A chuva comum não assusta, o assustador é a chuva de Armageddon — aquilo praticamente é um veneno corrosivo mortal.
Anos e anos de resíduos industriais da civilização humana acumulados na atmosfera, e a chuva era o meio de vingança deles.
Se não quisessem ser queimados até não sobrar nem um fio de cabelo, precisavam entrar no veículo rápido.
Depois da pá de sapador raspar o metal enferrujado com um chiado ensurdecedor, Taylor e seus companheiros finalmente conseguiram embarcar no Frankensteyn, que estava mais ou menos funcionando novamente. Os defeitos que sobraram seriam lavados pela própria chuva.
Afinal, aquela chuva provavelmente era pior que ácido sulfúrico.
Enquanto o céu sombrio começava a derramar aquelas gotas malditas, Taylor observava pela janela do passageiro um mundo desolado, sem um vestígio de vegetação.
— Esse lugar ter uma floresta deve ser um milagre da biologia.
A Cabo Kattie respondeu:
— Na verdade, tem mesmo, comandante. Perto do equador deste mundo, há um sistema complexo de florestas.
Taylor respondeu com sarcasmo:
— Ah, claro. Com certeza trouxeram essas plantas diretamente de Catachan...
Ele abriu o datapad e se conectou ao acampamento mais próximo da Guarda Imperial, um lugar chamado [Vila Inferno].
Para ser sincero, até que era um nome romântico para um acampamento, mas isso não era bom. Normalmente, os acampamentos eram identificados por códigos, no máximo com o nome de algumas unidades destacadas ali.
Aquilo já parecia errado desde o começo, mas eles não tinham para onde ir — estavam muito longe do local de pouso planejado.
— Esse lugar me dá uma sensação ruim.
— Batedor, consegue sinal de rádio dali? — perguntou Taylor.
O infeliz carregando um rádio enorme nas costas respondeu:
— Comandante, só tem barulho de Ork verde gritando por aqui.
Taylor suspirou.
— Não podia ser diferente. Minha vida nunca foi fácil.
Esfregou o nariz e comentou, sarcástico:
— E pensar que poderia ser pior do que ser perseguido por insetos gigantes com carapaça de quitina...
— Vamos até o equador. Se essa floresta existe mesmo, talvez a gente encontre aqueles caçadores de Orks.
Taylor olhou para a chuva assassina do lado de fora. Mesmo com o Frankensteyn tendo sido selado contra vazamentos, o coração dele ainda batia acelerado.
— O Imperador me proteja. Quando me aposentar, não quero passar meus dias num mundo assim.
Num momento raro de melancolia, ele filosofou:
— Olha essas gotas... No fim, somos todos almas presas pela gravidade.
Uma soldada Ratling se aproximou com uma garrafa de água com gás.
— Comandante, bebe um pouco disso. Isso não parece você — será que tá com falta de açúcar no sangue?
Taylor riu.
— Acho que o estresse e o medo crônicos alteraram meus genes. Agora sou uma criatura ainda mais estranha.
A Inquisidora comentou, seca:
— Nesse caso, talvez eu precise considerar levá-lo a julgamento.
Taylor acenou com a mão, distraído, enquanto o Frankensteyn adentrava a região do equador. De repente, uma floresta anormalmente densa surgiu à frente.
Imediatamente, ficou em alerta.
— Chega de brincadeiras. Agora, o importante é descobrir como sobreviver.
Conforme o veículo avançava pela floresta estreita, a lâmina dianteira do Frankensteyn — que ainda não havia sido removida desde a campanha em Luka — mais uma vez provou sua utilidade.
Arbustos verdes e lama ácida eram arrancados e empurrados para os lados. Logo, uma barricada característica apareceu no caminho: uma cerca de metal e madeira, claramente improvisada.
— Parece trabalho de Catachan — comentou a Inquisidora, reconhecendo o estilo.
Taylor sorriu.
— Então devo conhecê-los. Mas acho que os daqui são mais amigáveis?
Ele colocou a cabeça para fora, feliz por a floresta bloquear a chuva corrosiva. Mas, no mesmo instante, um tiro de carabina explodiu no ar.
O instinto de sobrevivência de Taylor o fez se esquivar no último segundo, como se tivesse um "sexto sentido" para perigo.
— Errou?! — uma voz rouca surgiu da floresta.
