Capítulo 84 – Arma de Fogo
— Certo, primeiro vou conferir a mercadoria.
Zhang Famao não tentou pechinchar.
O entregador, vendo isso, pegou mais uma caixa do ônibus e a entregou a Zhang Famao.
Huo Ying estava prestes a ir embora, mas Zhang Famao não se importou com a sua presença — ou talvez quisesse que ele visse — e abriu a caixa na frente dele.
No instante seguinte, Huo Ying congelou. Dentro da caixa havia uma pistola, do mesmo tipo especial que a Pistoleira havia usado.
O cano era grosso, o pente largo.
Zhang Famao examinou cuidadosamente a arma antes de levantar os olhos para o entregador:
— Essa arma está quebrada.
— Óbvio! É uma arma especial do Instituto de Pesquisa. Quem é que ia vender uma funcionando? — O entregador, percebendo que Zhang Famao não entendia, explicou melhor: — Armas comuns são controladas. As especiais, ainda mais. Só as que foram descartadas conseguem vazar pro mercado. E você não quer isso pra estudar? Se fosse uma boa, você ia acabar desmontando mesmo. Uma quebrada já é mais barata e cumpre o mesmo papel.
Zhang Zhanhong respirou fundo, impressionado:
— E o preço ainda é o dobro! Cadê a parte barata?
O entregador ergueu o queixo.
— Armas boas você não consegue. O que eu tô oferecendo já é o melhor negócio possível.
Huo Ying observou em silêncio, refletindo. Parecia que precisava reconsiderar sua avaliação sobre o entregador. O homem não tinha limites com todo mundo — só estava sendo gentil com ele porque estava lucrando muito.
Mas Huo Ying não se importou. Carvão, ele tinha de sobra. Um pouco a mais ou a menos não fazia diferença, desde que o serviço fosse bom.
Zhang Famao ficou virando a arma nas mãos antes de perguntar com hesitação:
— Dá pra fazer um desconto? Cheguei há pouco em Ailing e ainda não me estabeleci. Se for muito caro, não vou conseguir pagar.
O entregador arrancou a arma das mãos dele.
— O vendedor só tá fazendo isso porque precisa urgente de carvão. Você sabe como é — a temporada de chuvas chegou, e nas cidades grandes é pior que aqui. Vão aparecer Espíritos da Chuva, e carvão é a única coisa que funciona contra eles. Se não fosse por isso, o cara preferia consertar essa arma a vender.
Espíritos da Chuva eram criaturas sobrenaturais que surgiam apenas em tempestades. Seus corpos eram feitos de água, quase invisíveis na chuva. Atacavam silenciosamente, e armas comuns — pedras solares, fogo de álamo — não adiantavam. Mesmo se fossem dissipados ou evaporados, bastava a chuva continuar para se reformarem.
A única forma de lidar com eles era usando carvão de álamo. Sua energia purificadora, como a que limpava riachos, era eficaz.
O problema não era tanto o perigo, mas o desperdício de recursos. Álamo já era escasso, e mesmo com avisos do Socorro Mútuo da cidade de XN para as pessoas ficarem em casa, muitos ainda saíam em busca de comida... e acabavam mortos.
Huo Ying tinha aprendido isso numa troca anterior com o entregador. O material que recebera falava sobre criaturas mutantes e espíritos comuns — nada sobre monstros como os da fábrica ou o Espírito do Espelho.
— Mas os Espíritos da Chuva não aparecem só nas cidades grandes. Aqui também vamos precisar de carvão! — Zhang Famao estava preocupado. Ninguém sabia como os espíritos surgiam, mas humanos eram seu alimento. Cidades maiores significavam mais espíritos.
Já em lugares pequenos como Ailing, com pouca gente, um ou dois já era muito.
— Quantos quilos de carvão faltam? — Huo Ying finalmente interveio.
Zhang Famao não respondeu. A quantia era grande, e ele estava com vergonha.
Já o entregador, animado, tentou ajudar:
— Faltam cinquenta quilos! Você vai emprestar? Esse Zhang Famao é confiável — já negociei com ele várias vezes na cidade dele. Além disso, ele manja de tecnologia. Se não tiver pressa, ele paga!
