Tudo isso aconteceu por causa do choque entre o Escudo de Carapaça Xuanming e os Ossos da Lança de Aranha.
Capítulo 17 – A Inveja de Dai Huabin
— Lá no meu quarto tenho um remédio, depois vou buscar para passar nas suas costas — disse Jiang Nannan, abaixando a roupa dele com certa culpa na voz.
— Deixa pra depois, agora tenho que voltar ao trabalho — respondeu Shi Yu, sem se importar muito.
Os dois voltaram para o refeitório para ajudar no serviço.
Alguns espectadores foram embora, outros aproveitaram para entrar e comer, comentando sobre o que tinham acabado de presenciar.
O assunto principal era a habilidade de Shi Yu — aquilo definitivamente não parecia algo que um simples Espírito Mestre seria capaz de fazer.
Depois de servir comida, lavar a louça e os pratos, chegou finalmente a hora que Shi Yu mais aguardava: o almoço dos funcionários.
— Como suas costas já melhoraram? — perguntou Jiang Nannan, surpresa, ao notar que as marcas vermelhas haviam sumido quando terminaram de comer.
— Isso não é bom? — ele riu.
— Claro que é bom, mas como sarou tão rápido? — Ela franziu a testa, confusa.
— Uma vez comi uma flor especial, uma espécie de erva medicinal. Desde então, meu corpo se recupera muito mais rápido. Feridas assim somem em pouco tempo.
— Sério? — Ela ainda parecia incrédula.
— Ah, e como você consegue se teletransportar assim? Mesmo alguém com um Espírito Espacial não conseguiria fazer algo parecido.
— Você basicamente pode se mover instantaneamente à vontade! — A curiosidade dela estava estampada no rosto.
— Meu Espírito é o espaço. Tenho uma ligação única com ele. Posso me mover de um lugar para outro sempre que quiser. — Ele respondeu da maneira mais simples possível, tratando como uma conversa casual.
O que não podia ser dito, é claro, ele nem mencionou. Sabia até onde ia.
— Com um Espírito assim, com certeza você vai se tornar um Espírito Mestre poderoso no futuro — disse Jiang Nannan, genuinamente impressionada.
— Obrigado pela fé, senior Jiang Nannan — ele agradeceu com um sorriso.
— Vovô, já comeu? — Shi Yu cumprimentou Mu En casualmente ao passar pela entrada do dormitório.
— Ainda não — o velho respondeu, fitando-o com um olhar penetrante.
Sob aquele olhar, Shi Yu sentiu um leve desconforto, como se estivesse sendo desvendado. Mas, por fora, manteve a calma:
— Na sua idade, é melhor comer direitinho. Não pode deixar o estômago vazio.
— Hm — Mu En respondeu laconicamente.
Shi Yu se despediu de Jiang Nannan no corredor e, ao chegar no quarto, não viu sinal de Dai Huabin.
— Acabei arrumando briga com Xu Sanshi à toa... Que dor de cabeça. — Ele se deitou na cama e massageou as têmporas.
Não queria ter problemas com Xu Sanshi — afinal, ele era um dos protagonistas. Mas o cara tinha sido grosseiro, e Shi Yu, irritado, decidiu revidar com um pouco de provocação. Agora, as coisas tinham escalado.
— Espero que você não seja como aqueles personagens secundários que ficam enchendo o saco até a briga virar uma guerra de vida ou morte... — suspirou.
Nos romances, esse tipo de conflito pequeno sempre acabava virando algo maior.
Ele decidiu não pensar muito nisso. Era melhor ver no que dava.
— Que tédio... — Depois de um tempo deitado, sem saber o que fazer, Shi Yu se levantou e começou a meditar para cultivar seu poder.
— Foi você mesmo quem humilhou um aluno famoso do terceiro ano durante o almoço? — Dai Huabin só apareceu à noite e, assim que entrou, encarou Shi Yu antes de soltar a pergunta.
Ele e Zhu Lu tinham ouvido os rumores durante um passeio. Pela descrição, o único que batia era seu colega de quarto: um usuário de Espírito Espacial, ainda no nível 10+.
A flutuação da energia durante o treino não podia ser escondida, então seu nível era fácil de perceber.
Ao ouvir, Shi Yu, que já tinha terminado o turno no refeitório e jantado, continuou meditando e respondeu sem abrir os olhos:
— Humilhar é exagero. Foi apenas um treino, e ganhei por pouco.
— Então foi você mesmo? — O olhar de Dai Huabin mudou um pouco.
— E as oito pernas de aranha nas suas costas... eram o Osso Externo Lança-Aranha? — continuou ele.
— Por que acha isso? — Shi Yu revidou com outra pergunta.
Se Dai Huabin estava perguntando, provavelmente não tinha visto o ocorrido. Como adivinhou só pela descrição?
— Oito patas de aranha nas costas... e você tinha perguntado sobre a Lança-Aranha do Ancestral do Deus do Mar outro dia. Foi fácil conectar os pontos.
— Então é a Lança-Aranha mesmo. Não é à toa que você perguntou sobre ela antes.
— Você teve uma sorte incrível em conseguir um Osso Externo assim também. — Havia algo diferente no tom dele.
Quase como se tivesse chupado um limão azedo.
— Sorte, nada mais — disse Shi Yu, percebendo que não adiantava negar.
Muita gente tinha visto. Se ele mentisse, seria um insulto à inteligência de Dai Huabin.
— Como conseguiu? — Dai Huabin perguntou, curioso.
— Isso é segredo. Não posso dizer — respondeu Shi Yu.
