— Somos todos humanos, parem a guerra e retornemos ao abraço do Éter! Pelo Bem Maior!
A voz feminina era clara e cheia de convicção. Taylor ergueu os olhos e avistou uma bela mulher vestindo um traje de combate laranja, com cabelos castanhos amarrados em uma única trança. Seu rosto era delicado, seu corpo bem-proporcionado.
Se estivesse em uma colmeia urbana, poderia ser a esposa de algum nobre ou uma celebridade local. Mas ali, ela estava em pé sobre um veículo suspenso, achatado e laranja, segurando um megafone.
Taylor reconheceu o veículo — era um transportador do tipo "Raia-Diabo".
A visão daquele veículo fez-lhe lembrar do "Frankstein", ainda estacionado no porto estelar. Ele precisava de um meio de transporte. O terreno era plano, e depender apenas das pernas para fugir não era uma opção.
O Frankstein ainda estava em manutenção. Até estar pronto, Taylor teria que se contentar com o que tinha.
Aquela Raia-Diabo parecia perfeita — espaço suficiente, mobilidade suspensa e capaz de flutuar até sobre a água.
Pena que não era dele.
Mesmo assim, Taylor sabia que precisava entender a situação local. Um pouco de informação valiosa faria diferença, e aqueles colaboradores dos T'au poderiam ser úteis.
Ele ordenou que o operador de comunicações abrisse um canal e disse:
— Olá, sou Taylor Kyle Anker, subtenente da Guarda Imperial. Gostaria de conversar. Já li sobre o Bem Maior e os Éteres.
A resposta veio rápida e animada:
— Um honrado oficial imperial? Claro que somos receptivos! Podemos marcar um local neutro para o diálogo...
Ela nem terminou a frase quando Taylor interrompeu:
— Será no nosso acampamento, ou não há negociação.
— E juro pela honra do Imperador que meu único interesse é entender o Bem Maior e os T'au.
A patente militar era a melhor isca. Houve um silêncio breve antes da resposta:
— Se você estiver disposto a jurar pelo Imperador...
Taylor não hesitou:
— Pelo nome do Senhor da Humanidade, juro que não os atacarei.
Pouco depois, a Raia-Diabo aproximou-se rapidamente da costa, parando a uma distância segura, mas ainda dentro do alcance de fogo, diante do forte.
Taylor se aproximou com seus soldados e ordenou:
— Desarmem todos, mas sem algemas. Apenas confisquem as armas.
Ele observou os humanos vestindo trajes laranja e usou o termo dos T'au:
— Uivê Jióu, certo? É assim que eles chamam os humanos.
A mulher parecia animada. A tripulação da Raia-Diabo era toda humana, vestindo armaduras laranja padronizadas e capacetes completos. Eles mantinham postura altiva, como se exibindo seu equipamento.
A "Uivê" respondeu:
— Só usam esse termo para humanos que abraçam o Bem Maior.
Taylor acenou com a cabeça.
— Então pode me explicar melhor o Bem Maior?
— Ah, e durante esse tempo, você ficará responsável por pilotar a Raia-Diabo. Se algo der errado, quero que todos saiamos vivos.
A mulher ficou surpresa.
— Você está me dando o controle do veículo?
Ela estava pronta para morrer, só para espalhar o Bem Maior entre seus irmãos humanos. Mas algo naquele pelotão da Guarda Imperial parecia... diferente.
Taylor sorriu.
— Enquanto você não abrir a boca, os T'au não nos atacarão, certo?
— Pra ser sincero, até torço para que você fique feliz aqui... pra sempre.
A frase fez as bochechas da mulher corarem. Ela baixou o rosto e respondeu:
— Eu sou "Oh", Koro Nova Lara.
Ela estendeu a mão, cumprimentando-o no estilo humano, e acrescentou:
— Se possível, eu adoraria que meu parceiro fosse um homem como você...
Taylor franziu a testa.
O que era aquilo?
A garota estava dando em cima dele?
Mas Taylor não sabia...
Para Nova, ele é que tinha começado!