Huo Ying acenou com a cabeça e, então, chamou os dois Zhang para um canto.
Afastados, perguntou:
— Pra que você quer uma arma quebrada assim?
O homem hesitou, mas acabou sendo sincero:
— Você sabe que eu faço armas de pedra solar. Agora, a gente desenvolveu balas também. Claro, nada comparado com o Instituto de Pesquisa, mas... lá, até os soldados da Equipe de Inspeção mal têm acesso.
O problema era outro:
— A gente não consegue as armas. Balas são fáceis, mas armas boas... pistolas caseiras não funcionam. São imprecisas e dependem de força bruta — servem pra matar gente, não espíritos. A energia solar da bala se dispersa. Só armas de precisão funcionam.
— Então, se você tiver a arma, pode fazer as balas? — Huo Ying ficou impressionado. Agora entendia como o pai e o filho haviam sobrevivido — um era especialista em armas de fogo, o outro em armas brancas.
— Não exatamente… — Zhang Famao riu sem graça. — Do zero, impossível. Mas achei alguns estojos de balas especiais em Ailing. Com isso, consigo imitar e criar balas de pedra solar.
Huo Ying entendeu. Os estojos deviam ser da Pistoleira, daquela vez que ela atirou no centro cívico. As balas dela eram quase como mini-mísseis.
— Se eu conseguir essa arma, posso consertá-la. Depois, recarregando os estojos, dá pra ter uma arma especial contra espíritos.
Zhang Famao ficou mais inseguro conforme falava — se conseguisse a arma, nunca a venderia. E, se Huo Ying emprestasse o carvão, como ele pagaria depois?
— Tenho um rifle e balas comuns — não é especial, mas você consegue adaptar as balas pra pedra solar?
Huo Ying ainda tinha um rifle e algumas caixas de munição daquela vez que eliminou um esquadrão de Expurgadores. Se Zhang Famao conseguisse fazer as balas, Liang Yao ficaria ainda mais protegida.
— Pode ser! Vai ser menos potente que uma arma especial, mas eu consigo fazer! — Zhang Famao estava radiante, sem acreditar que ainda havia esperança. — Irmão, me empresta o carvão e eu te pago com munição para rifle. Se não fosse você, eu nunca teria conseguido a arma. Então, se precisar de mais munição no futuro, faço de graça! Só me pague o material.
— Combinado. — Huo Ying não estava preocupado com o que era mais vantajoso. O importante era resolver o problema agora. — Espera aí, vou pegar o carvão.
Huo Ying fingiu sair e notou mais pessoas se aproximando da estrada. Eram cinco no total: de um lado, Lu Na e sua mãe; do outro, a família de Huo Zhaohui.
No instante seguinte, percebeu que todos os cinco estavam encarando-o fixamente. Sem alterar a expressão, passou por eles, mas ficou intrigado. Lu Na talvez tivesse descoberto sua habilidade de acelerar o crescimento das plantas, mas por que a família de Huo Zhaohui estava olhando para ele assim?
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Capítulo 85 – Mensagem do Autor
Como estreante, escrever meu primeiro livro tem sido uma montanha-russa de emoções.
Ansiedade, insegurança, ficar obcecado com os números… Passei por tudo.
Consegui avançar até a terceira fase, com um bom acompanhamento, mas como o livro não está atraindo muitos leitores, o editor decidiu que não valia a pena seguir para a quarta. Então, a publicação oficial será no dia 1º de setembro, ao meio-dia.
Pra ser sincero, descobri que escrever parece simples, mas não é nada fácil.
Experiência, leitura e até o ambiente de trabalho influenciam.
Minha família não entende muito. Acham que ficar batendo no teclado é fácil e me interrompem o tempo todo — seja pra ajudar em casa, pra sair ou só porque se preocupam comigo ficar sentado demais.
Sei que é por amor, mas atrapalha meu fluxo e a imersão na história.
Por isso, preciso muito da ajuda de vocês. Por favor, assinem a pré-venda!
Quanto mais assinaturas, melhores as chances do livro crescer. Assim, poderei alugar um espaço pra escrever em paz, garantir mais capítulos e entregar uma história incrível pra vocês.