Um homem de meia-idade, usando nada além de uma tanga de couro e uma coleção de dentes e ossos de Ork como enfeites, saiu das sombras. Na cabeça, ele carregava o crânio enorme de um Warboss — coisa que só um louco ou um herói faria.
Na mão, segurava uma carabina de calibre pesado, modificada. Uma arma que arrebentaria os punhos de um homem comum, mas ele a segurava como se fosse nada.
À sua volta, pelo menos trinta outros homens espreitavam entre as árvores — todos dedos no gatilho.
Taylor, em alerta, gritou:
— Por que diabos atirou em um aliado?!
O caçador de Orks, com um sorriso sanguinário, respondeu:
— Qualquer um que entrar na floresta morre. Como eu sei que você não é um Ork disfarçado?
Seu rosto mudou quando notou o facão de Catachan na cintura de Taylor.
— Faca de Catachan? Desde quando deixam fracotes como você entrar lá?
Antes que Taylor pudesse responder, a Inquisidora saiu do veículo, furiosa.
— Você acabou de atirar contra um oficial do Império, senhor. E ele está sob minha supervisão direta. Isso já configura três acusações de pena de morte!
O caçador de Orks pareceu recuar um pouco ao reconhecer os símbolos da Inquisição.
— Primeiro um Catachan estranho, depois a Inquisição... Semana passada foram os Marines Espaciais. O que tá acontecendo com essa floresta?
Taylor aproveitou a abertura.
— Marines Espaciais? Onde?
O caçador respondeu, apontando para o horizonte:
— Os azuis. Eles estão acampados perto da Hive City, junto com uns caras da Guarda de Ferro.
Taylor sorriu, aliviado.
— Finalmente! Posso me reunir às tropas principais e deixar esses Orks para trás!
O caçador franziu a testa.
— Deixar para trás? Você não trouxe eles até aqui? Por que acha que eu atirei?
O sorriso de Taylor congelou no rosto.
[Perigo].
A chuva tóxica de Armageddon, o cansaço, a névoa venenosa — tudo isso o distraíra do óbvio: Orks nunca eram só estúpidos. Alguns eram espertos. Muito espertos.
Ele levantou a arma.
— Onde?
O caçador já tinha o dedo no gatilho, olhando para as árvores.
— Em todo lugar. Eles já chegaram.
No mesmo momento, a floresta inteira ecoou com o som que Taylor mais odiava no universo.
Os Orks não estavam atrás deles.
Estavam na frente o tempo todo — usando Taylor e seu grupo como isca para encontrar os caçadores.
[ALERTA DE COMBATE].
[INIMIGOS DETECTADOS].
[PREPARE-SE PARA MORRER].
Agora, os gritos de "WAAAAGH!" que cobriam o céu vinham de todos os lados...
Capítulo 65 — Caçadores de Orks, Parte 2
A guerra estava sempre ali, seguindo como uma sombra. Taylor já estava acostumado. Quando ele gritou, histérico:
— Protejam-se!
Os fiéis e confiáveis membros do 15º Esquadrão já tinham levado o Frankensteyn para dentro de uma floresta próxima, transformando a maioria dos tiros dos orks em disparos inúteis.
Os homens responderam com tiros de laser e bolters, como sempre faziam. Mas, desta vez, eram muitos — mesmo com a ajuda dos caçadores de orks, seria difícil conter aquela maré num curto espaço de tempo.
Taylor observou, tenso, enquanto uma massa de orks avançava como uma onda viva. Não era a primeira vez que ele enfrentava uma situação assim, mas agora o Frankensteyn estava preso, sem conseguir recuar facilmente.
Com a voz trêmula, ele perguntou rapidamente para um dos caçadores:
— Meu veículo não consegue recuar! Como diabos vocês escapam nas suas carroças?
O sujeito só deu um sorriso maluco e respondeu:
— Pelo Grande Verde!
— Fugir? Por que fugir?
— Minha cabeça tá cheia de planos!
Num instante, ele ergueu a arma e disparou contra um grupo de orks concentrados num ponto. Logo em seguida, algo sob o solo explodiu com violência, arremessando terra e raízes para o céu.
Como descrever aquilo?
Terra tóxica e corrosiva subiu como uma muralha pesada, arrastando árvores grossas junto. Parecia que uma colina inteira tinha sido arrancada do chão!
