No dia seguinte, Gu Changfeng só acordou naturalmente após terminar sua rotina de treinamento.
Todos os dias, ele comia um pedaço de cola de baleia centenária no café da manhã, mas ainda precisava garantir comida para os próximos três meses. Preparando suas ferramentas, ele mais uma vez seguiu para as montanhas atrás de sua casa.
Foi só ao meio-dia que Gu Changfeng parou em uma densa floresta, olhando à distância para a cachoeira no horizonte.
Aquele lugar tinha água em abundância e vegetação exuberante, especialmente a grama-prata-azulada.
Ele havia descoberto esse local por acaso, durante uma de suas coletas de ervas medicinais, e suspeitava que poderia ser o local onde a Grama-Prata-Azulada Imperial crescia. Por isso, sempre dava uma olhada por ali quando vinha colher plantas.
Respirando fundo, Gu Changfeng se afastou.
Depois de passar a maior parte do dia ocupado na floresta, ele conseguiu desenterrar pouco mais de dez plantas medicinais, que colocou em sua cesta.
Enquanto descansava, um ruído de folhas sendo agitadas veio de um arbusto à sua frente, seguido por um leve "sussurro".
Gu Changfeng pegou o facão ao seu lado, franziu a testa e ficou alerta.
De repente, uma cobra negra de mais de dois metros de comprimento deslizou para fora da vegetação. Seus olhos negros, sem qualquer emoção, fitavam Gu Changfeng intensamente.
— Cobra-negra?
Seus olhos se contraíram levemente, e seu espírito marcial, o Olho Demoníaco, surgiu instantaneamente. Uma aura feroz e sinistra começou a emanar dele.
Uma cobra-negra inteira valeria muito mais no mercado do que todas as ervas que ele havia coletado.
Mas, se fosse mordido por uma, ele estaria morto.
Priorizando sua segurança, Gu Changfeng recuou lentamente, mantendo os olhos fixos na cobra que sibilava.
No entanto, a cobra-negra parecia relutante em deixá-lo ir, mas também não ousava atacar. Ela apenas continuou a rodeá-lo, observando-o.
Gu Changfeng estreitou os olhos.
Com a melhoria de visão do Olho Demoníaco, os movimentos da cobra pareciam mais lentos.
Olhando para o facão afiado em sua mão e depois para a valiosa cobra, ele pegou uma pedra e a arremessou com precisão em direção à cabeça da serpente.
A cobra-negra reagiu instintivamente, desviando-se do ataque.
Aproveitando a oportunidade, Gu Changfeng brandiu o facão.
— Whoosh
Um jorro de sangue surgiu no ar, e a cobra foi decapitada.
— Uff...
Gu Changfeng soltou um longo suspiro, enxugando o suor frio da testa.
Capítulo 4: Absorvendo a Energia da Fera Espiritual
Mas então, algo inesperado aconteceu.
Acima do corpo da cobra-negra, um anel espiritual branco e translúcido começou a se formar.
— Será... um anel espiritual de dez anos?
Gu Changfeng franziu a testa, examinando o anel branco e etéreo, que parecia prestes a se dissipar a qualquer momento.
Era a primeira vez que ele via um anel espiritual, e também a primeira vez que matava uma fera espiritual.
— Se essa cobra-negra era uma fera espiritual, deve valer muito mais...
— Pela cor do anel, ela devia ter acabado de se tornar uma fera espiritual de dez anos.
Ele sorriu levemente.
— Que sorte... acabei matando uma fera espiritual por acidente.
Lembrando-se de seu espírito marcial, o Olho Demoníaco, uma ideia surgiu em sua mente.
— Vamos tentar...
Gu Changfeng liberou o pouco de energia espiritual que tinha, concentrando-a em sua mão, e estendeu-a em direção ao anel espiritual da cobra-negra.