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Capítulo 30 – O Bem Maior, Parte 2
Nova não nasceu no Império Humano. Ela veio de um mundo totalmente controlado pelos T'au. Para ela, a fé no Imperador era algo estranho, misterioso... e fascinante.
Além disso, era a primeira vez que via um oficial imperial como Taylor. Ele não se recusava a aprender sobre a cultura T'au, era gentil e completamente diferente dos outros oficiais que ela já tentara convencer.
E o que mais a intrigava era que Taylor manuseava os pauzinhos melhor do que ela, nascida entre os T'au, e parecia entender profundamente o Bem Maior.
Era como encontrar um oásis no deserto. Nunca sentira tanta conexão com um humano antes.
A maioria dos humanos que seguiam o Bem Maior apenas veneravam cegamente os Éteres, transferindo sua devoção do Imperador para os líderes espirituais T'au.
Os humanos viviam assim há milênios, e Nova sabia que isso não mudaria de um dia para o outro.
Podia-se dizer que sua vida inteira fora uma luta contra as correntes da fé. Ela não tinha a devoção inata dos nascidos no Império, nem a lealdade fanática dos soldados que se converteram ao Bem Maior.
Era como uma folha arrastada pela correnteza, girando sem controle em um redemoinho.
Por isso, quando Taylor chamou seu nome com suavidade, ela reagiu com um entusiasmo quase infantil.
— Sim! Essa é a situação do Bem Maior neste mundo!
Taylor se assustou com o repentino fervor, mas também percebeu a gravidade da situação no planeta.
Clarkson era um mundo-jardim típico da Ultima Segmentum, rico em recursos e depósitos minerais oceânicos.
Já pertencera ao Império, depois aos T'au, e agora o Império tentava retomá-lo com apenas alguns regimentos de infantaria e blindados.
Sua localização era estratégica — na fronteira do Golfo de Dâmocles, um ponto crucial para conter a expansão T'au e resistir aos ataques da Horda Behemoth.
Claro, Taylor não era um almirante da Marinha Imperial. Ele não precisava se preocupar com isso. Mas sabia que os T'au não desistiriam facilmente.
No momento, ele só tinha certeza de três coisas:
1. O Departamento Munitorum não prestava.
2. Aquele lugar estava longe de ser um "paraíso".
3. A sorte sempre se equilibrava.
Taylor estava com uma expressão cansada. Ele tomou um gole de sua bebida gaseificada favorita, enquanto a senhorita do Corpo de Auxiliares T'au olhava para o copo com curiosidade evidente.
Os T'au tinham um paladar mais suave — bebidas tão açucaradas e cheias de bolhas certamente nunca chegariam à mesa deles.
Pensando nisso, ele estendeu o copo na direção dela.
A jovem ficou com o rosto corado e, baixando os olhos, experimentou um gole pequeno. Só quando percebeu que aquilo poderia ser considerado um "beijo indireto" é que deixou de se preocupar com o sabor forte da bebida.
Para Taylor, porém, aquilo era algo normal. Nos dias enfiado nas trincheiras, ele já tinha bebido de tudo, até mesmo dos cantis de outros soldados.
Os membros da Guarda Imperial passavam por exames médicos regulares — se não havia risco de doenças, então era seguro beber.
A guerra cruel havia apagado qualquer romantismo que Taylor pudesse ter. Cenas como essa eram comuns por todo o Império. Quando viu o rosto dela corado, ele até pensou que fosse por causa do gosto forte da bebida.
Ele estava prestes a perguntar, mas Novaa desviou o assunto.
Ela olhou para o emblema no peito dele e perguntou:
— O que é isso?
Taylor pensou por um instante.
— É a Estrela de Terra.
Nesses últimos tempos, Novaa tinha ouvido os outros membros do 15º Pelotão falarem sobre Taylor. Foi assim que ela começou a ver nele força e confiabilidade.
Mesmo que suas impressões estivessem um pouco erradas, não estavam totalmente equivocadas. Afinal, a própria Estrela de Terra era a prova de tudo.
