— Você tem certeza de que não exagerou na descrição? — A médica escolar pareceu pensar em algo, surpresa.
— Sim — Shi Yu confirmou com um aceno.
— Se for realmente como você descreveu, pode ser a Flor de Nove Corações. Você teve uma sorte incrível.
— Essa flor é raríssima. É mais fácil encontrar uma besta espiritual de cem mil anos do que uma dessas. E você não só encontrou, como ainda a consumiu! — Os olhos da médica brilharam de inveja.
Era mesmo a Flor de Nove Corações... Shi Yu já suspeitava, e agora tinha a confirmação.
— Quais são os benefícios de consumi-la? E tem algum efeito negativo? — Ele perguntou, buscando detalhes.
— Quase nenhum efeito ruim. Os benefícios estão principalmente na recuperação de ferimentos.
— Como eu disse, suas células têm uma atividade impressionante. Isso significa que seus ferimentos se curam muito rápido.
— Além disso, você dificilmente ficará doente e terá uma vida mais longa que o normal.
— E quanto a venenos? — Shi Yu perguntou, curioso.
— Venenos comuns, provavelmente sim. Mas toxinas letais ainda podem afetá-lo — só que você resistirá muito mais antes de... bem, você entendeu.
A médica respondeu a tudo, fascinada pelo corpo de Shi Yu. Ela até sugeriu que ele colaborasse em alguns estudos.
Ele recusou na hora, inventou uma desculpa e saiu. Virar cobaia? Nem pensar.
Ao deixar a enfermaria, sua cabeça estava cheia de dúvidas. Precisava de um lugar para pensar.
— Você está bem? — Foi quando Song Lingzhen apareceu, preocupada.
Interrompido, Shi Yu deixou os pensamentos de lado por enquanto e balançou a cabeça, indicando que estava tudo certo.
— Que bom. Vou te levar ao dormitório agora — ela disse.
— Obrigado, professora.
No caminho, ela explicou sobre o campus da Academia Shrek, e ele memorizou cada detalhe.
Ao se aproximarem dos dormitórios, Shi Yu lembrou do velho guardião, Mu En, sempre deitado na entrada.
[Devo tentar ganhar a simpatia dele?] Pensou. [Ah, melhor cumprimentar, pelo menos. Não custa nada.]
Assim que entraram no pátio, avistaram o homem deitado numa cadeira balançando lentamente, que rangia a cada movimento.
Shi Yu olhou casualmente para o velho, que por acaso também o encarou.
Ele pretendia cumprimentá-lo, mas no fim só sorriu e acenou. Falar um "olá" formal soou estranho na cabeça dele.
[Deixa assim. Se ele fica aqui sempre, posso tentar outra hora.]
Mu En não respondeu, mas seguiu Shi Yu com os olhos após ele passar. Seu olhar turvo ganhou um brilho fugaz.
[Um espírito espacial?] Pensou, surpreso.
— Seu quarto é o 118. É mais ou menos ali — Song Lingzhen apontou no corredor do primeiro andar.
— Entendido.
Ela se foi então, deixando-o seguir sozinho.
Ele passou os olhos pelos números, parando no 108. [Era ali que Huo Yuhao ficava... Será que já está ocupado?]
A porta estava fechada. Sem saber se alguém já morava lá, seguiu em frente até o 118.
A porta estava aberta. Dentro, dois homens de meia-idade trabalhavam: um varria, outro arrumava a cama.
— Toc-toc — Shi Yu bateu educadamente.
— Sou um calouro designado para este quarto. Vocês são...? — perguntou.
Pela idade, obviamente não eram alunos. [Seriam funcionários da academia ou empregados do colega de quarto?]
— Nosso jovem mestre mora aqui. Estamos arrumando para ele. Ele foi comer e deve voltar logo — respondeu um deles.
O outro ignorou Shi Yu, focando no trabalho.
— Entendo — ele entrou e, vendo que ainda havia serviço, ofereceu ajuda.
— Não precisa, jovem. Você será colega e parceiro de quarto do nosso mestre. Não é justo deixá-lo trabalhar — o homem recusou, sorrindo.
— Isso me deixa desconfortável. O quarto é dos dois, e eu devo fazer minha parte — Shi Yu pegou a vassoura, decidido.
Sem muita opção, o empregado deixou.
— A propósito, jovem, você não trouxe roupas? — o homem comentou, casual.
— Só tenho essa — Shi Yu respondeu na mesma vibe.
A roupa era a única que comprara desde que chegara a esse mundo, junto com um par de sapatos.
O resto do dinheiro foi para comida e moradia. Agora, só tinha dez moedas de cobre — o equivalente a uns míseros dez reais.
Se não fosse Song Lingzhen bancando suas refeições esses dias, estaria passando fome.
— Ah, é? — O empregado entendeu, e um ar de desdém surgiu em seus olhos. [Mais um pobre sem eira nem beira.]
Shi Yu ignorou. Eles nunca se veriam de novo, então pouco importava.
— A propósito, como se chama seu mestre? — perguntou.
— Dai Huabin.
Shi Yu olhou para o homem, surpreso.
— Você o conhece? — o empregado perguntou, curioso.
— Não — ele negou, mas pensou: [Que coincidência. Justo com Dai Huabin...]
Ele sabia que o rapaz era mimado, arrogante e cheio de si.
