Resumindo, se os T'au decidissem atacar o Império agora, Taylor não ficaria surpreso, mas isso iria contra o princípio do "Bem Maior" que eles tanto pregam.
Só que julgar essas coisas por padrões morais era... complicado.
Enquanto Taylor refletia sobre isso, várias aeronaves laranjas riscaram o céu. Ele quase se jogou no chão, com medo de que seus pensamentos pessimistas se tornassem realidade.
Mas o traje cerimonial local era tão apertado que ele mal conseguia se mover, ficando parado no veículo como uma estátua. As máquinas lançaram alguns dispositivos, e quase todo mundo — civis e militares — se escondeu instintivamente. Só Taylor, que não conseguia se abaixar, continuou lá, em pé.
Era uma pegadinha sem graça. Vários projetores de holograma com paraquedas pousaram na rua, exibindo uma mensagem gravada do embaixador T'au, expressando respeito e desculpas a Taylor.
Quando as pessoas viram que ele permaneceu firme e impassível, acharam que era por coragem.
Na verdade, ele só estava congelado de medo.
Depois de horas desfilando, Taylor voltou para a base. Enquanto tomava um chá feito pela soldada Letty e deixava a Cabo Katy massagear seus ombros, ele admitiu:
— Isso foi cansativo... mas valeu a pena.
Só que ele não pretendia ficar ali por muito tempo.
Os enxames de tirânidos haviam recuado, mas os atritos entre os T'au e o Império só aumentavam. Ambos os lados acumulavam forças e negociavam, mas quem sabia quando o Império perderia a paciência ou os T'au mostrariam suas verdadeiras intenções?
Taylor não queria morrer numa guerra dessas. Ser morto por um chefe ork até que dava para chamar de honroso...
Até agora, ele ainda achava que estava sonhando. Ele, derrotando uma frota de Nid?
— Tá de brincadeira!
Mas, por enquanto, ele só queria aproveitar essa rara paz.
Nos meses seguintes, os conflitos entre T'au e Império só pioraram. Taylor via mísseis cruzando o céu, explodidos pelos sistemas antiaéreos, e vivia com medo de um deles cair em cima dele.
Felizmente...
Poucos dias depois, sem surpresa nenhuma, ele foi transferido daquele mundo.
Afinal, como um herói do Império, o Departamento Militar não hesitou em mandá-lo para uma frente de batalha ainda mais sangrenta.
— Ah, obrigado, Departamento Militar! Vou agradecer seus ancestrais por oito gerações! — resmungou Taylor.
Ele recusou uma promoção por um motivo simples: quanto mais alto seu posto, mais difícil seria desistir.
Ele poderia viciar na glória e nos privilégios, até morrer por sua própria arrogância.
Se ele esquecesse quantas coisas horríveis existiam nesse universo, bastava lembrar que pessoas como ele morriam todos os dias nas garras de monstros.
Mas os soldados interpretaram sua recusa como um ato nobre — como se ele quisesse compartilhar os sofrimentos da tropa.
Sua fama no 36º Regimento de Scadia só cresceu, quase igualando a do comandante. Até em outras unidades da Guarda Imperial, o nome do "Barão" Taylor se espalhou.
Era engraçado. Eles não sabiam do pavor que ele sentia toda vez que viajava pelo Caos, comendo guloseimas para tentar esquecer o medo de turbulências disformes.
Nem de seu medo ao enfrentar os inimigos do Império.
Tudo o que viam era um homem que podia arrancar a cabeça de um ork com as próprias mãos.
No fim, ele deixou aquele belo mundo. Ele não esperava que o próximo destino fosse outro planeta-jardim — lugares assim eram raros nas fronteiras do Império.
Seus pulmões, acostumados com ar puro por meses, aguentariam a fuligem das cidades-colmeia?
Mas o destino gosta de pregar peças.
