Os veteranos tossiram. — Claro que pode.
No mesmo instante, passos ecoaram do lado de fora do acampamento. Eram de alguém de fora, não pertenciam a nenhum dos desgraçados que ele conhecia do 15º Pelotão.
Os homens entraram, vestindo armaduras pesadas e totalmente seladas, com máscaras no estilo de Krieg.
Eram negras, com mochilas de energia enormes nas costas e uma arma laser pendurada na cintura. E Taylor sabia muito bem o que era aquilo: uma Hellgun.
Tempestus Scions…
Isso significava gente importante.
Eles eram graduados da Schola Progenium, a mesma academia que formava os comissários do Império. Todos órfãos de mártires imperiais, recrutados pelo Departamento Militar e treinados na academia.
Os melhores se tornavam comissários, com status equivalente a oficiais superiores, quase no mesmo nível de generais.
Os menos destacados viravam esses Scions. Eram igualmente leais, confiáveis e especialistas em guerra de elite, geralmente servindo como guarda-costas de figuras importantes ou como força de choque em frentes de batalha.
Mesmo sendo "os piores" da turma, ainda eram várias vezes mais competentes que a maioria dos soldados do Império.
Isso deixou Taylor em alerta. Afinal, não era qualquer um que podia dar ordens a eles. No mínimo, um general ou figura de alto escalão.
Mesmo assim, ele percebeu que seus companheiros discretamente colocaram as mãos nos gatilhos de suas armas.
Ele se levantou, estendendo a mão para sinalizar que os outros ficassem parados. Os Scions então falaram:
— Senhor Taylor, você está convocado ao porto espacial.
Taylor acenou, mandando seus homens baixarem as armas, e disse:
— Não tenho escolha, né? Pelo menos vocês estão sendo educados.
— Meus rapazes estão com os nervos à flor da pele. A guerra acabou de acabar, e só o Imperador sabe o que eles podem fazer. Foi inteligente da parte de vocês não partirem para a violência logo de cara.
Taylor tinha razão. Sem aviso, sem comunicação, apenas uma ordem abrupta para segui-los era algo brutal e sem protocolo. Teoricamente, seria justificável atirar neles ali mesmo.
Taylor os acompanhou, entrou em uma nave de transporte e, após uma viagem curta, porém agonizante, chegou ao destino.
Era o objetivo da nave: uma Black Ship da Inquisição.
Era de se esperar. Afinal, era a Inquisição. A abordagem abrupta e grosseira fazia sentido agora.
Ao entrar naquele lugar sombrio, Taylor, como se já conhecesse o caminho, abriu a porta à frente. O mecanismo metálico rangeu antes de revelar uma sala repleta de sistemas de cogitadores e máquinas complexas.
Uma mulher elegante, vestindo um manto de couro e um chapéu pontudo, olhou para Taylor e sorriu. — Há quanto tempo.
Ela então puxou levemente o manto, revelando discretamente um broche em forma de rosa na cintura.
Taylor balançou a cabeça, resignado. — Da próxima vez, podia mandar um telegrama. Mas parece que devo te parabenizar.
— Inquisidora… Não, agora devo chamá-la de Senhora Inquisidora, né?
Aquele broche de rosa pertencia a ela, e por isso ela podia mostrá-lo. Normalmente, um interrogador não teria tal autoridade. Só havia uma explicação.
Ela havia sido promovida.
Isso fez Taylor se sentir como uma espécie de amuleto da sorte — todo mundo que se aproximava dele subia na vida. Mas ele sabia que provavelmente estava se iludindo.
Todos eles eram pessoas excepcionais. Era natural que chegassem lá.
Mas, obviamente, ela não o chamara até ali só para exibir sua promoção.
A Senhora Inquisidora então ficou séria.
— O Império está enfrentando algo… algo terrível. A Frota da Peste apareceu repentinamente perto de Cádia. O Olho do Terror está se agitando.
