As articulações rangiam alto e, pelo que Taylor sabia, aquelas máquinas escondiam feras de pele verde em seu interior. Aos pés delas, seguiam algumas menores, da mesma cor, com cerca de 5 ou 6 metros de altura.
— Os grandes são chamados de Latas do Medo, e os pequenos, Latas da Morte — explicou alguém. — Os verdes pilotam os maiores, enquanto seus mascotes, os gretchin, ficam com os menores.
Os pequenos não eram tão difíceis de lidar — seus cascos podiam ser perfurados facilmente por balas explosivas. Já os grandes só caíam diante de armas de fusão.
Para Taylor, no entanto, a situação estava longe de ser confortável. Ele se escondia agora em um abrigo de frente, camuflado por arbustos.
Eles operavam em grupos de três, em pequenas trincheiras planas, cada homem separado por dez metros, com as equipes espalhadas em padrão cruzado.
Essa tática maximizava a eficiência de reconhecimento e dificultava que o inimigo eliminasse um ponto de defesa isolado. Se a infantaria leve atacasse, os companheiros do outro lado podiam oferecer apoio.
Inúmeros buracos cruzados formavam a Linha Maginot, erguida com sangue e coragem.
Claro, Taylor tinha protestado veementemente contra ficar ali, mas ordens são ordens.
Por trás do título de nobre de um mundo feudal ou de herói de batalha do Império, ele ainda era um soldado.
Só que o velho Teckis, preocupado com o impacto na moral caso um herói morresse, acabou colocando Taylor em um flanco da linha de frente.
Era improvável que o atacassem ali, então Taylor não reclamou muito.
Agora, ele abria um pacote de ração militar, espremendo a pasta grudenta em sua boca.
O gosto era de pasta de dente salgada. O pacote dizia que era "sabor peixe assado de Norman", seguido por uma observação em letras miúdas:
[Não consumir por mais de uma semana. O excesso pode causar diarreia, vômito, tontura e desmaio.]
Se o Império colocou esse aviso, o efeito real devia ser ainda pior.
Taylor revirou os olhos. Se ficassem mais de três dias sem revezá-lo, ele fugiria dali!
A lona à prova d’água já não servia para nada sob a chuva forte, deixando seu traseiro encharcado e o cheiro de terra encharcando suas narinas.
Mas, no fim, a missão não era de todo ruim.
Enquanto observava os robôs verdes à distância, Taylor chupava o resto de seu almoço, esperando.
Logo, um estrondo ecoou de longe. Após um zumbido agudo, projéteis perfurantes explodiram diante dos robôs.
O piloto ork pareceu hesitar por um segundo, a máquina parando no lugar — até que cogumelos de fogo e metal se ergueram, vaporizando parte dos robôs com a fúria do próprio Imperador.
As carcaças negras e carbonizadas tombaram, e o silêncio voltou, exceto pelo bater constante da chuva.
— Que delícia...
Era o único entretenimento de Taylor ultimamente. Sério, ele podia ficar ali a vida inteira. Não importava quantas vezes visse aquelas máquinas xenos explodindo, sempre dava um alívio na sua paranoia.
Ambas as suas vidas foram marcadas pelo "medo de falta de fogo". Mas só de imaginar um regimento de artilharia inteiro ali, pronto para atender ao seu chamado, já era satisfação suficiente.
Além disso, o buraco onde estava era mais confortável do que parecia. Tirando a umidade, a chuva infernal e a comida, é claro.
Tinha uns três metros quadrados de espaço, um saco de dormir encharcado e seus adoráveis mascotes — dois roedores locais, amarrados com cadarços no seu rifle.
Nos momentos de tédio, ele os alimentava com um pouco de ração militar.
Atirar os dejetos era fácil à noite, quando ninguém via. Era até mais liberdade do que no acampamento.
O único problema era ter os orks logo ali na frente.
Se não estivesse tão perto da morte, Taylor até poderia se acostumar com o lugar. Talvez esculpir algo na madeira ou ler um livro?
Não havia dúvidas: Taylor era um mestre em achar alegria no sofrimento. Se não fosse por isso, já teria enlouquecido.
Ele cutucou os ratos com um dedo antes de reportar a posição do próximo grupo de robôs verdes.
A vida era assim — depois de um tempo, até o pior tornava-se suportável.
