— Serina! — Uma voz rouca e cheia de ódio saiu da boca do cachorro.
— Olhe para mim! Veja o que você fez comigo!
A fera, que outrora fora a mestra Quelisa, rugiu enquanto um raio de energia sombria disparou em direção a Serina. Num piscar de olhos, Yaro saltou do lado, empurrando-a para longe. Os dois rolaram pelo chão até baterem contra a parede da caverna.
O local onde estavam antes agora era uma cratera fumegante.
— Mas que droga! Ela não adorava animais? Agora que virou um, tá reclamando? — Yaro esfregou a cabeça, dolorida após a queda.
— Não se preocupem, vocês não vão morrer tão cedo... — Quelisa rosnou, completamente enlouquecida. — Vou fazer com que implorem pela morte! Vão sofrer tanto que vão desejar nunca ter nascido!
Feixes negros surgiram de todos os lados, voando em direção aos dois. Serina reagiu rápido, erguendo uma barreira branca que absorveu os ataques, fazendo-os explodir em estilhaços sombrios.
— E o seu teleporte? — Yaro gritou.
— Não consigo! Ela bloqueou todas as fontes de mana ao redor! — Serina respondeu, segurando a barreira com dificuldade.
— Então corre!
Yaro a agarrou e saiu em disparada em direção à saída da caverna. Serina, ainda mantendo a barreira, usou a outra mão para lançar um feixe de energia — não contra Quelisa, mas contra os enormes estalactites acima dela.
O impacto fez com que despencassem em direção à mestra transformada. Mas, com um pulso de energia sombria, Quelisa os reduziu a pó, fazendo toda a caverna tremer.
— Ela vai derrubar tudo aqui!
Pedras começaram a cair enquanto Yaro, carregando Serina, corria desesperado em direção à luz no fim do túnel. Quando estavam quase lá, a barreira cedeu, e uma explosão os arremessou para fora, fazendo-os rolar pelo chão. Yaro bateu contra uma árvore e parou, atordoado.
Ao se levantar, notou que o amuleto que carregava havia caído perto da entrada da caverna. Mas antes que pudesse pegá-lo, a boca da caverna explodiu, lançando pedras e uma aura vermelha e sombria. Quelisa emergiu, ainda mais monstruosa.
Do lado oposto, Serina tentava se levantar, mas caía novamente, fraca demais.
Yaro olhou para o amuleto, depois para Quelisa, e finalmente para Serina.
Tinha que escolher.
— Droga! Tá me testando, é?!
Ele rugiu, correndo em direção a Serina e a levantando nos braços.
— Você... — Ela o encarou, surpresa.
[Afeto de Serina +20]
— SÉRIO?! EU DEIXO MEU FUTURO PRA TRÁS PRA TE SALVAR E SÓ GANHO 20 DE AFETO?!
Ele a jogou sobre os ombros e correu colina abaixo, perseguido pela aura assassina de Quelisa.
No último instante, uma figura prateada caiu do céu, girando no ar e atingindo Quelisa com a cauda, arremessando-a para longe.
Yaro parou, boquiaberto.
Cabelos prateados, asas delicadas, uma cauda escamosa e um rosto deslumbrante.
— Zéxia?
A jovem dragão prateada, agora em forma humana, sorriu.
Capítulo 19: A Condição para Entrar
— Zéxia? O que ela está fazendo aqui? — Yaro murmurou, incrédulo.
Quelisa, jogada longe, levantou-se com um campo de energia vermelha ao redor.
— O que é essa coisa nojenta? — Zéxia franziu a testa, sentindo o cheiro repulsivo da magia corrompida.
Quelisa rugiu, ignorando a pressão natural que os dragões exercem sobre outras criaturas. A energia sombria de décadas de magia proibida agora se manifestava como serpentes negras ao seu redor, que se fundiram em uma enorme cobra demoníaca.
— MORRAM! TODOS MORRAM!
Zéxia suspirou, irritada, e deu um simples tapa no ar.
A cobra negra se desfez em fumaça.
Só então Quelisa percebeu, ao encarar os olhos dourados e verticais da dragão, com quem estava lidando.
Era o olhar do topo da cadeia alimentar.
Quando tentou fugir, já era tarde.