Dividir o quarto com alguém assim não seria nada fácil. Problemas estavam garantidos.
Mas não tinha jeito, ele não tinha influência nenhuma. Como poderia simplesmente trocar de quarto quando bem entendesse?
Tendo que aceitar a situação, Shi Yu só podia se conformar.
— Nosso jovem mestre é filho do Duque Tigre Branco do Império Xingluo! No futuro, com certeza vai subir na vida e se tornar uma das figuras mais importantes do império — disse um dos colegas de quarto, cheio de orgulho, como se servir a um mestre tão ilustre fosse a maior honra do mundo.
— Impressionante — respondeu Shi Yu sem entusiasmo. Se o cara queria ficar enaltecendo Dai Huabin, ele que falasse à vontade. Não valia a pena contrariar — ele não era do tipo que gosta de discutir por nada.
— Você devia tentar ganhar a simpatia do nosso mestre. Se ele gostar de você, pode te dar várias vantagens — sugeriu o outro, claramente tentando recrutar Shi Yu como um subordinado do "jovem mestre", alguém que pudesse ser útil dentro da Academia Shrek.
Shi Yu sorriu com educação, mas sem se comprometer.
Ele tinha seu orgulho. Não invejava os ricos e poderosos, mas também não se rebaixaria para bajulá-los.
Afinal, dava pra viver sem luxo e riqueza. Por que se humilhar diante dos nobres?
— Não seja teimoso. Se seguir nosso mestre na Academia Shrek, vai viver no luxo, com roupas finas de seda da melhor qualidade. Olha só a minha — o colega puxou a própria roupa — custou dez moedas de ouro! Deve valer umas cinquenta vezes mais que a sua.
Shi Yu já estava ficando irritado. Varreu o chão rapidamente e se jogou na cama.
— Tô cansado da viagem. Vou dormir. Façam o que quiserem — disse, fechando os olhos e ignorando os outros.
— Sem noção — resmungou baixinho o outro colega.
Shi Yu fingiu não ouvir e dormiu. Desde que chegara a dez mil anos no passado, ele mal tinha descansado. Agora, bastou deitar para cair no sono, sem nem pensar nos problemas que tinha pela frente.
Pouco depois, um jovem alto e vestido com roupas caras entrou no quarto.
— Jovem mestre! — Os dois subordinados se apressaram a cumprimentá-lo.
Dai Huabin acenou com indiferença e olhou para Shi Yu, que dormia.
— Esse é seu colega de quarto. Perguntei, e ele se chama Shi Yu. Parece que não tem influência nenhuma, meio humilde — explicou um dos subordinados.
— Entendido. Vocês podem ir. Fiquem num lugar perto da academia. Se precisar, eu chamo — ordenou Dai Huabin.
— Sim! — Os dois saíram.
Dai Huabin sentou em sua cama, que ficava de frente para a de Shi Yu, com cerca de dois metros de distância entre elas.
Tirou os sapatos, subiu na cama e começou a meditar. Uma luz branco-dourada brilhou em seu corpo, e uma imagem fantasmagórica de um tigre branco surgiu atrás dele — ainda fraca, já que as manifestações do espírito marcial eram sutis durante o treino.
Shi Yu só acordou no fim da tarde, revigorado. Espreguiçou-se com satisfação e notou Dai Huabin meditando à frente.
Observou-o com curiosidade, como se um personagem de livro tivesse ganhado vida.
Dai Huabin tinha uma boa aparência — bonito, com traços marcantes e um ar de autoridade, provavelmente influenciado pelo espírito marcial do Tigre Branco. Seu físico era atlético, dando a impressão de ser um lutador habilidoso.
Quando Dai Huabin saiu da meditação, seus olhos encontraram os de Shi Yu.
— Oi — cumprimentou Shi Yu com um sorriso.
O fato de os subordinados serem chatos não significava que Dai Huabin também fosse. Afinal, eles nem haviam trocado uma palavra ainda. Seria injusto julgá-lo só por causa dos empregados.
Dai Huabin apenas acenou com frieza, conferiu as horas e desceu da cama para ir jantar.
"Parece mesmo difícil de lidar..." Shi Yu não insistiu. Se o cara não queria conversa, ele também não ia forçar.
Sentindo o estômago roncar, levantou e calçou os sapatos. Era hora de arrumar algo para comer.
Os dois saíram do quarto, cada um por seu lado.
Dai Huabin foi na frente e parou no corredor, esperando alguém.
Shi Yu seguiu direto para a entrada do dormitório, onde o velho Mu En ainda descansava na mesma posição.
— Vovô, já não vai jantar? — perguntou Shi Yu, naturalmente.
Mu En, como um idoso comum, respondeu:
— Ainda não tô com fome.
— Até parece mais resistente que eu — brincou Shi Yu, dando um joinha antes de seguir para o refeitório, seguindo as placas.
Mu En observou suas costas por um instante, depois voltou a descansar, despreocupado.
Sentado no refeitório, comendo dois pães e uma tigela de mingau — a refeição mais barata, que lhe custou três moedas de cobre —, Shi Yu refletiu.
— Preciso arrumar um bico, senão vou passar fome.
Com as dez moedas de cobre que tinha, só restavam sete. Daria para o café da manhã, mas o almoço seria mais caro. Será que ia conseguir?
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