo.
Claro, no Império, alguns achavam que esse tipo de artesanato não combinava com um "herói" como ele. Mas Taylor sabia a verdade: no campo de batalha, só sobrevivia quem fosse esperto o suficiente. Por isso, ele jamais se importara com sua imagem de "herói lealista"... a menos que sorrisos de falsa lealdade pudessem render algum benefício maior.
De repente, um vento gelado atravessou a porta metálica, como um gole de água gelada num dia abrasador. Do lado de fora, um guarda vestindo o uniforme padrão da Marinha Imperial, com uma autopistola para tiros à queima-roupa, chamou:
— Sr. Taylor! A capitã deseja vê-lo.
Taylor se levantou e vestiu a jaqueta militar, marcada por incontáveis batalhas. O guarda observou o pião de metal engenhosamente feito e pensou:
"Consegue relaxar mesmo numa cela de confinamento... Realmente um exemplo de lealdade."
Por dentro, porém, Taylor praguejou:
— Porra, como tá frio aqui! Será que a claraboia da cela tá ligada ao compartimento das caldeiras?
Ele se sentia um pouco constrangido. Suar era normal, mas ninguém gosta de aparecer encharcado.
— Uma capitã? Da Marinha Imperial? — perguntou.
O guarda pareceu surpreso.
— O senhor não sabia? Embora estivesse inconsciente quando embarcou, pensei que já tivesse sido informado. Este navio pertence à Dinastia Mercante Nômade, a Casa Tuk. E sua comandante é a grande Branteru Tuk.
Ele pronunciou o nome em Alto Gótico, fazendo soar complicado. Taylor, homem simples, apenas repetiu:
— Brandirú? Nome estranho.
O guarda riu.
— É Branteru, meu senhor.
E assim iniciou-se uma conversa. O guarda contou que antes servira na Marinha Imperial e agora trabalhava como segurança. Quando Taylor soube que ele ganhava 20 Thrones por mês, questionou pela primeira vez se ser oficial da Guarda Imperial valia a pena.
Os Mercantes Nômades realmente nadavam em riqueza. Gastar fortunas num simples oficial da marinha... É claro, eles tinham a Licença de Saque Imperial...
Quer dizer, a Carta de Comércio Imperial. Diziam que o documento continha uma gota do sangue do próprio Imperador, selando sua legitimidade e fazendo os hereges fugirem de medo. Era o fundamento que permitia às Grandes Casas Mercantes construir seus impérios. E segundo aquele oficial, a dona daquela fragata Lunar governava nada menos que 35 mundos prósperos.
Trinta e cinco!
Taylor nunca imaginara governar um único planeta, e aquela mulher controlava 35. Só os impostos isentos por causa da Carta já sustentariam um exército imperial inteiro.
Ele hesitou.
— Preciso tomar um banho antes?
O guarda franziu o nariz.
— Você não cheira mal. Assim está bom.
Taylor concordou e seguiram até o fim do corredor. Com um som hidráulico, as portas se abriram, revelando um salão deslumbrante.
Cetins vermelhos adornavam as paredes, móveis de mogno enfeitavam o ambiente, o chão era de mármore de altíssima qualidade. Até o ar frio típico das naves parecia recuar diante da opulência.
Nas paredes, vitrines exibiam troféus: um crânio de ork enorme, uma lança élfica e uma espada-correntes quebrada – provavelmente de um Adeptus Astartes Caótico.
Que coleção impressionante!
Mas então Taylor percebeu: aquela vitrine não chegava aos pés da que ele tinha no regimento de Scadia. Afinal, lá havia desde a cabeça de um tirano até destroços de um Titã e um emblema de Ultramar dado pelos Adeptus Astartes.
Enquanto ele se perdia nos pensamentos, uma voz suave e melodiosa ecoou:
— Sr. Taylor, finalmente nos conhecemos.
Diferente dos troféus brutais nas vitrines, a voz era quase tímida.
Ao se virar, Taylor viu uma jovem de 19 anos, vestida com um traje gótico negro e vermelho. Cabelos dourados, olhos azuis, pele alva e traços delicados. Ela parecia ansiosa por sua aprovação quando disse:
— Estes são os troféus acumulados pelos ancestrais da Casa Tuk. O que o senhor acha?
Taylor notou que a estante estava lotada de romances de cavalaria e poemas glorificando os Astartes. Sobre a mesa, um livro de romance beligerante – daqueles típicos do Império, onde o amor anda de mãos dadas com a guerra. Afinal, numa sociedade marcada por conflitos, a admiração deixara de ser pelo rosto e passara a ser pelos punhos.
Ele coçou o nariz, sem saber como responder. A verdade é que metade daqueles itens provavelmente não chegava aos pés do que ele já trouxera de uma única campanha.