Deixar que soubessem sobre o Osso Externo era uma coisa, mas explicar como o obteve? Jamais.
Dai Huabin abriu a boca, mas acabou ficando quieto, começando a meditar por conta própria. No fundo, estava morrendo de inveja.
Ele não se importaria tanto se fosse um Osso de Espírito comum — com seu status, conseguir um não seria tão difícil.
Mas um Osso Externo? Nem ele, nem mesmo a Academia Shrek poderiam garantir algo assim. Dependia puramente da sorte.
Para ser exato, era preciso uma sorte fora do comum, mais raro que encontrar uma Besta Espiritual de cem mil anos. Algo que pouquíssimos conseguiam.
Era difícil não sentir inveja.
Pela manhã, Shi Yu, que queria dormir até tarde, teve de levantar para se arrumar. Era o primeiro dia oficial de aula dos novatos, e chegar atrasado não era uma opção.
Dai Huabin também estava se aprontando.
Como a relação entre os dois não era próxima, não trocaram uma palavra antes de sair.
— Bom dia, senior Jiang Nannan! — Shi Yu cumprimentou ao encontrá-la no refeitório, correndo na direção dela enquanto dava uma mordida no pão e tomava um gole de leite de soja.
— Bom dia — ela respondeu com um sorriso, comendo seu próprio café da manhã enquanto caminhava.
Ao lado dela, estava a amiga que Shi Yu já conhecia.
— E pra mim, nem um 'bom dia'? — A garota de rosto redondo fez questão de se fazer notar.
— Bom dia pra você também — ele respondeu, educado.
— Que resposta sem graça — ela resmungou, franzindo os lábios.
— Por que não compra pães recheados? Pão seco assim deve ser difícil de engolir — perguntou Jiang Nannan, despretensiosamente.
— Economia, ué. Por enquanto, ter pão seco já é sorte. Daqui a uns dias, talvez nem isso eu tenha — respondeu Shi Yu, dando outra mordida no pão.
— Posso te emprestar um dinheiro, se quiser. Café da manhã é importante, senão você não vai ter energia pra estudar — ofereceu Jiang Nannan, já enfiando a mão no bolso.
— Por enquanto, não precisa. Ao meio-dia vou pedir um adiantamento ao patrão. Com a minha lábia, provavelmente consigo — Shi Yu segurou a mão dela, sorrindo e balançando a cabeça.
— Não precisa ficar com vergonha comigo — insistiu ela.
— Não é vergonha, só acho desnecessário mesmo. Se precisar, te aviso — respondeu ele, descontraído.
A falta de dinheiro era constrangedora, mas não o suficiente para abalar sua autoestima.
— Tá bom — Jiang Nannan desistiu de insistir.
— A propósito, Nannan, tem alguma dica pra primeira aula? — perguntou Shi Yu, tomando um gole de leite de soja.
— Nada demais. Chegue no horário, sente quieto e preste atenção. Só isso — respondeu ela.
Os três caminharam juntos e, com as orientações de Jiang Nannan, Shi Yu encontrou a sala sem dificuldades.
Ao chegar, boa parte das cadeiras já estava ocupada. Ele escolheu um lugar mais atrás, como de costume. Sentado, observou os outros alunos distraidamente. Reconheceu o colega de quarto Dai Huabin, sentado ao lado de uma garota bonita — provavelmente Zhu Lu.
Dai Huabin era o único que ele conhecia, por serem colegas de quarto. Os outros rostos eram desconhecidos. Na turma, apenas Dai Huabin e Zhu Lu tinham algum destaque na história original.
Ele e Dai Huabin dividiam não só o quarto, mas também a turma: a classe cinco dos calouros. Já o protagonista Huo Yuhao estava na classe um, no andar de baixo. Encontrá-lo por acaso dependeria da sorte.
Ser colocado na classe cinco não o abalou. Não estava decepcionado, nem achava essencial estar na mesma turma que Huo Yuhao. Na verdade, nem tinha muita vontade de se aproximar dele. Não via necessidade.
[Capítulo 18: O Início das Aulas, Classe Cinco dos Calouros]
Afinal, Huo Yuhao provavelmente estava sob o radar de Tang San. Como ele próprio tinha um histórico complicado com Tang San, ser notado poderia trazer consequências imprevisíveis. Manter distância era a opção mais segura.
Além disso, se aproximar de Huo Yuhao não traria benefícios extraordinários. Não valia a pena forçar amizade com o protagonista. Melhor deixar as coisas fluírem naturalmente — sem bajulações, mas também sem hostilidade.
Aos poucos, a sala foi ficando cheia. Shi Yu contou os lugares vagos e estimou que a turma tinha entre 110 e 120 alunos. Quando mais quatro entraram, o professor finalmente apareceu: Shao Wentao.
Homem de uns quarenta e poucos anos, cabelo curto, rosto comum e expressão tranquila. Quando ele entrou, a classe se ajeitou nas cadeiras e silenciou, todos os olhos voltados para o professor.
— Bom dia, turma... — Shao Wentao se apresentou com um sorriso afável, voz calma, parecendo fácil de lidar. — É uma alegria ser o professor da classe cinco. Sou bem tranquilo, desde que vocês cooperem com minhas aulas.
— E quem não cooperar? — alguém perguntou.
— Leva uma picada do meu espírito de batalha. A intensidade varia, mas controlo a dose. Não precisa ter medo — respondeu ele, com um sorriso que não inspirava confiança.
— Esse professor parece daqueles sorridentes, mas perigosos — pensou Shi Yu.
Um professor assim era mais temível do que os rigorosos de cara fechada.
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