Após semanas de viagem, ao sair da nave de transporte, ele se deparou com uma densa floresta. O ar úmido, o ambiente tropical, o chão coberto de samambaias...
Sem acreditar, Taylor tocou a lama e a vegetação apodrecida no chão. Na verdade, ele sentiu saudade.
Já estava planejando o jantar — talvez caçar algum animal local ou colher frutas. Afinal, no mundo anterior, ele só comeu peixe por meses.
— Tô com vontade de um frango assado na lama... — pensou, olhando para os pássaros locais.
Mas antes que pudesse agir, o velho Tykes apareceu, com aquele pescoço duro como o de Rogal Dorn.
— Taylor, seu zika! A Major Arlan quer te ver! — resmungou.
— Eu? Uma major quer me ver? — Taylor apontou para si mesmo, desconfiado. — O que eu fiz? Acabei de chegar!
Tykes apenas indicou um grupo de homens musculosos, pintados com camuflagem, lenços vermelhos amarrados na cabeça e nos ombros.
Eles carregavam espingardas, rifles, lançadores de granadas e outras armas leves.
Uma mulher se aproximou. Seu bíceps era maior que a vida de Taylor, e seu braço direito era totalmente mecânico.
Notando o olhar de Taylor, ela perguntou:
— Quer experimentar um desses?
— Nem pensar! — ele respondeu, sorrindo.
Ela olhou para sua cintura e, num movimento rápido, puxou a faca que ele carregava.
Taylor reagiu por instinto — puro reflexo de sobrevivência. Sua mão agarrou o braço mecânico da major, mas ela só examinou a lâmina.
— Então foi você que matou aquele ork. Agora ela é sua por direito.
Taylor viu que ela também carregava uma faca... idêntica à sua.
Uma palavra maldita passou por sua mente, confirmando quem eram aqueles soldados.
Eles eram...
Catachans!
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Capítulo 47: Demônios Verdes (Parte 1)
Catachan é um mundo-floresta mortal, e aqueles que nascem lá carregam seu nome.
Sem tecnologia espacial avançada, o único jeito de sair dali é se alistando na Guarda Imperial.
A maioria das pessoas via Catachan como um lugar de honra e força, mas também de selvageria ridícula. Seu comportamento excêntrico fazia com que o Departamento Militar os retratasse como macacos selvagens, chegando até a chamá-los de sub-humanos.
Seja pelo número de comissários que haviam matado, pela rejeição aos suprimentos padrão do Departamento ou pela reputação de brutalidade, a fama deles era notória. E Taylor sabia de onde vinha essa má reputação. Em Catachan, não importava sua origem, família ou nobreza — nada disso tinha valor para eles.
Essa mentalidade fazia com que a maioria dos oficiais do Império, especialmente aqueles vaidosos sem feitos ou méritos reais, fossem vistos com desprezo pelos catachanianos. Mas, no momento, Taylor tinha uma preocupação mais urgente.
— Catachan?! Então este é aquele mundo da floresta mortal? Sabia que o Departamento Militar não era tão generoso assim! — exclamou.
A oficial catachaniana segurou sua cabeça com firmeza e respondeu:
— Ei, garoto, não sei o que está pensando, mas se isso fosse Catachan, você já estaria morto.
Taylor sorriu.
— Isso é uma boa notícia.
A mulher suspirou profundamente, deixando escapar um ar de cansaço, e partiu com seus companheiros. Eles eram orgulhosos e distantes, sem qualquer interesse em Taylor. Por fim, ela soltou uma frase que poderia ser um elogio ou uma zombaria:
— Tudo bem. A floresta aqui está cheia de demônios. Se eu ainda te vir daqui a alguns dias, é porque você é bom.
Ela então soltou-o devagar, devolvendo-lhe a faca.
Pelo menos, ele não estava sendo classificado como fraco ou inútil.