Nesse momento, fluxos de energia misteriosa começaram a emanar do corpo da cobra, e o anel espiritual se desfez, transformando-se em fios de energia que se dirigiram para Gu Changfeng.
— O que é isso...?
Ele sentiu duas forças distintas percorrendo seu corpo, até que, finalmente, se acalmaram.
Sua energia espiritual, que antes era de nível 1, agora havia subido para o nível 2.
— Como isso aconteceu...?
— Eu nem cheguei ao décimo nível de energia espiritual, como pude absorver um anel espiritual?
— E ainda subi de nível...
Seus olhos vermelhos e verticais estavam cheios de confusão.
Recolhendo o corpo da cobra-negra e arrumando seus pertences, ele voltou correndo para a Vila do Espírito Sagrado.
De volta a casa, após um período de meditação, Gu Changfeng confirmou que sua energia espiritual realmente havia aumentado, ficando mais forte do que antes.
— Será uma habilidade do meu espírito marcial?
— Parece que o Olho Demoníaco pode absorver a energia vital e o poder do anel espiritual das feras mortas, usando-os para me fortalecer.
Seu rosto ficou tenso.
Se ele podia absorver a energia das feras, será que também podia absorver a de outros espíritos marciais humanos?
— Nesse caso, eu me tornaria um alvo... um praticante de artes das trevas, caçado por todos.
— Vou precisar ser mais cuidadoso de agora em diante.
Três meses depois...
O tempo voou, e chegou o dia da matrícula na Academia de Espíritos Marciais de Notting.
Como a única academia de espíritos marciais da cidade, ela ficava no centro de Notting, ocupando uma vasta área e desfrutando de prestígio incomparável.
Até os cachorros de lá eram tratados melhor do que os de fora.
O portão de ferro estava aberto, e um jovem vigiava a entrada.
Mesmo sendo apenas um guarda, seu olhar era afiado e sua postura, arrogante. Ele olhava para as pessoas passando na rua com desdém.
No final da estrada, duas figuras apareceram — uma mais velha, outra mais jovem. Eram o Velho Jack, chefe da Vila do Espírito Sagrado, e Gu Changfeng, que vinha se matricular.
Assim que os viu se aproximando, o guarda bloqueou o caminho e gritou:
— O que vocês querem aqui?!
— Esta é uma academia de espíritos marciais! Pessoas comuns não podem entrar!
Ele já estava acostumado com curiosos tentando bisbilhotar o interior da academia.
O Velho Jack ia responder, mas Gu Changfeng foi mais rápido.
Ele entregou ao guarda os documentos de matrícula e de aluno trabalhador, com cinco moedas de cobre escondidas entre eles.
— Senhor guarda, o mestre Bai Yuntao, da Igreja do Espírito Marcial, me ajudou a despertar meu espírito recentemente. Tenho energia espiritual inata de nível 1 e vim me matricular. Por favor, nos ajude.
Cinco moedas de cobre não eram muito, mas também não eram pouco — o suficiente para alimentar uma família de três por um dia.
O guarda ouviu as palavras, sentindo uma mistura de surpresa e medo. Ao receber os dois documentos, examinou-os cuidadosamente e logo percebeu algo estranho. Após uma rápida inspeção, retirou dele cinco moedas de cobre — seus olhos brilharam ao vê-las.
Sem fazer barulho, guardou as moedas no bolso e passou os olhos pelos documentos, parando especialmente na parte que indicava o nível de energia espiritual. Confirmando que Gu Changfeng realmente possuía energia espiritual, devolveu os papéis ao jovem.
— Entendi. Podem entrar — disse o guarda. — Sigam por esse caminho até o final. Lá haverá uma placa com o mapa da academia, mostrando onde ficam o local de matrícula, os dormitórios e as salas de aula.
Virando-se para o velho Jack, acrescentou:
— Vovô, quando entrar, não fique passeando por aí. Depois da matrícula, saia logo, tudo bem?