— Você conhece as sombras e horrores deste universo. Você é uma das poucas pessoas em quem confio.
— Com as estrelas se apagando, a Primeira Companhia de Redenção de Scaldi será uma peça fundamental.
— Nos últimos tempos, no imaterium, a Disformidade está em turbulência. Muitos videntes fizeram profecias perturbadoras.
— Por isso, vou te dar um presente. Algo que o ajudará a cumprir seu dever. Veio das mãos de uma Inquisidora. Lembre-se: nunca o mostre a estranhos. Nem mesmo aos seus mais próximos.
— Ele vem do poder infinito do Imperador e de antigos decretos. É o alicerce que mantém o Império de pé… mas também uma maldição para quem o carrega.
— É a fonte do poder da Inquisição. A materialização do temor e da adoração das pessoas.
Ela pegou o broche em forma de rosa, do tamanho de uma palma, e o exibiu com orgulho. O Roseta de uma Inquisidora.
Quem quer que o possuísse estaria acima da lei do Império. Quem quer que o brandisse poderia comandar exércitos inteiros.
Muitos matariam por tal poder. Mas Taylor apenas ficou em silêncio por um momento antes de responder:
— Posso recusar?
A Senhora Inquisidora hesitou, então sorriu. — Não.
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Capítulo 101 – Rumo ao Setor Cádia
Ao sair da Black Ship, Taylor estava atordoado. Um objeto pequeno, mas incrivelmente poderoso, agora repousava em seu bolso.
Ele havia se tornado uma das pessoas mais influentes do universo.
Mas isso não significava que ele tivesse realmente poder. Nem que ele fosse um Inquisidor. Se a Inquisição decidisse revogar sua autoridade, tudo aquilo se tornaria pó.
E o que era a Inquisição? A Inquisição era os Inquisidores. Eles eram a personificação do poder. Não, eles eram o próprio poder.
Dentro de seu compartimento na nave, Taylor observou aquele símbolo de honra e força. Se ele o erguesse, poderia ordenar a exterminação de um planeta inteiro. Ou reunir dezenas de naves imperiais para formar uma frota e marchar sob seu comando.
Mas todo aquele poder era inútil. Não o livraria do serviço militar. Nem o tiraria do sombrio 41º milênio.
Ele suspirou e guardou o objeto com cuidado.
Não entendia por que, em um mundo cheio de pessoas brilhantes, ele tinha que carregar esse fardo.
Era pesado demais. Quase o sufocava.
Taylor estava fazendo o possível para esquecer aquele assunto. Amarrou firmemente o embrulho com um nó de serpente e o escondeu dentro da roupa, em um local onde nunca se soltaria.
Em seguida, voltou ao Mundo Mecânico onde estava acampado para se despedir da garota de Krieg e dançar com a Senhora Elena.
Com o guloso pequeno do Mechanicus, escreveu uma nova receita que incluía ingredientes que nenhum humano comum deveria – ou poderia – comer.
Por fim, organizou um banquete para reunir todos os seus amigos que estavam por ali.
Pediu à cozinheira Letlim que preparasse seus pratos especiais, mas fez questão de avisar:
— Nada de latas de formiga-touro na comida, tá?
Os Altos Lordes haviam ordenado que a maioria das linhas de produção incluísse aquilo, mas, na prática, além de matar soldados, a medida não havia resolvido nada em termos de escassez de comida.
— A menos que matar soldados seja a solução. Aí sim, foi um sucesso.
Os pensamentos de Taylor começaram a divagar. De uma simples lata, ele começou a refletir sobre como o Império lidava com os tempos caóticos, até que foi puxado de volta à realidade pelos chamados à mesa.
Agora, ele estava diante de uma multidão de altos oficiais da Guarda Imperial, seus companheiros de armas.
Preparou-se para agradecê-los, mas, ao olhar para a garota de Krieg, a Senhora Elena e os outros – alguns conhecidos, outros não –, as palavras simplesmente não saíram.