Ignorando os avisos, Taylor começou a planejar a próxima missão, ainda que seu conhecimento sobre o mundo fosse limitado. Afinal, estavam no Sistema Karu, no Setor Cortina Púrpura de Roland, no Segmentum Ultima. O nome local significava algo como "verde" ou "floresta".
Era um lugar bonito, com copas de árvores gigantes e um ar úmido, formando uma paisagem verde hipnotizante. Mas a riqueza da biodiversidade e do ambiente o deixava preocupado — um ataque de enxames era uma possibilidade real.
Quanto ao relatório?
Não havia muita coisa útil ali. Taylor deduziu apenas que algo estava perturbando a região e que sua tarefa era assegurar a segurança do local. Na verdade, o objetivo principal era lidar com a infestação de Orks, que ainda estava em níveis controláveis.
O que ele não entendia era por que o haviam enviado para lá, ainda mais com uma força de 60 catachanianos estacionados. Aqueles brutos tinham bíceps tão impressionantes e armas tão potentes que poderiam enfrentar até Marines Espaciais.
Comparado a eles, Taylor sabia muito bem o que era: apenas um coitado, sonhando em se aposentar, abrir uma lojinha ou viver de aluguéis.
O motor do Frankstein revolvia a terra, e as lâminas do trator rasgavam o solo sem esforço. Ao ver a lama cobrindo a carcaça do veículo, Taylor finalmente soltou uma risada.
— Ha! Olha só, não dá mais pra ver o emblema da tropa.
A senhorita Katie revirou os olhos.
— Chefe, você não é quem vai lavar, mas a gente sim! Vamos ter trabalho extra.
Taylor encolheu os ombros.
— Trabalho faz parte da vida.
A ratinha de Ratling perguntou:
— Então vai ajudar a gente?
Taylor foi categórico:
— Nunca!
No meio dos protestos indignados, o Frankstein finalmente chegou ao posto avançado. O local, uma fortificação de dois andares no meio da floresta, tinha um depósito de munições embaixo e, em cima, uma estrutura de concreto circular capaz de abrigar cerca de 30 pessoas.
Nas laterais, três letras brancas gritavam: "PO7". O único problema era que o lugar parecia desolado demais para servir de lar pelos próximos meses.
Assim que chegaram, um jovem oficial da Defesa Planetária, já acampado há algum tempo, começou um relatório formal. Eram cerca de 20 soldados, responsáveis pela manutenção básica da instalação e armados apenas com armas simples.
Seus uniformes eram feitos de tecido, e os coletes improvisados de metal imitavam os do Exército Imperial — algo que Taylor reconheceu facilmente.
O oficial parecia inexperiente, com um capacete marcado com uma patente enorme, uma "tática" para levantar o moral da tropa, mas que na prática significava:
— "Sou um oficial, atire aqui!"
Enquanto isso, o equipamento de Taylor, embora simples, era de elite. Sua armadura oferecia proteção suficiente, e suas armas — plasma e lâmina letal — podiam até desafiar um Marine Espacial.
Mas o oficial claramente não tinha olhos para isso. Provavelmente era filho de algum burocrata e, vendo que Taylor tinha idade parecida, entregou os documentos e voltou para seu jogo de cartas.
Katie bufou, indignada.
— Como ele ousa tratar um herói do Império assim?
Taylor nem ligou.
— Deixa pra lá.
Pegou então seu objeto favorito: um retrato do Imperador, encomendado aos T'au. Colorido, em alta definição, resistente à corrosão e umidade. Pendurou-o na parede de seu quarto e rezou, piedoso:
— Oh, Senhor da Humanidade, tão sábio e grandioso... poderia me dizer se algum dia conseguirei me aposentar em paz, casar e ter filhos?
O Imperador, é claro, não respondeu. Taylor deu uma risada amarga. Afinal, já era um milagre estar vivo — que direito tinha de pedir mais?
Num universo onde bilhões rezavam ao mesmo Deus, só de ser notado, ele já devia se considerar sortudo.
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