A admiração do Império pela força parecia estar gravada nos genes humanos.
Novaa olhou para o emblema com um certo respeito, o que fez Taylor perceber uma coisa: se ele estivesse diante de uma unidade T'au, usar aquilo o tornaria um alvo.
Ele tirou o emblema, e Novaa imediatamente perguntou:
— Por quê? É uma grande honra, tão importante quanto um traje de combate. Mas você parece não gostar dele.
Taylor olhou para o emblema reluzente e respondeu:
— A guerra é só uma disputa entre vida e morte. Nada a ver com honra.
— Carregar isso só vai me trazer problemas. Honra deveria ser usada para algo mais útil.
Novaa acenou com a cabeça, de forma meio confusa. Mas pelo menos tinha entendido uma coisa: aquele soldado do Império, quase da mesma idade que ela, havia passado por coisas terríveis — inimigos selvagens que ela mal podia imaginar.
Ela perguntou, curiosa:
— Ouvi dizer que você negociou com orkos. Esses brutos verdes são como animais sem inteligência. Como você fez isso?
Taylor sorriu.
— É simples. Só precisa ter algo que eles queiram. O segredo é fazê-los perceber que, se cooperarem, terão guerras maiores.
Novaa balançou a cabeça, ainda mais confusa.
— Mas isso não é contraproducente? Parar uma guerra só para dar a eles um campo de batalha maior?
Taylor encolheu os ombros.
— Depende. Ser rígido demais só te deixa burro que nem os burocratas do Alto Comando.
— Para nós, soldados da linha de frente, o que importa é sobreviver.
Novaa fez uma expressão pensativa. Ela não entendia. Se tivesse a chance de morrer pela Supremacia do Bem Maior, seria uma prova de lealdade rara.
Até os guerreiros do Fogo T'au lutariam sem hesitar. Até os brutos Kroot morreriam pela causa.
Foi então que ela percebeu: Taylor era o tipo de pessoa com quem era possível cooperar...
Um moderado, capaz de fazer as pazes com os T'au.
Ela era uma guerreira determinada. Apesar da cultura introspectiva dos T'au fazer com que, em muitos momentos, parecesse tranquila e inexperiente, poucos percebiam que seu treinamento não era menos intenso que o de um soldado da Guarda Imperial.
Como parte do Corpo de Auxiliares, sua lealdade era inquestionável.
Ela respirou fundo e disse:
— Sr. Taylor, acho que podemos trabalhar juntos.
Taylor ficou surpreso.
— Trabalhar juntos?
Ela confirmou.
— Como no caso dos orkos, mas sem mentiras por trás.
Ela fez uma pausa, como se procurando as palavras certas.
— Na verdade, este mundo está na rota de uma investida do Enxame Leviatã. Embora seja apenas um pequeno fragmento, nossas sondas T'au já detectaram sua aproximação.
— Como ponto estratégico do Golfo de Dâmocles, este lugar precisa ser protegido. Acho que podemos conversar — a Guarda Imperial local e os T'au, unindo forças para repelir o desembarque do Enxame.
Um zumbido surdo ecoou na cabeça de Taylor. Ele apertou as têmporas, com uma expressão pesada e irritada.
Novaa interpretou mal aquilo como rejeição à Supremacia do Bem Maior, quando, na verdade, ele só estava pensando nos insetos.
Aqueles seres eram a manifestação do Devorador — e ele era só um pobre soldado raso da Guarda Imperial.
Lutar contra o Enxame?
Sério?!
Por dentro, ele xingou os burocratas do Departamento Munitorum e toda a nobreza imperial. Além disso, ele não queria cooperar com os T'au.
Primeiro, porque a Inquisição certamente investigaria. Segundo, porque o poder de fogo do Império era mais que suficiente para lidar com qualquer xenos. O problema era: quanto tempo até a ajuda chegar?
No momento, ele só queria manter-se vivo.
Taylor respirou fundo e respondeu com calma:
— Agradeço o convite, mas...
Antes que ele terminasse, Novaa afastou levemente sua armadura, revelando a pele pálida por baixo.
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