Dias depois, Taylor já contava pelo menos dez máquinas destruídas quando o soldado no rádio anunciou que iam condecorá-lo com a Medalha do Coração Púrpura.
Ele não ligava para medalhas. O que importava era o bônus em dinheiro — e o fato de que muitos nobres pagariam fortunas por elas.
Uma Estrela de Terra podia comprar uma mansão em um mundo paradisíaco.
Claro, se descobrissem a venda, o Departamento Militar mandaria alguém "resolver" o problema.
Incluindo o soldado desleal que fez o negócio.
Mas, em geral, condecorações como a Estrela de Terra eram reservadas a heróis de guerra do Império.
Tipo, aqueles que repeliam ataques de Marines do Caos e lideravam tropas em batalhas impossíveis.
Taylor achava que uma honra dessas estava além de meros mortais como ele.
Quando o soldado de revezamento chegou — um jovem do 36º Regimento de Skadi —, olhou para Taylor com admiração pura e disse, com voz fervorosa:
— Senhor, vim para o revezamento! E o Departamento Militar decidiu nos conceder medalhas! Se tudo correr bem, o senhor receberá várias!
Taylor saiu do buraco de terra, confuso.
— O quê? O que eu fiz?
O soldado continuou, animado:
— O senhor já tem confirmadas a Caveira Alada, por honra em comando, e a Águia de Aço, por bravura sob fogo!
— Antes da grande ofensiva, o Departamento quer uma cerimônia para levantar o moral.
Taylor hesitou, cético.
— E o que isso resolve? Essa guerra precisa de mais soldados, não de medalhas.
Mas o jovem se apressou em completar:
— Mas as medalhas serão entregues pelos Marines Espaciais, senhor! Os Anjos do Imperador!
— Eles vão se juntar à batalha, rasgando as linhas inimigas!
Na mente de Taylor, as peças se encaixaram rapidamente.
Marines Espaciais vindo só podia significar uma coisa.
Capítulo 16 – A Batalha de Mosenred, Parte 2
Tyler contou e recontou os homens do seu pelotão. Ninguém tinha morrido. Ninguém tinha desaparecido.
Isso já era algo raro. Em outras vezes, alguns dos seus soldados voltavam com um braço a mais, ou trazendo alguma coisa estranha capturada no campo de batalha. Outros simplesmente sumiam e nunca mais eram vistos.
Para Tyler, aquilo era bom. Muito bom.
Ele não queria perder ninguém. Principalmente esses homens que já haviam enfrentado o inferno ao seu lado.
O cheiro de sangue ainda pairava no ar, como uma corda amarrada no pescoço dele. Bastava um passo em falso, e a guerra o estrangularia sem piedade.
Tyler sabia que a sorte o tinha ajudado até agora, garantindo vitórias e condecorações. Mas a sorte tem fim.
Sobreviver no campo de batalha já era algo que envelhecia qualquer um antes da hora. Se seus ancestrais realmente o protegiam, então deviam estar com a cabeça batendo no caixão de tanto se revirar.
Mas, dessa vez, seus homens estavam vivos. E, pela experiência de Tyler, isso significava algo: tropas da Guarda Imperial que sobreviviam a batalhas se tornavam veteranas. As que não resistiam... bem, já estavam mortas.
Era assim que a Guarda Imperial funcionava. Humanos comuns fazendo coisas sobre-humanas. Se você ainda conseguia respirar depois de tudo, isso já era uma honra por si só.
Tyler se levantou e abraçou cada um deles. Aquele gesto meloso vinha da experiência dura de quase ter perdido amigos para sempre.
Os aliens não se importavam se você era um herói do Império. Eles só queriam arrancar sua cabeça.
— Precisamos de equipamento melhor — Tyler resmungou.
Mas conseguir qualquer coisa nova exigia aprovação do Departamento Militar, e podia levar de quatro a onze anos para chegar. Uma vez, tinham pedido reforços antiaéreos, e o que receberam foi a perna de um Titã de Guerra.
Ninguém podia contar com a burocracia do Império.
Era um ditado antigo e verdadeiro.
Se não podiam depender dos superiores, tinham que resolver por conta própria.
— Precisamos de um veículo só nosso — Tyler disse, batendo a mão no ombro de um dos soldados. — O ideal seria um jipe blindado Salamandra. Bom pra reconhecimento, rápido, com rádio e fogo pesado.
— Mas isso aí é só pra oficiais superiores — um dos soldados respondeu. — E é pequeno demais pra todo o pelotão.