Meus nobres leitores! Meus heróis!
Conto com vocês pra essa estreia!
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Capítulo 86 – Temperos
Huo Ying estava vivo.
Xiao Huohu olhou fixamente, com um brilho de excitação nos olhos.
Se Huo Ying sobreviveu, significava que He Lili e seu grupo estavam mortos.
Como um simples humano, sem nem ser infectado, poderia ter derrotado um ser sobrenatural ileso?
Só havia uma explicação: um infectado de terceiro nível interveio.
Só assim ele poderia ter sobrevivido sem um arranhão.
— Ela chegou primeiro… — pensou Xiao Huohu, mantendo a calma. — Encontrou o infectado de nível três antes de mim.
Sem demonstrar nada, ele voltou a parecer apenas uma criança tranquila.
Huo Zhaohui lançou um olhar irritado para Huo Ying.
— Esse cara tem uma sorte danada. He Lili claramente era suspeita, mas não fez nada. — Ele olhou em volta, confuso. — Onde está o grupo dela? Nenhum apareceu?
Xiao Huohu não respondeu, mas por dentro desprezava Huo Zhaohui.
Como esse idiota entrou no Instituto de Pesquisas? Só sabe inventar teorias sem pé nem cabeça.
Sem perceber o desdém, Huo Zhaohui continuou especulando:
— He Lili agiu tão rápido contra Hu Caigen… Por que poupou Huo Ying? A menos que o infectado de nível três a tenha eliminado antes.
De repente, ele pareceu ter uma epifania.
— Vamos até a casa de Hu Caigen! Talvez encontremos pistas sobre o infectado!
Xiao Huohu quase riu.
— Ir todos juntos chamaria muita atenção. Melhor você ir sozinho — disse ele, forçando um tom sério. — Você cuida do planejamento, eu cuido da ação.
Huo Zhaohui, alheio ao sarcasmo, virou-se para Huo Zhenni.
— Sua missão é proteger Xiao Huohu. Fiquem aqui, finjam que estão negociando e voltem pra casa depois.
Assim que ele saiu correndo, Xiao Huohu não aguentou mais.
— Zhenni, ele foi enviado só pra me irritar, né? Como pode ser tão burro?
Huo Zhenni franziu a testa.
— Talvez seja um teste do Instituto. Mesmo que ele seja arrogante e inútil, você precisa lidar com isso sem reclamações. Se alguém de lá ouvir, vão querer fazer mais exames e testes em você.
Xiao Huohu suspirou, acalmando-se.
— Você tem razão… Mas eu descobri algo. Mais tarde, me acompanha pra resolver uma coisa?
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Huo Ying entrou em uma casa abandonada, garantiu que ninguém o seguia e usou suas habilidades para criar um porão improvisado. Lá dentro, produziu carvão vegetal em segundos.
Não sabia se os infectados tinham meios de vigilância sobrenaturais, então tomou precauções. Se alguém questionasse a origem do carvão, encontrariam o porão e assumiriam que ele já estava escondido lá.
— Irmão, você realmente trouxe! — Zhang Famao, que estava segurando a respiração de ansiedade, correu até ele.
Zhang Zhanhong, confuso, sussurrou:
— Pai, você tá chamando ele de irmão agora? E como eu fico?
Zhang Famao ignorou o filho, pegou o carvão e jogou na balança do entregador.
— Pronto, sem aumentos de preço. Me dá o rifle.
— O que é isso? Quem disse que ia aumentar? — O entregador fez cara de ofendido, mas pesou o carvão várias vezes e viu que havia até mais do que o combinado.
— Ei, irmão, tá querendo trocar mais alguma coisa? — O entregador baixou a voz, confidencial, e segredou para Hou Ying: — Tenho aqui uma peça premium, um rádio-cassete solar. Se você levar isso, pode me chamar antes quando precisar de algo. Te passo o preço, você decide e eu trago direto. Assim não precisa ficar esperando eu voltar da cidade pra negociar.
Hou Ying ficou pensativo.
— Até que é útil, mas se for pra cobrar um rim, prefiro esperar mesmo.
