Quem poderia dizer quanto a tempestade e o tempo tiveram a ver com aquilo, mas entre o estrondo colossal e os gritos da 15ª Esquadra do 3º Pelotão do 36º Regimento Skadi, onde Taylor estava...
O Comissário Taikess finalmente acordou. Furioso e com olheiras.
Na manhã seguinte, Taylor foi conduzido excepcionalmente ao coração do antigo castelo — um belo salão no topo, repleto de vitrais góticos coloridos e nobres austeros.
Vestiam trajes imponentes, armaduras ornamentadas, com o emblema de um dragão vermelho entrelaçado no peito.
Pareciam cavaleiros medievais.
Taylor se maravilhou. Aquelas armaduras eram verdadeiras relíquias, embora não resistissem a um único disparo de sua rifle laser.
Finalmente, Taikess levou Taylor até um trono metálico. Sobre ele, um ancião de pele pálida como múmia, coroado e envolto em mantos vermelhos.
Seus membros atrofiados pela idade quase não se viam, mas sua voz ainda ecoava firme.
Membros do Mechanicus o rodeavam — semihumanos cibernéticos horrendos — usando aparelhos estranhos para mantê-lo vivo.
Taylor calculou que o velho devia ter séculos de idade.
Quando o ancião falou, sua voz carregava a autoridade dos séculos:
— Esta fortaleza tem doze mil anos. Foi construída quando nossos ancestrais ainda não serviam ao Império.
— E você destruiu parte dela. Eu lhe ofereci abrigo, e você causou mais dano que os brutos orkos!
Taikess saudou e respondeu:
— De qualquer forma, os orkos a reduziriam a pó!
Taylor ficou surpreso. Seu superior estava o defendendo?
Até sentir uma mão pesada em seu ombro.
Taikess continuou:
— Se Vossa Alteza acredita que estas defesas nos salvarão, que assim seja.
Sua mão metálica apertou Taylor, como se impedindo sua fuga.
O chamado "Rei Supremo" sorriu de modo inquietante:
— Guerreiro do Imperador... devo tomar suas palavras como insulto à minha linhagem?
— Desde que meus ancestrais se juntaram à Grande Cruzada, jamais fui tão ultrajado!
De repente, Taikess empurrou Taylor para frente.
— Este é Taylor. Taylor Kyle Anco.
Ao ouvir o nome, a expressão do rei suavizou.
Taikess aproveitou:
— Posso ceder este soldado a vós até o fim da guerra, como compensação pelos danos.
O rei riu:
— Por que ele valeria algo?
— Se é apenas por honra, meu grupo de cavaleiros tem melhores opções.
Taikess contra-atacou:
— Este homem matou trinta hereges sozinho, destruiu um centro de comando inimigo e evitou um ataque aos nossos oficiais, fazendo os inimigos se matarem entre si.
— Se tal feito não tem valor, minha tropa não tem melhor compensação a oferecer.
E, pausando, encarou o ancião:
— Foi ele quem estava no ponto do colapso.
O olhar do rei mudou de suave para gélido.
Taylor entendeu: era o bode expiatório!
Bem... tecnicamente, a culpa era mesmo dele.
Quando tentou protestar, o rei declarou:
— Minha sobrinha, a Lâmina Livre, Lady Ilana, precisa de um escudeiro. Que este "herói" a sirva.
Enfatizou a palavra "herói". Taylor sorriu amargamente:
— Como ordenardes, Vossa Alteza...
Horas depois, Taylor se arrependia de ter rezado por chuva.
O acampamento da Lâmina Livre ficava nos arredores. Sem veículos, só restava marchar a pé.
Taylor se desculpou com seus soldados:
— Culpa minha. Perdemos o conforto da fortaleza.
Uma soldado ratling baixinha, cozinheira e atiradora, olhou suas botas e murmurou:
— Não se preocupe, chefe... assim fica mais... interessante.
Seu tom arrepiou Taylor.
— Permitimos peculiaridades, mas isso já é demais! — ele berrou, acelerando o passo.
Após horas de lama, avistaram uma cidade — e dela emergia uma máquina colossal.
Um mecha de treze metros, escudo tempestade na mão direita, motosserra gigante na esquerda.
Vermelho reluzente, cercado por servos e técnicos.
No caos, o grupo de Taylor passou despercebido.
Ele esfregou os cabelos negros, aliviado:
— Podemos descansar. Trocar rações por comida local!
