— Quanto carvão você quer?
Huo Ying estava tentado. Ele não estava muito interessado nas armas em si, mas sim no método usado para infundir a energia yang nelas.
Com suas habilidades de manipulação de madeira e relâmpago, ele podia desferir golpes carregados com a força yang, mas não conseguia proteger-se usando a madeira de álamo em chamas. Os ataques sinistros eram inúmeros, e depender apenas da resistência para se defender era arriscado. Se conseguisse entender como essa energia era adicionada, ele poderia manter sua armoura imbuída com yang constantemente, aumentando sua segurança contra criaturas como o Espelho Sombrio e os monstros da fábrica.
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Capítulo 56: Segredo
— Duzentas libras de carvão como garantia. — Zhang Famao prosseguiu. — Você fica com a Lâmina Yang. Se eu morrer durante o ataque dos cadáveres reanimados, você pode recuperar o carvão ao vasculhar a vila. Se eu sobreviver, negociamos depois. Se for uma adaga, sairá barato; se for algo mais complexo, ajustamos o preço.
A proposta era razoável. Huo Ying fingiu regatear um pouco antes de concordar com cento e cinquenta libras.
— Espere aqui. Vou buscar o carvão.
Ele se afastou, entrando em uma casa vazia. Sem cadáveres por perto, usou suas habilidades para criar carvão rapidamente, enchendo uma caixa que carregou com seu braço mecânico.
Ao retornar ao pátio, entregou o carvão a Zhang Famao, recebendo em troca a chamada Lâmina Yang. O olhar intrigado do homem não passou despercebido.
Do outro lado, Hu Caigen cochichou ao vê-lo voltar tão rápido:
— Esse cara... Será que tem um depósito por perto?
A reação era esperada. Huo Ying já havia negociado carvão várias vezes, e era melhor que suspeitassem de um estoque escondido do que dele próprio. Se alguém resolvesse investigar a região, principalmente perto da fábrica da Gene Azul... Bem, azar o deles.
Sem mais interesse no pátio, Huo Ying partiu rumo à sua casa, planejando pedir a Liang Yao que verificasse se ele estava infectado.
Ao virar em um beco, parou de repente. Não demorou para ouvir passos apressados atrás dele.
Era Wang Haisheng.
Isso o surpreendeu. Wang não era combatente — seu aprimoramento era no paladar. Por que o seguiria? Huo Ying estava coberto por uma armadura e um braço mecânico.
O homem olhou nervosamente ao redor antes de sussurrar:
— Venha comigo.
Sem explicações, ele liderou o caminho.
Huo Ying hesitou, mas decidiu acompanhá-lo. Se fosse uma armadilha, ele poderia lidar.
Eles saíram da vila, subindo a colina onde os fragmentos yang eram coletados.
Wang aqueceu algumas pedras com um isqueiro, verificando se não queimavam. Aliviado, pegou uma pedrinha e começou a riscar uma rocha plana:
Você é Huo Ying.
O dedo nos lábios pediu silêncio.
Huo Ying encarou-o. Ele nunca revelara seu nome. Como Wang o conhecia?
Depois de um momento, acenou com a cabeça.
Seu carvão tem sempre o mesmo sabor. Não existe carvão idêntico na natureza. Você os cria!
A escrita era frenética, quase desesperada.
Huo Ying sentiu o rosto endurecer sob o capacete. Seu segredo havia sido descoberto... mas Wang realmente achava que poderia chantageá-lo?
Se a intenção fosse essa, trouxera-se à morte.
Wang continuou, letras raspando contra a rocha:
Você não se lembra de nada, não é? Foi por isso que sobreviveu. Mas não adianta. Se ficar aqui, você vai morrer!
Eu também trabalhava na Gene Azul. Também perdi a memória!
As palavras transbordavam medo e loucura.
Meu "poder" é o paladar, mas ele fortalece memórias. Cada vez que como algo, lembro do que está ligado a ele.
Eu... estava faminto. Encontrei um cadáver. Comi um pedaço.
Seu corpo tremia.
Lembrei do gosto. Lembrei quem ele era... e quem eu era. Foi a amnésia que nos salvou. Se formos descobertos, estamos mortos!
Huo Ying olhou ao redor, uma sensação de horror rastejando por sua espinha.
Wang fora seu colega. Ele sabia o que acontecera na fábrica.
Pegando uma pedra, Huo Ying escreveu:
Me conte a verdade. Dou todo o carvão que quiser.
