Lu Mingfei pegou o envelope e sentiu algo fino dentro – sem dúvida, era a carta de admissão da Universidade Kassel. Ele já ia voltar quando o porteiro jogou mais uma coisa pra ele.
– Precisa assinar o recebido.
Era um envelope grande da FEDEX. Dentro devia estar aquele Nokia N96 preto. Lu Mingfei esfregou a cabeça, quase tinha esquecido disso. Assinou o papel, pegou o envelope e a encomenda, e correu escada acima.
De volta ao quarto, trancou a porta e começou a abrir a carta.
"Caro Sr. Lu Mingfei: Agradecemos seu interesse pela Universidade de Chicago, mas lamentamos informar que você não atende aos nossos critérios de admissão..."
Lu Mingfei revirou os olhos e continuou lendo. Ele sabia muito bem das próprias limitações, pra quê ficar repetindo?
"Porém, como sempre dizemos, há sempre outra opção. Permita-nos nos apresentar: o Instituto Kassel é uma universidade particular localizada nos arredores de Chicago, Illinois, e mantém parceria com a Universidade de Chicago. Todo ano realizamos competições intercolegiais no Lago Michigan, como hipismo, remo, balonismo, natação, além de amplos intercâmbios acadêmicos..."
Lu Mingfei acenou satisfeito. Isso sim, agora estava fazendo sentido.
De repente, o tempo parou. O barulho das cigarras sumiu, a luz do sol perdeu o calor, e até a ventoinha do notebook velho deixou de fazer aquele zunido.
Lu Mingze apareceu vestindo uma túnica azul tradicional de contador de histórias, com um leque na mão onde se lia "Raro é o Despreocupado". Entrou balançando o leque com ar cênico.
– O que você veio fazer aqui? – Lu Mingfei segurava a carta quando um leque tapou sua vista.
– Irmão, vim te avisar sobre uma coisa. Esse mundo está... diferente. Não sei exatamente como ainda, mas vou investigar.
O rosto de Lu Mingfei escureceu.
– O que está acontecendo? Você não jurou que reiniciar o mundo não teria problemas?
Lu Mingze fechou o leque com um "plaft" na palma da mão, dramático.
– Meu caro espectador, engana-se! Nosso poder não é suficiente para reiniciar o mundo perfeitamente. Voltar até aqui já foi no limite. Algumas... variações eram inevitáveis.
CAPÍTULO 2 - A PORTA DE KASSEL (PARTE 1)
– Preciso de tempo pra entender... Irmão, sei que tá ansioso, mas calma. Deixa eu pensar.
Lu Mingze começou a andar de um lado pro outro, fingindo acariciar uma barba imaginária.
Lu Mingfei não aguentou mais a encenação. Deu um passo à frente, pegou o irmão pelo colarinho e o jogou de bruços sobre seu colo.
– Gosta de teatro, né? Hoje vai aprender o sabor da educação fraternal! – Ergueu a mão, pronta para descer uma palmada.
– Espera-espera-espera! Querido irmão, eu falo a verdade! Me solta! – Lu Mingze se rendeu, gritando de boca no chão.
Lu Mingfei o colocou no chão, mas manteve a mão no colarinho. O diabrete sorriu sem graça, tentando agradar.
– Bom... realmente deu um probleminha. A linha do mundo desviou. Nidhogg, aquele traidor, teve parte do seu poder roubado por... alguém. Quem? Não posso dizer ainda. Quanto mais eu falar, pior fica. Você vai entender no momento certo, irmão. – Terminou rápido e olhou pra cara do irmão, apreensivo.
Lu Mingfei soltou o colarinho, deixando o irmão em pé. Levou a mão à testa, lembrando-se de fragmentos de vidas passadas. Sacudiu a cabeça como se quisesse expulsar os pensamentos. Ele havia renunciado a todo poder só por uma chance de recomeçar, e ainda assim o destino o manipulava.
E se o final fosse o mesmo de novo? A tragédia se repetindo, não importa o quanto ele se esforçasse?
Vendo a expressão do irmão, Lu Mingze pareceu sentir pena. Abriu o leque com um gesto fluido e começou a abanar lentamente.
– Irmão, relaxa. O mundo reiniciou com sucesso, só deu um bugzinho. É um pouco diferente, mas não é o fim do mundo.
– No fim das contas, você voltou, não é? Com todas as suas mágoas. – O rostinho do diabrete ficou sombrio, então ele falou com determinação: – O que é nosso ninguém tira. Irmão, conseguimos uma vez, conseguimos de novo. Vou te ajudar a se tornar rei aqui também!
Sua voz era fria e cruel. Os olhos dourados brilhavam como lava, a fúria e a violência contidas jorrando como fogo de vingança pronto para incendiar o mundo.
