Capítulo 31: O Caminho do Bem Maior, Parte 3
A Nová percebeu o valor de Taylor. Se ele concordasse, até mesmo o Império sentaria para conversar.
Apesar de ser apenas um tenente, a insígnia da Estrela de Tera e sua reputação poderiam acalmar até os humanos mais belicosos.
E agora, com uma arma apontada para sua cabeça, Taylor não tinha escolha a não ser cooperar — a menos que quisesse ver seu crânio virar uma obra de arte expressionista.
Depois de uns murmúrios e resmungos, ele admitiu a derrota: estava rendido por uma arma maior que ele.
A Nová não esperava que o herói do Império se dobrasse tão facilmente — bastou ver o cano da pistola para ele aceitar a “hospitalidade” forçada.
Ela o segurou por trás em uma pose ambígua, a mão direita pressionando a arma contra sua nuca, enquanto a equipe do 15º Esquadrão assistia, de queixo caído, os dois entrando no Devilfish.
Para falar a verdade, a armadura dele era dura e nada confortável — certamente não era a experiência mais agradável.
Mas o que realmente irritou Taylor foi a reação dos seus soldados. Os caras olhavam para ele como se dissessem:
— Lá vai o chefe, se metendo em outro rolo com mulher!
A soldada Ratling até gritou:
— Chefe, traz umas receitas da culinária T’au!
E o Roland completou:
— Se conseguir os planos do veículo suspenso, a gente adapta o Frankenstein pra voar também!
Taylor revirou os olhos.
— Pessoal, eu tô sendo sequestrado, não indo pra um resort!
Ele suspirou. Era um problema ser visto como alguém que sempre dá um jeito.
A Nová sorriu.
— Você e seus subordinados têm uma relação interessante. Isso é o que chamam de confiança?
Taylor respondeu seco:
— Não é confiança, é falta de noção.
Ele entrou no Devilfish como se fosse um passageiro comum e começou a examinar o veículo, típico da tecnologia T’au.
Era achatado, mas o espaço interno não era muito menor que o de um Chimera. Apesar de bagunçado, dava para ver detalhes refinados, com um design que lembrava a estética da Era da Tecnologia Negra humana — curvas, linhas fluidas, círculos.
Nada daquela estética gótica e medieval do Império, com cantos afiados, dourados, águias e caveiras. A ausência desses elementos deixou Taylor estranhamente desconfortável.
Como se o olhar do Imperador tivesse se desviado dele.
Ele fingiu desinteresse enquanto observava os detalhes — as plataformas de suspensão, as armas de pulso de canos múltiplos.
Era um veículo com um poder de fogo impressionante, mesmo que estivesse cheio de revistas velhas e embalagens de comida.
Propaganda e lixo.
Taylor pegou uma revista com uma mulher T’au seminua na capa. Fisicamente, as fêmeas da raça eram parecidas com humanas.
Bem, mais ou menos.
Pele azul, cascos no lugar dos pés e zero nariz.
Ele folheou a revista na frente da Nová, que ficou vermelha.
— CHEGA! Você está sendo sequestrado! Por que está agindo como se nada estivesse acontecendo?!
Taylor encolheu os ombros.
— Já aconteceu antes. Várias vezes.
— E provavelmente vai acontecer de novo.
Ele deu um sorriso amargo.
— Além disso, seus amigos estão com meus soldados. Se eu não voltar, essa história de "igualdade" do Caminho do Bem Maior vai parecer piada.
— Nós dois temos reféns. Então tá tudo equilibrado.
Ele não era exatamente otimista, mas sabia que os Tyranids estavam chegando. Nesse momento, todo lugar da galáxia era perigoso.
Então, por que não arriscar? Talvez os T’au tivessem alguma solução.
Sentado no assento do piloto, ele observou a tela holográfica do Devilfish enquanto folheava as revistas "adultas".
A Nová franziu a testa.
— Senhor, há uma dama ao seu lado.
Taylor mastigou um biscoito roubado da bolsa dela e respondeu:
— No campo de batalha, somos todos guerreiros.
— Tem mais biscoito?
Ele esticou a mão, e ela, relutante, entregou um pacote meio aberto de bolachas de leite.
Taylor mastigou e comentou:
— Achei que só os humanos consumiam laticínios depois da infância.
Ela se deixou levar pela conversa:
— Na verdade, a culinária T’au usa leite como ingrediente, principalmente em caldos. É um símbolo da abundância do Império T’au.
— O leite é uma dádiva dos Etéreos. Nos fortalece em corpo e espírito.
Taylor cortou o discurso:
— Pelo que sei, a agricultura de vocês só cresceu depois de invadirem mundos agrários do Império.
Nová rebateu:
— Isso se chama aprendizado e adaptação.
Ele cutucou o nariz, desinteressado.
— Tô mais curioso pra saber se vocês fazem igual o Império — aplanam montanhas, enchem oceanos com terra e envenenam o solo com fertilizantes até o planeta virar uma fazenda gigante.
— Se fizeram isso, então o tal Caminho do Bem Maior não passa de um Império pintado de azul.
A Nová endureceu o tom:
— Tudo pelo progresso do Império T’au. E isso é o bem.