Embora aquelas coisas não fossem o que ele esperava encontrar, apenas o confronto com os enximes já lhe rendera troféus equivalentes a todo o armário ali.
Parecia que governar 35 mundos prósperos de um império não superava seu azar. Taylor sentiu um sorriso amargo se formar em seu rosto e murmurou em resposta:
— Claro, claro, ótimo…
— Sua família está repleta de honra.
Ele exibiu seu sorriso profissional característico, perfeitamente alinhado à fantasia daquela mulher, que retribuiu com um sorriso satisfeito. Enquanto isso, Taylor pensou consigo mesmo:
Que tipo de herdeira é essa? Essa família está praticamente falida…
Foi então que ouviu passos do lado de fora e uma voz rouca gritando:
— Morte ao tirano!
Em um instante, rajadas de laser e projéteis cruzaram o ar.
Por reflexo, Taylor puxou "Brandy Deer" para trás do armário de troféus, que serviu de cobertura.
Os símbolos de honra e glória foram reduzidos a escombros em segundos — o crânio do ork estilhaçado, a espada-serrada arremessada longe, e o resto dos artefatos destruídos.
O oficial da Marinha atingido por um raio laser teve o braço volatilizado pelo calor intenso antes de ser lançado ao chão, seu sangue espalhando-se pelo piso. O atacante foi misericordioso: deu o tiro de misericórdia na cabeça do homem.
Taylor, instintivamente, agarrou a lança estelar dos aeldari e gritou:
— Protejam-se!
Só então percebeu que não havia aliados ao seu redor — e que aquilo não era uma trincheira.
Ele segurava a última herdeira de uma dinastia mercante, seu corpo esbelto tremendo… Mas, ao olhar para baixo, viu que a expressão dela não era de medo — e sim de pura euforia. Ela estava tremendo de empolgação!
— Sr. Taylor — ela disse, ofegante, — quero que você veja… veja isso…
Seu comportamento era estranho…
Taylor também sentiu uma aura anormal no ar…
E então, de repente, ela ergueu o vestido, revelando suas coxas brancas e macias.
Taylor engoliu seco, mas não por qualquer desejo lascivo…
A razão era a pistola laser disfarçada de arma de pederneira, amarrada em sua coxa por uma fita de seda negra.
No instante seguinte, ela sacou a arma com um sorriso e atirou com precisão frenética, espalhando sangue pelos cantos.
A arma era absurdamente poderosa — um único disparo perfurou a armadura à prova de balas e cozinhou o peito do inimigo. Era até mais forte que a arma preferida de Taylor!
Quando um atacante avançou com um escudo de tempestade…
Ela simplesmente puxou uma adaga escondida no decote e a arremessou em um arco perfeito, cravando-a direto no crânio do homem.
Pluft. O corpo pesado desabou, e a Senhora Mercante não conseguiu conter uma risada triunfante.
— Venham! Assassinos! Vocês não são os primeiros… Querem adivinhar onde estão os outros?
Taylor, ainda tremendo, perguntou:
— Afinal… você realmente precisa de um oficial de segurança?
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Capítulo 103: A Dinastia Mercante, Parte 2
O palácio estava em ruínas, repleto de restos de carne e silêncio mortal. Quando os guardas finalmente chegaram, atrasados como sempre, o administrador do palácio — um jovem competente e bem-apessoado — disse com voz trêmula:
— Minha senhora, falhamos em proteger a Casa Took. Merecemos a morte.
Mas Brandy Deer apenas sorriu e respondeu:
— Foi o Sr. Taylor quem me salvou. Sem ele, eu já estaria morta.
Ela se agarrou a ele de forma carinhosa, mas Taylor só sentia um frio mortal emanando daquele corpo quente.
Além de ter matado um bando de assassinos enquanto usava um vestido, o olhar que ela lhe dirigia era… perturbador.
Primeiro: como uma líder de uma dinastia mercante poderia ser tão ingênua? Ela precisava dele, mas mantinha essa fachada para enganar os inimigos.
Segundo: ele havia sido usado como isca. Sua reputação de lealdade o tornara o escudo perfeito.
Que mulher cruel…
Desde o início, ela já o estava manipulando?
Mas quando a viu, após o ataque, pegar um livro de aventuras românticas com um sorriso de felicidade, Taylor ficou em dúvida.
Será que ela era só uma sonhadora viciada em romances?
Era difícil distinguir a verdade da mentira. Muito difícil.
— Sr. Taylor — disse o administrador, com admiração genuína, — sua bravura e sagacidade são dignas de recompensa. Aqui está nosso agradecimento — pequeno, mas sincero.
Taylor só pensou, confuso:
O que diabos eu fiz?
A chefe dela já tinha matado todo mundo antes que ele pudesse reagir.
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