Taylor não teve como contar quantos orks morreram na explosão, mas era óbvio que os sobreviventes seriam enterrados ou esmagados pelos destroços. Enquanto isso, os caçadores de orks soltavam gritos ainda mais selvagens que os dos próprios orks, como se quisessem mais.
— Você é um maluco! — Taylor quase gritou, assustado. Eles estavam em cima daquele solo. Se o peso do Frankensteyn tivesse detonado aquele explosivo, tudo teria acabado ali mesmo.
O caçador só encolheu os ombros.
— E daí? Só umas centenas de quilos de explosivo. Vocês, soldadinhos de elite, nunca viram um negócio desses?
Taylor riu, exasperado.
— Soldadinhos de elite?!
Era a primeira vez que alguém o chamava assim — normalmente, ele era quem usava esse termo para zoar os outros.
Respirou fundo para se recompor e olhou para a cratera no chão, sem entender como aqueles lunáticos conseguiam agir daquele jeito. De repente, ele sentiu que entendeu como Tekais devia se sentir olhando para ele.
— Podemos ir para Cidade Inferno agora? — perguntou, cansado.
O caçador revirou os corpos dos orks, pegou algumas armas e jogou um bolter grotesco nas mãos de Taylor.
— Seu quinhão.
— A gente não precisa de suprimento. Só vamos embora quando a munição acabar.
Foi aí que Taylor entendeu de onde vinham aquelas armas modificadas e superdimensionadas que eles carregavam. Eles estavam usando equipamento ork!
E, se ele não estivesse enganado, o cara tinha dito "Pelo Grande Verde" antes...
Taylor olhou para a inquisidora, como se perguntasse: Isso não é um pouco herético demais?
Ela só suspirou, olhando para o céu cinzento.
— Em um lugar como Armageddon... a luz do Imperador talvez não chegue tão fácil.
— Não desista agora! — Taylor quase engasgou. — Onde fica o princípio da Inquisição nisso tudo?
A inquisidora foi pragmática na resposta.
— Você realmente acha que aqueles caras ainda são humanos?
Taylor olhou para o bolter ork em suas mãos — grosseiro, mal-acabado, parecendo prestes a explodir a qualquer momento. Ele jamais teria coragem de usar aquilo... mas aqueles malucos manuseavam as armas como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Humanos?
Humanos conseguem usar coisas que funcionam só no "ACHO QUE DEVE FUNCIONAR"?
Taylor suspirou.
—...Tá. A luz do Imperador realmente não chega aqui.
O lado bom? Taylor sempre foi pragmático. Aqueles loucos eram úteis — o problema era que, até se cansarem, eles não iriam parar.
Então, era hora de partir para o protocolo padrão: sobrevivência na selva e construção de um acampamento. Conforto sempre foi a prioridade máxima do 15º Esquadrão. Talvez fossem "soldadinhos de elite" mesmo.
Em poucos minutos, Taylor tinha toda a área organizada. Ele camuflou o Frankensteyn com folhagem, montou tendas cobertas com lona à prova d'água e demarcou áreas específicas: desinfecção, refeições, comunicação por rádio. Em pouco tempo, aquele pedaço da floresta virou um pequeno posto avançado.
Não sabia se ia ser útil, mas era melhor prevenir.
Logo depois, Taylor já estava sentado para um almoço decente. A floresta local tinha criaturas bizarras, mas, segundo os dados que ele tinha, algumas espécies possuíam resistência a toxinas. Sua carne teoricamente era comestível. Restava saber se a informação era confiável.
Quando os bifes de lagarto fritos chegaram à mesa, todos ficaram chocados ao ver a inquisidora pegar um sem hesitar.
— Vocês não sabiam? — ela disse, mastigando com naturalidade. — Antes da Inquisição, fui psíquica da Guarda Imperial por onze anos.
Taylor engoliu seco.
— Espera... quantos anos você tem?
— Para psíquicos, idade não importa. Você só vai ver como a gente realmente é no dia da nossa morte.
Ele lembrou daquela mulher cultista e murmurou:
—...É isso?
Agora ele tinha certeza: tinha chamado a atenção de um monstro antigo. Só isso já deixou a pele dele arrepiada.
Mas o jantar "aconchegante" durou pouco. Quando Taylor pegou o binóculo para checar os arredores, algo nos céus chamou sua atenção.
Meteoros.
Diversos deles, caindo em linha reta.
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