Wang sacudiu a cabeça, os olhos úmidos.
Precisamos fugir da vila. Só então posso falar. Aqui, se eu disser ou escrever, ELE nos encontrará.
Por favor, acredite. Não minto. Preciso que você me ajude!
Huo Ying não respondeu.
Mas, no fundo, já acreditava pela metade.
Capítulo 57: Preparativos
Na primeira vez que Huo Ying foi ao mercado, ele não usava o capacete de madeira. Todos que estavam lá puderam ver seu rosto, mas ninguém sabia que ele era um funcionário da Fábrica de Genes Azul.
Isso incluía Liang Yao, que também era moradora original de Vila Colina Baixa.
Portanto, Wang Haisheng só podia ser seu colega de trabalho. Afinal, foi ele quem mencionou a Fábrica de Genes Azul e o fato de Huo Ying ter perdido a memória.
Mas, se o que Wang Haisheng disse fosse verdade...
Huo Ying sentiu um calafrio percorrer seu corpo, cada fio de cabelo em pé.
Se aquilo era tão terrível que não podia nem ser mencionado, e se ele só estava vivo porque perdera a memória…
Lembrou-se dos arquivos que vira no Centro Cívico.
Por que a Sra. Bai ainda estava viva?
Ela também perdera a memória?
A Sra. Bai e Zhang Yuqi vinham tentando ajudá-lo a recuperar suas lembranças. Será que isso era apenas uma coincidência?...
Huo Ying ficou em silêncio por um longo tempo. Finalmente, pegou uma pedra e riscou nela:
— Na próxima vez que o entregador vier, eu vou com você.
Só os entregadores tinham os talismãs para dissipar as maldições. Seguí-lo seria a única maneira de sair de Vila Colina Baixa. Huo Ying decidiu que, assim que a rebelião dos cadáveres amaldiçoados acabasse e o entregador voltasse, ele levaria Wang Haisheng consigo. Depois de descobrir a verdade, avaliaria se seu poder seria suficiente para se proteger.
Quanto a Liang Yao... ele não pretendia contar a ela. Não tinha como saber se ela realmente estava do seu lado ou se apenas o observava por ordem da Sra. Bai e Zhang Yuqi.
Wang Haisheng partiu. Antes de ir, apagou todas as marcas na pedra e apontou para um conjunto de casas na vila, indicando a Huo Ying onde morava.
Observando a figura desleixada de antes, agora com um pouco mais de vigor ao se despedir, Huo Ying se perguntou:
— Será que essa vila realmente esconde algo tão horrível?
Lembrou-se do monstro que selara no espelho amaldiçoado. Aquela coisa era forte, mas diferente do que Wang Haisheng descrevera — era apenas um monstro, indiferente à verdade da fábrica e à sua memória perdida.
O que Wang Haisheng mencionara... Huo Ying sentiu um frio na espinha. Ele sabia que se tratava de uma pessoa.
Ativando seu braço mecânico, Huo Ying esmagou a pedra em que escrevera, destruindo qualquer vestígio. Voltou para a vila com um aperto no peito — a felicidade de conseguir a Lâmina Solar havia se dissipado, substituída por preocupações mais profundas.
Ao entrar em casa, Liang Yao correu até ele e segurou sua mão.
Depois de um momento, ela soltou-o e checou seu próprio corpo.
— Está tudo bem. Dessa vez, não senti nada. Você não foi infectado hoje.
Ela sorriu, aliviada. Desde que Huo Ying saíra, ela estivera apreensiva.
— Que bom. Amanhã à noite é a revolta dos cadáveres amaldiçoados. Precisamos nos preparar. Melhor não sair até que tudo acabe.
O capacete escondia a expressão de Huo Ying. Ele observava Liang Yao atentamente.
Sua preocupação parecia genuína. Além disso, toda vez que ela usava seu poder para purificá-lo, sofria os efeitos colaterais da habilidade. Mesmo assim, Liang Yao nunca hesitava.
Será que ela não temia que o uso excessivo de seu poder pudesse desencadear algo pior?
Se Liang Yao não fosse uma espiã da Sra. Bai... e ele e Wang Haisheng fugissem sem avisá-la...
Seus olhos se estreitaram.
— Não. Isso é o apocalipse. Se ela realmente estiver do meu lado... depois que eu descobrir a verdade e se a proteção da Árvore Divina for suficiente, eu volto e a levo comigo.
Mas, se o risco fosse grande demais... bem, sacrificá-la seria uma escolha necessária.