— Então queria uma Chimera — Tyler continuou. — Mas cada regimento tem só umas vinte. Nunca vai sobrar pra gente.
— Os artilheiros têm um monte dessas — uma soldado do pelotão, uma Ratling, comentou. — Chamam de transporte de suprimentos.
— Mas não dá pra pegar uma — o cabo Kathy resmungou. — São de outro regimento.
O artilheiro Roland coçou o queixo e sorriu.
— Podemos pensar diferente. Muitas Chimeras são destruídas em batalha. Dá pra pegar as peças e montar uma só nossa.
— Chimera tem esse nome justamente por ser modular. Dá pra adaptar. Tem uma porção de veículos que usam o mesmo chassis — continuou, animado. — Tipo a Hidra antiaérea ou o Escorpião com mísseis.
Tyler ergueu as sobrancelhas.
— Sério? Mas a gente entende disso? Não quero perder uma semana inteira pra no final não funcionar.
Roland, um homem forte de mais de dois metros, bateu no peito.
— Chef, eu era mecânico nas favelas. Já consertei até carro voador de nobre.
Foi quando Tyler percebeu que seu pelotão era cheio de talentos escondidos.
— Tá bom, vamos lá — ele concordou, suspirando. — Se der problema, eu assumo. Sou herói do Império, não vão encher o saco.
Ou, como diziam alguns: morto não tem medo de água quente.
E assim começou o "projeto de recreação" do 15º Pelotão.
Roland ficou com os planos e a montagem. A Ratling foi atrás de peças — coisa que ela sabia fazer melhor que ninguém. E o cabo Kathy organizou tudo.
Em pouco tempo — uma semana, para ser exato —, duas carroças começaram a fazer viagens frequentes para os depósitos de sucata do Exército.
Por serem de um pelotão condecorado, a Ratling e os outros conseguiam entrar sem problemas. Levavam armas e equipamentos quebrados e voltavam com motores ou peças em bom estado.
Enquanto isso, Roland e Kathy trabalhavam como ferreiros improvisados, montando tudo. Eles eram melhores que os padres da Máquina — aqueles meios-robôs só sabiam rezar para suas engrenagens e não tinham noção de que um simples parafuso apertado resolvia muita coisa.
O único problema era a falta de equipamento adequado.
Mesmo assim, uma semana depois, o monstro do 15º Pelotão estava pronto.
Era uma Chimera maior que o normal, cheia de remendos, soldas e rebites. Parecia um Frankenstein metálico — e, de certa forma, era. A alma mecânica dela vinha de várias máquinas mortas. Mas agora, era a nova casa do pelotão.
Tyler deu voltas ao redor dela, impressionado.
O blindado tinha placas de adamantium reforçadas — graças à Ratling, que conseguiu uns pedaços de blindagem de um Tanque Leman Russ. Dois motores turbinados garantiam velocidade, desde que não faltasse combustível.
O rádio interno havia sido adaptado (com fita adesiva e um buraco para a antena). Agora, Tyler podia se comunicar diretamente com o alto comando.
No centro, o canhão pesado era a arma principal. Havia também miras laterais, que diminuíam um pouco a proteção, mas permitiam que os soldados atirassem de dentro do veículo.
— Bem-vinda à família — Tyler disse, batendo no casco da Chimera.
Até aqui, o veículo blindado da Guarda Imperial ainda estava dentro dos padrões normais — blindagem e motor reforçados. Se o "espírito da máquina" não ficasse irritado, esse monstro já estaria pronto para a batalha.
Mas foi só quando Taylor entrou no interior do veículo que viu o espaço amplo, os assentos feitos de colchões velhos (a maioria esfarelando) e até uma pequena cozinha de campanha improvisada (um fogão a combustível e uma panela) que poderia ser usada fora do veículo quando não estivessem em combate.
O que mais deixou Taylor satisfeito foi saber que aquilo era um símbolo de honra para todo o 15º Esquadrão.
Claro que, se o Tekaiser visse aquilo, provavelmente teria um ataque de raiva e morreria no ato por violação de regulamentos.
E se os membros do Culto Mechanicus vissem, recitariam mantras binários por horas para se acalmar.
Mas Taylor não estava nem aí. Ele só conseguiu gritar, todo animado:
— Vamos dar partida! Vamos testar esse negócio agora mesmo!
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