O entregador hesitou, mordeu o lábio e decidiu:
— Fechou. Vou considerar que é pra fazer amizade. Meu sobrenome é Hei, me chamam de Pantera Negra. Esse radinho só tem meu contato, pode ficar com ele de graça.
Pantera voltou pro ônibus, fuçou um pouco e trouxe um aparelho do tamanho de um tijolo.
— Qual seu nome, irmão? Vou salvar no canal, senão quando você mandar mensagem eu não vou lembrar quem é.
— Ootonoki — respondeu Hou Ying, evitando dar seu nome real. Nesse mundo cheio de habilidades estranhas, ele mantinha o costumeiro pé atrás.
Ao pegar o rádio, Hou Ying examinou. Não era como imaginava — era bem mais sofisticado, com um teclado pequeno. Parecia mais um aparelho de mensagens do que um simples rádio.
Pantera pegou outro igual da mochila, abriu a tela e digitou rápido. Hou Ying viu ele alterando uma frequência marcada como "Camarada" para "Ootonoki".
Percebendo o olhar suspeito de Hou Ying, Pantera riu sem graça:
— Relaxa, irmão, pode usar sem medo. Ganhei isso de um amigo antes dele... bem, partir. Não saquei de corpo nenhum, juro.
Hou Ying ignorou e virou-se para Zhang Famao:
— E aí, como fazemos essa troca?
Zhang abraçou a arma especial, puxou o filho Zhang Zhanhong para perto e sussurrou:
— Irmão, tô morando numas caixas de container numa mina abandonada na Serra Baixa. Lá é tranquilo, quase ninguém vai. E tem um monte de máquina que eu conserto pra fazer armas.
— Leva as balas direto lá quando precisar. Se precisar de mim pra qualquer coisa, é só aparecer.
A oferta franca do endereço mostrou que Zhang queria mesmo fazer amizade.
— Vamos indo, irmão — disse Zhang Famao. O filho, aliviado por não ter que chamar Hou Ying de "padrinho", seguiu o pai sob a chuva.
Ao vê-los sumir no temporal, Hou Ying sentiu o olhar de Luna fixo nele. Ignorou e também mergulhou na chuva, voltando pra casa.
— Ele nem me procurou... — Luna franziu a testa, intrigada.
Ela tinha certeza. Hou Ying tinha algum poder ou terra que acelerava o crescimento das plantas. As sementes que deu a ele eram geneticamente modificadas — só davam frutos na primeira colheita. Se ele tentasse replantar, nasceriam inertes.
Se Hou Ying provasse os vegetais temperados, com certeza viria atrás de mais sementes. Assim, ela o teria na mão. Mas ele nem ligou pra seus suspiros teatrais.
— Mãe, e se o poder dele for alterar até genes? — Luna não desanimou; ficou mais animada.
A mãe, Elsa, observou Hou Ying desaparecer na chuva e sentiu um calafrio.
— Luna, melhor deixar pra lá. Muita gente já sumiu nessa cidade, e ele só fica mais forte. Da última vez, tava perguntando como fazia um arco. Agora já tá com facão e martelo...
Elsa não tinha dado bola pra ele no começo. Quando se viram no pátio, ele era só um cara perguntando como fazer uma besta, enquanto um casal sinistros o encarava por causa do pau-ferro.
Agora? O casal morreu. O velho Hu Caigen sumiu. Os Wang morreram. Os recém-chegados, a família Hei Lili, desapareceram.
E Hou Ying trocou a besta por armas melhores, com uma aura cada vez mais assustadora.
— Tenho meu jeito, mãe. Ele vai fechar negócio comigo — respondeu Luna, sem ouvir. Fitou o vazio onde Hou Ying sumiu, então foi até Pantera.
— Conseguiu o que eu pedi?
Pantera ficou com cara de pena:
— É pedir demais, moça. Com o apocalipse, trigo virou artigo raro. Ninguém planta em XN. Mas arrumei um vendedor... por um preço maior.
Sacou um saco transparente com farinha branca.
Luna olhou, mas não pra qualidade — focou no rótulo:
FARINHA DE TRIGO — FORNECIMENTO EXCLUSIVO XN
— Aceito. Pago em temperos — sussurrou.
Elsa abriu um embrulho. Um cheiro forte e apetitoso encheu o ar.
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