Gaguejou:
— Eu... preparei... Amasec suficiente e comida... Então... é isso! Bom apetite!
Não foi o melhor discurso de banquete, mas a simples presença de Taylor já bastava. Todos comeram e beberam, quase esquecendo a guerra e a morte.
Na manhã seguinte, Taylor acordou com uma ressaca daquelas.
Levantou-se, olhou ao redor – paredes de metal, teto alto – e esfregou o rosto ainda zonzo. Uma mão mecânica lhe entregou um remédio para a ressaca e um cantil.
— Obrigado, eu precisava disso.
— E eu preciso que você tome isso.
A voz era áspera e familiar, como quando um pai pega o filho fazendo merda.
Taylor acordou de repente, sem nem precisar do remédio.
Ao lado dele, o velho Tykes sorria.
— Relaxa, eu sei do banquete. Foi ótimo.
— Até vocês ficarem bêbados e invadirem a sala de comando, gritando palavras sem sentido e quebrando meu rádio favorito.
— Eu sei que ele já estava velho, mas era o único que pegava sinal em qualquer lugar. Me acompanhou por seis anos – mais que você.
— Agora você está na cela de um cruzador. Tem tempo de sobra pra refletir.
Taylor tentou se lembrar...
Ele invadiu a sala de comando?
— Foi só um erro de bêbado. Eu pago em thrones ou trabalho extra, pode me soltar? — disse, rápido.
Tykes riu.
— Não, você vai ficar aí. Porque agora vou te explicar algumas coisas.
Taylor ficou em alerta. Aquilo não era bom.
— Primeiro: a Inquisição nos deu uma missão – lidar com os Impuros. E o Departamento Munitorum nos mandou para o Setor Cadia.
— E, antes que você reclame, você e o Dragan fizeram um belo trabalho contra os Marines do Caos.
— Mas agora, o Setor Cadia está sob ataque da Legião dos Plague Marines, liderada por Tífon. Criaturas anormais e pragas estão se espalhando.
— Nós vamos ser a força de reserva, entrando quando os locais não derem conta.
— É uma missão difícil, e nós ganhamos ela... por sua causa.
— Como um leal servo do Império, agradeço por tornar meu nome conhecido em Terra.
— Mas provavelmente vão esculpi-lo no Muro dos Heróis. Como um morto.
Tykes deu uma risada amarga.
Então, mudou o tom:
— Por isso, você precisa garantir que a gente não morra. E a parte mais importante é...
A porta da cela se abriu. Vários figurinistas e maquiadores entraram, carregando uma câmera enorme e complexa.
Taylor já entendeu.
— Não. Não! Não mesmo!
— Eu não vou ficar posando pra cartaz com título idiota tipo: "O que é um herói do Império?"
— Essas merdas ficam nos espaçoportos e praças públicas! Vocês nunca ouviram falar em direito de imagem?!
— Metade do setor já sabe meu nome – hereges, xenos e até os "leais".
— Como diz o ditado: "Homem famoso vira alvo, Grox gordo vira jantar."
Tykes sorriu.
— Conheço uns retocadores de imagem muito bons, lá nos fundões da Spire. Se eu der os negativos, eles fazem o cartaz.
— Eles fazem um cara chorando parecer que está rindo, e um sorrindo parecer que perdeu a mãe.
— São tipo mágicos, e baratos.
— E acredite, você não quer que mexam nas suas fotos. Porque um negativo pode render... coisas interessantes.
— Que tal uma foto sua com um xeno, em uma situação comprometedora?
— Acho que os Magos iam adorar isso.
— Mas se você cooperar, você vira o garoto-propaganda do Munitorum. Ninguém mexe em você. Até insultar seu nome pode dar cadeia.
— Então escolha: quer ser uma estrela pornô famosa nas Spires... ou um servo leal do Império?
Taylor ficou pálido.
— Porra... eu tenho escolha?
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Capítulo 102: A Dinastia do Mercador, Parte 1
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