Zéxia ergueu a mão, e um raio se materializou como uma lança. Sem hesitar, ela a arremessou.
Quelisa não teve tempo de gritar.
A lança de trovão a atingiu, apagando-a da existência em um clarão.
O chão tremeu violentamente enquanto rochas e árvores voavam pelos ares, depois despencando de volta. Serena ergueu uma barreira mágica para proteger a ambos.
— Isso... isso é o verdadeiro poder da Zexia? — perguntou Arlo, boquiaberto diante da cena apocalíptica que se revelou após a poeira baixar.
Diante deles, estendia-se uma ravina com centenas de metros de comprimento, onde a terra havia sido cristalizada pelo calor extremo. As árvores nas margens estavam reduzidas a cinzas, sem vestígio de vida. A caverna de Serena desaparecera completamente, assim como, provavelmente, a própria Quelisha.
— Espera aí... — Arlo pareceu cair em si. — Então o feitiço ancestral também...
— Minha felicidade para o resto da vida!! — Ele desabou em prantos, batendo as mãos no chão dramaticamente.
— Aquela... é uma dragongirl? — Serena observou a figura alta de costas, com cauda e asas que balançavam levemente. — Arlo, é uma dragongirl! — Ela olhou para ele, animada, mas o encontrou entregue ao desespero, chorando como uma criança.
Serena franziu os olhos. A situação parecia mais terrível para ele do que quando estavam em perigo de morte. Suspirando, ela se aproximou e deu um tapinha em seu ombro.
— Eu... eu vou te recompensar de outra forma, afinal, você me salvou...
— É, tudo por sua causa! — Arlo ergueu o rosto, olhando para ela com os olhos vazios antes de explodir. — Você não faz ideia do que me custou! Eu abri mão da minha vida tranquila por você! Nem que você me desse cem filhos seus, ainda não estaria quite!
— O quê? Filhos?! Eu... eu vou te pagar de outro jeito! — Serena ficou vermelha, gaguejando de vergonha. — Hmph, tenho a sensação de que meu futuro com você vai ser sombrio... — murmurou, puxando o casaco e desviando o olhar.
— Oh, é assim que você trata seu salvador? Prepare-se para virar minha empregada pelo resto da vida! — Arlo berrou.
— Tss.
Um clique de língua interrompeu a discussão. Arlo se lembrou subitamente de que ainda havia um problema sério à frente, tão perigoso quanto Quelisha. Ele se virou para a dragongirl de cabelos prateados, que os observava com um olhar carrancudo.
— Então... obrigado por nos salvar — ele murmurou, nervoso.
— Hmph. — Zexia cruzou os braços, virando o rosto para o lado.
— Aproveitando... o que você fazia por aqui? — Arlo perguntou, desconfiado. Será que ela estava os seguindo?
— Nada da sua conta. Eu só estava passando e resolvi eliminar algo nojento que encontrei — ela respondeu friamente.
Na verdade, Zexia os seguia desde que Arlo saíra correndo atrás de Serena. Perdeu-o quando ele usou o teletransporte e levou um tempão rastreando sua energia. Quando finalmente os encontrou, viu que estavam encurralados. Como Arlo era sua única esperança de recuperar sua forma original, ela não podia deixá-lo morrer. Agora, porém, não sabia como justificar sua presença.
Confessar que fracassara em desfazer o feitiço e precisava dele? Jamais! Uma dragongorgoniana nobre não admitiria tal derrota. Ela franziu a testa, remoendo desculpas na cabeça.
Enquanto isso, Serena se escondia atrás de Arlo, espiando Zexia com cuidado. Nunca imaginara que ele conhecesse uma dragongirl, mas pelo jeito, não se davam bem.
Arlo sentiu o clima pesado e tentou puxar assunto:
— Que tal... eu te convidar para comer alguma coisa?
Silêncio.
— Você... não está com frio só com essa roupa?
Nada.
— Já se acostumou com esse corpo?
— Eu devia te matar agora mesmo! — Zexia explodiu, avançando com os dedos curvos como garras.
— Eu sei como reverter o feitiço! — Arlo gritou, desesperado.
A mão dela estacou a um centímetro de seu pescoço. De perto, seus olhos dourados e afiados o perfuravam com fúria gelada, enquanto seu rosto impecável transmitia apenas desprezo.
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