Finalmente longe de Taikess. Chance perfeita para relaxar.
Até que uma voz melodiosa o interrompeu:
— Taylor Kyle Anco. Pretende desertar?
Uma nobre de cabelos brancos e vestes elegantes se aproximou.
Bela, impecável, com porte que ofuscava até as "excêntricas" de seu pelotão.
Taylor agiu como cavalheiro:
— Minha dama, temos o prazer?
Ela sorriu:
— Sou Ilana. Lâmina Livre. E sua nova senhora.
— Vá se lavar, escudeiro.
— Depois, espere em meus aposentos. E capriche no banho. Detesto odores vulgares.
Taylor respirou fundo:
— Como desejar, minha senhora.
Capítulo 4: A Lâmina da Liberdade
A água gelada escorria pela pele de Taylor, enquanto ele se esfregava com um sabão rudimentar, formando uma espuma que logo era levada pela corrente. Ele repetia o processo, insistentemente, como se quisesse lavar algo além da sujeira do corpo.
O soldado da Guarda Imperial havia dispensado os serviçais, preferindo se lavar sozinho. Mesmo com o frio cortante após a chuva, ele continuava, despejando baldes de água sobre si, como se aquele ritual pudesse apagar o fogo interno que ainda o consumia.
Finalmente, depois de uma última pancada frustrada contra a própria perna, ele suspirou e parou. O cansaço da longa marcha e da noite mal dormida começou a pesar, mas havia um compromisso a cumprir.
Ao chegar diante da porta do aposento da cavaleira, Taylor hesitou. Aquele simples batente despertava nele uma agitação estranha. Ele bateu com cuidado, tão cauteloso quanto na primeira vez que apertara o gatilho de seu rifle laser, anos atrás, quando invadira um mercado negro de cultistas sem nem saber direito o que estava fazendo.
Trinta mortos depois, ele ganhara uma reputação que nunca quis. Talvez por isso ele sempre tentasse salvar os inocentes — já tinha visto derramamento de sangue suficiente.
A voz de dona Iliana veio de dentro, leve e alegre:
— Entre!
Ele agradeceu mentalmente aos ancestrais antes de empurrar a porta.
O aroma suave do quarto contrastava com o que ele esperava de um aposento feminino. Nada de camas ou adornos delicados — apenas armas, uma mesa enorme e mapas táticos. E, para sua surpresa, a sala estava cheia: cavaleiros, membros do Culto Mechanicus e até soldados de seu próprio pelotão, todos prontos para a batalha.
A própria Iliana estava vestida com um traje de combate hidráulico, sua conexão metálica à Espinha do Trono visível nas costas. Ela apontava para peças vermelhas no mapa, representando hordas orkas, e sorria.
Um sorriso que, de algum modo, era assustador.
E então todos viraram os olhos para Taylor, ainda de pijamas, deslocado como um palhaço num campo de batalha.
Iliana riu, satisfeita:
— Ha! Não sabia que os oficiais da Guarda Imperial tinham esse lado cômico. Como ator, você é nota dez.
Taylor sentiu o sangue subir ao rosto:
— Você estava brincando comigo?
— Um soldado do Imperador não deveria ter a mente tão distraída — ela respondeu, com um tom de provocação. — Se não fosse pela disciplina da Guarda, eu juraria que você é um desses nobres que compram medalhas!
Antes que Taylor pudesse reagir, a sargento Ketti, sua subordinada, interveio:
— Nosso comandante não é nenhum covarde ou trapaceiro! Cada condecoração foi conquistada com sangue e estratégia, diante do próprio Imperador!
— Chega! — Taylor cortou, irritado. — Ketti, minha querida, pare de me defender. Se a "Lâmina da Liberdade" aqui quer duvidar, que duvide. No fim, estamos cercados por orks. Hoje vivemos, amanhã morremos. Nessa situação, honra e glória não valem nada.
As palavras ecoaram na sala, e os olhares ao seu redor mudaram. Num universo onde tantos matavam por um fragmento de reconhecimento, um homem condecorado que cuspia na própria fama era algo raro.
Iliana estudou Taylor por um instante antes de sorrir de novo, desta vez com um brilho diferente:
— Então você é daqueles que gostam é do combate, não das medalhas.
Taylor pensou em responder: "Poderia ser só do 'gostar', sem a parte do combate?"
Mas decidiu que já havia falado demais.
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