Taylor acabou com o assunto:
— Tá bom, tá bom.
Esse universo já estava ruim o suficiente.
Os dois continuaram a viagem em um silêncio desconfortável até o Devilfish cruzar o oceano e chegar a uma estrutura colossal, parecida com um porto espacial.
Armas de pulso, canhões magnéticos e veículos T’au de todos os tipos enchiam a plataforma aerodinâmica.
Eles entraram em um elevador translúcido e, conforme subiam, Taylor pôde ver o horizonte sem fim do oceano, ilhas verdes ao longe...
Ele largou a revista e olhou pela janela, esquecendo, por um instante, o absurdo da situação.
Quando o veículo de transporte chegou ao nível superior, Taylor foi levado para fora pela Srta. Nova. Um ancião da casta Tau de túnica azul se aproximou, acompanhado por vários guerreiros fogo totalmente armados.
O velho de pele azul tinha uma fileira de protuberâncias brancas nas bochechas, parecidas com seixos — as rugas dos Tau, que pareciam levemente repulsivas.
Sua voz era elegante e envelhecida quando falou:
— O Alto Oficial da Casta d'Água, Kabutso Li Ken'ra, saúda você.
Ele despejou um nome Tau interminável que Taylor nem tentou decorar.
Mas Taylor lembrava. No primeiro dia ali, ele tinha visto aquele nome na caixa de suprimentos — a comida era até decente. Então respondeu:
— Li alguns dos seus trabalhos. Digamos que... está bem escrito.
Na verdade, ele estava elogiando as rações individuais.
O ancião inclinou levemente a cabeça e disse:
— U'va, J'hu. Li seu relatório. Temos um problema sério pela frente, e este homem pode mudar tudo.
— Deixe-o descansar primeiro. Precisamos notificar o Império.
Taylor ergueu a mão:
— Então... teria um livro de receitas Tau?
O oficial da Casta d'Água assentiu.
Taylor se animou:
— E os esquemas de um Devilfish? Dá pra arrumar?
O alto oficial franziu a testa.
Taylor entendeu duas coisas: primeiro, os Tau faziam a mesma cara de descontentamento que humanos; segundo, ele não queria.
Mas o velho da Casta d'Água surpreendeu:
— Pode ser. Como gesto de boa vontade...
— Afinal, o Império nunca conseguiria replicar.
Dessa vez, foi Taylor quem franziu a testa.
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Capítulo 32 – O Bem Maior, Parte 4
Taylor foi levado a um quarto agradável, decorado com elementos Tau: estátuas de roedores fofos, action figures estranhas e manuais de propaganda sobre as "vantagens da civilização Tau".
Sincero, Taylor sentou na cama macia e branca. O lugar lembrava os camarotes de naves humanas daquela série antiga, Jornada nas Estrelas.
Havia pequenos enfeites pessoais, quadros, revistas e uma fruteira com frutas exóticas. Na parede branca, uma águia imperial dourada estava pendurada com destaque.
Os livros do Bem Maior diziam que a fé no Deus-Imperador não conflitava com seus ideais... embora a maioria dos humanos sob domínio Tau acabasse abandonando o culto — por vontade ou "conveniência".
Afinal, "não conflitar" não significa que você pode sair por aí venerando o Senhor da Humanidade, mesmo que Ele fosse um deus único de 40 mil anos... enquanto a civilização Tau nem tinha 20 milênios.
Taylor resmungou sozinho:
— O Imperador tem 40 mil anos. Quando Ele andava pelo mundo, os Tau ainda eram répteis.
— E você, Taylor? Olha só você agora — prisioneiro desses azuis especialistas em experimentos e lavagem cerebral. Quanto tempo você aguenta?
— Quando sair daqui, não vão te receber como herói, mas como traidor. A Inquisição vai querer saber cada mínimo detalhe da sua lealdade.
— Você está fodido. Sua sorte acabou. Hora de encarar a realidade.
Ele continuou seu monólogo até que uma Tau trouxe o almoço: um prato de frutos do mar parecido com sushi. Taylor mergulhou os pedaços num molho verde estranho (que ele assumiu ser wasabi) e começou a comer, deixando a jovem Tau perplexa.
Sem cerimônia, ele ofereceu:
— Quer experimentar? Não vou conseguir comer tudo sozinho.
Eles foram "generosos" — um prato branco de 40 cm, cheio até a borda. O que eles pensavam que um soldado da Guarda Imperial era? Um competidor de comer rápido?
A Tau hesitou e respondeu em gótico com sotaque arrastado:
— O sabor foi adaptado ao paladar humano, senhor. Eu... não consigo apreciar.
A pronúncia dela era engraçada, como se faltassem letras no alfabeto dela. Mas dava para entender.
Taylor percebeu o firme "não" por trás da educação. Assentiu e devorou o prato sozinho — soldado era soldado, e soldado comia como se não houvesse amanhã.
Talvez fosse um preconceito, mas em meio à guerra, só restava a comida e a fé.
Afinal, amanhã ele poderia estar diante de um pelotão de fuzilamento.
Enquanto limpava a boca gordurosa, a Tau anunciou:
— A comitiva do Império chegou, senhor. Podemos prosseguir?
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