— Eu sou mesmo egoísta...
Ao cruzar o olhar com Liang Yao, ainda cheio de preocupação, Huo Ying sentiu um aperto no peito.
— Não. Se eu fizer isso, nunca vou conseguir viver comigo mesmo. Além disso, a habilidade dela é muito útil. Não posso abrir mão disso.
Decidiu então que, quando o entregador chegasse, ele não diria nada — simplesmente levaria Liang Yao à força. Dessa forma, mesmo que ela não fosse leal, não teria como alertar ninguém.
A ideia o tranquilizou. Afinal, sua educação do mundo anterior ainda o influenciava. Mesmo diante da morte, ele não conseguia abandonar completamente sua moralidade.
Huo Ying e Liang Yao começaram os preparativos. Cobriram a casa com Pedras Solares e empilharam lenha de Álamo, prontas para serem queimadas rapidamente.
A maldição do espelho, selada em um grande baú, foi levada ao porão, com o vidro voltado para a porta. Se a defesa falhasse, Huo Ying usaria a criatura como armadilha enquanto recuavam para a segunda casa.
Com o perigo se aproximando, não teve escolha a não ser mostrar o porão para Liang Yao. Dividiu o espaço com sua habilidade de Terra, permitindo que ela visse apenas parte dos suprimentos. Mesmo assim, ela ficou boquiaberta.
— Com tudo isso... daria para sobreviver por anos sem sair de casa, não?
Suas mãos cobriram a boca, os olhos arregalados.
O porão estava repleto de caixas de carvão vegetal — muito mais eficiente que a lenha comum. Havia o suficiente para durar três anos.
Além disso, vários barris estavam cheios de arroz e vegetais. Apesar de os legumes se estragarem mais rápido, o arroz somava mais de uma tonelada.
Por fim, fileiras de barris hermeticamente fechados armazenavam água purificada com carvão.
— Não fique só admirando. Trouxe você aqui para trabalhar.
Huo Ying pegou um pimentão murcho.
— Sua habilidade pode purificar comida? Para durar mais tempo?
Liang Yao segurou o pimentão na palma. Após alguns instantes, as partes amareladas clarearam um pouco, mas ele continuou murcho.
— A purificação elimina bactérias. Se a comida estiver estragada, ainda pode ser consumida depois. Mas não consigo restaurar o frescor.
— Já é ótimo. No apocalipse, as pessoas comem até comida estragada. Se você pode torná-la segura...
O valor de Liang Yao subiu ainda mais aos olhos de Huo Ying.
— Ela é um tesouro. Não posso deixá-la para trás.
[Status atualizado: Liang Yao — prioridade máxima de proteção.]
Dessa vez, Huo Ying não trancou o porão. Ao voltarem para o quarto, Liang Yao preparou o jantar, caprichando em vários pratos extras — todos à base de batata, mas que ainda assim encheram a casa de um aroma convidativo.
Durante a refeição, Huo Ying permaneceu calado, distante, enquanto Liang Yao também se mantinha em silêncio, preocupada com o levante que aconteceria no dia seguinte.
Observando Huo Ying, mergulhado em seus pensamentos, Liang Yao corou várias vezes. Finalmente, decidiu-se e deixou os pauzinhos sobre a mesa.
— Vamos fazer alguma coisa. Tenho medo de morrer amanhã e me arrepender.
Huo Ying assentiu:
— Você tem razão. Hoje tem bastante comida e louça pra lavar. Depois, pode limpar tudo.
Liang Yao olhou para ele, entre irritada e divertida, e, num descuido, derrubou os pauzinhos no chão.
Com um olhar esperto, abaixou-se para pegá-los, ajoelhando-se e apoiando as mãos no chão, enquanto se arrastava por baixo da mesa.
Huo Ying ouviu o barulho e, instintivamente, baixou o olhar. Lá estava Liang Yao, já aos seus pés, erguendo o rosto com um sorriso travesso entre as frestas da madeira.
Quando ele tentou se levantar, ela envolveu suavemente suas pernas, transferindo o peso do corpo para ele — se ele saísse, ela cairia.
— Nada mudou entre a gente. Só quero te alegrar um pouco.
Seu olhar estava incerto, cheio de medo... medo da rejeição.
Na sala, o fogo crepitava na lareira, projetando sombras dançantes na parede.
A sombra de Huo Ying permanecia imóvel, sentada. Mas a da mesa parecia se alongar, cobrindo suas pernas.
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