— Obrigado, obrigado mesmo! — O velho Jack sorriu, agradecendo repetidamente antes de puxar Gu Changfeng na direção indicada.
Enquanto caminhavam, o idoso observava ao redor com expressão maravilhada. Há muito tempo ele sentia curiosidade sobre como era uma academia de espíritos, e finalmente realizava esse sonho.
No local de matrícula, três professores conversavam animadamente até avistarem o velho Jack e Gu Changfeng se aproximando. Eles os observaram com interesse.
— Senhores — anunciou Jack, curvando-se levemente. — Viemos da Vila do Espírito Sagrado. Eu sou Jack, o chefe da vila, e este é Gu Changfeng, nosso estudante trabalhador deste ano.
Assim que terminou, Gu Changfeng estendeu os dois documentos a um dos homens, que os pegou e leu com atenção. Ao ver a menção a "Olho Mágico" como tipo de espírito, franziu a testa, confuso. Mas quando chegou à parte que indicava o nível de energia espiritual — apenas nível um —, seu rosto revelou um breve lampejo de desdém, rapidamente disfarçado.
— "Olho Mágico"? Nunca ouvi falar… Seu espírito seriam os seus olhos, então?
— Exatamente — confirmou Gu Changfeng, calmamente.
— Que coisa estranha… — O professor anotou as informações e devolveu os documentos, entregando em seguida um uniforme. — Este é o seu uniforme. Você pode ir agora para o Dormitório Sete, o dos estudantes trabalhadores. Repito: Dormitório Sete.
Gu Changfeng assentiu, pegou o uniforme e saiu com o velho Jack.
— Que experiência incrível! Nunca pensei que veria uma academia de espíritos assim — comentou Jack, rindo. Olhou para Gu Changfeng e acrescentou: — Já está ficando tarde, vou voltar para a vila. Estude bastante, meu jovem. Torne-se um verdadeiro espírito no futuro!
Assistindo ao ancião se afastar, Gu Changfeng respirou fundo e seguiu para o Dormitório Sete dos estudantes trabalhadores.
A porta do dormitório estava aberta, e os alunos estavam reunidos em um círculo, todos encarando um garoto mais alto que parecia estar dando ordens com atitude autoritária.
Quando sentiu uma sombra atrás de si, o jovem se virou — e seus olhos encontraram os negros e profundos olhos de Gu Changfeng.
— Olha só, parece que temos um novo estudante trabalhador este ano — disse ele, esfregando as mãos com um sorriso malicioso, como se já planejasse alguma artimanha.
— Olá. Sou Gu Changfeng, espírito: Olho Mágico — apresentou-se o recém-chegado, liberando imediatamente sua energia espiritual. O poder hipnótico de seus olhos, que até mesmo Su Yuntao achara perturbador, fixou-se no rapaz.
O garoto alto congelou no lugar, paralisado.
— O-oi… — balbuciou, sem fôlego.
Capítulo 5: O conhecimento muda destinos
Gu Changfeng passou pelo garoto sem hesitar, caminhando firme enquanto acenava com a cabeça aos outros estudantes.
Instintivamente, os alunos abriram caminho para ele. Assim que seus olhos repousaram sobre cada um, expressões de medo surgiram em seus rostos. Ninguém conseguia manter contato visual.
Chegando ao canto mais afastado, Gu Changfeng pousou sua bolsa no chão e começou a organizar seus pertences.
— E-eu sou Wang Cheng — murmurou o garoto alto, agora trêmulo, aproximando-se dele por trás. — O líder do Dormitório Sete…
Gu Changfeng virou-se lentamente, fitando Wang Cheng com seus olhos ainda envoltos em um brilho sobrenatural.
— Desculpe, não ouvi direito. Pode repetir?
— N-nada… Não foi nada! — Wang Cheng recuou em pânico, acenando as mãos em negação enquanto se afastava o mais rápido possível.
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