– Entre no Kassel, irmão. Lá estarão velhos conhecidos.
– O portal do destino já se abriu. Vamos esmagar essa merda de destino! Já recomeçamos uma vez, o que mais não podemos fazer? Juntos, vamos enterrar os deuses dos céus!
– Queime tudo, irmão. Brilhe com toda sua força. Que nesta vida você escreva sua própria história.
– Não tem mesmo como você me contar? – Lu Mingfei insistiu.
– Quem sabe? Quer saber o que vem depois? Aguarde o próximo capítulo. Ah, e a tia pediu pra você comprar vegetais. Onde você deixou?
Lu Mingze piscou, todo o ódio anterior sumido como se fosse divertido ver o irmão em apuros.
Lu Mingfei pensou "dessa vez não vou pegar leve, vou bater até deixar sua bunda roxa", mas antes que pudesse agir, Lu Mingze já havia sumido.
O tempo voltou a fluir. Lu Mingfei sentiu um frio na barriga.
– Ferrou...
– Mingfei! Por que demorou tanto? Onde tá a linguiça e a cebolinha?
– Droga! Deixei no mercadinho!
– Menino mal-educado! Onde já se viu falar assim?! – A tia saiu da cozinha brandindo uma colher de pau.
Lu Mingfei saiu correndo.
[...]
À mesa de jantar, a tia olhava desconfiada para a carta, fazendo uma cara estranha.
– Mingfei, que sorte grande hein? Quem diria que esse tal Instituto Kassel ia te querer...
O personagem leu a carta mais uma vez, resmungando consigo mesmo:
— Será que é golpe? Ouvir dizer que tem bandido se passando por universidade pra roubar mensalidade de estudante... Ou pior, tráfico de pessoas! Você chega lá e te vendem pra cortar órgãos em Mianmar...
Lumingfei perguntou, confuso:
— Tia, você já ouviu falar dessa tal faculdade Kassel?
— Nunca vi na vida! Mas com suas notas, só pode ser uma daquelas uniesquinas particulares — a tia respondeu, erguendo os olhos para ele.
Lumingfei não rebateu. Sabia que, por trás da língua afiada, a tia torcia por ele. Aquele lar que no passado lhe parecera opressor acabara criando-o por seis anos. Sempre que as relações quase se rompiam, algo os reconciliava — fosse o desespero da tia diante de repórteres ("O que vocês, yakuza, fizeram com meu sobrinho?"), fosse a esperança escondida sob sermões. Até o dia em que ela e toda a família morreram sob as garras dos servos de Nidhogg.
O jovem baixou a cabeça, esfregando o rosto para conter a onda de memórias. Renascido, ele agora protegeria seus entes queridos a qualquer custo.
Enquanto isso, o tia admirava o celular Nokia N96:
— Bandido nenhum daria um troço desses de graça antes do golpe. Esse modelo custa mais de cinco mil!
— E olha aqui embaixo — acrescentou o tio, apontando para a carta — diz pra entrarmos em contato com um tal Professor Guderian. Acho que vale a ligação.
[...]
Na tela do computador, um ícone de gato piscava. Lumingfei sorriu ao reconhecer o desafio:
— Partida?
— Combinado — digitou ele — mas sem trapaça, hein?
Nunu respondeu rápido:
— Pode deixar.
Esfregando as mãos, Lumingfei planejava uma humilhação épica. Até que surgiu a mensagem:
[Você está construindo Base Nível 3]
— Traiu a promessa e ainda me avisa? — ele protestou, digitando "GG" antes de fechar o jogo. No QQ, escreveu:
— Trapaceiro vai engolir mil agulhas!
Nunu respondeu com um ponto de interrogação. Lumingfei enviou um emoji de suor e saiu.
O primo Lumingze entrou no quarto com ar irritado:
— Papai ligou pro tal professor. Sua entrevista é depois de amanhã, no Hotel Lijing. Se arruma.
[...]
No terceiro dia, no saguão do hotel, Lumingfei foi conduzido por uma atendente de salto alto até a sala de espera, onde reconheceu colegas da escola: Chen Wenwen, Su Xiaoqiang, Zhao Menghua, Liu Miaomiao.
— Lumingfei?! — exclamaram em coro, surpresos com sua presença.
Ele exibiu a carta de recomendação:
— Também fui convidado, pessoal!
Sentando na última cadeira disponível, preencheu o formulário com dados pessoais enquanto mastigava um croissant. Observou Wenwen — de uniforme estilo britânico, laço branco e hairpin de madrepérola — e pensou:
"Meu gosto era impecável."
— Ah, a juventude... — suspirou alto, provocando olhares reprovadores.
Wenwen sussurrou, apontando para a porta:
— Silêncio! Os examinadores já chegaram.
Antes que ele respondesse, a porta se abriu. Um homem alto, de terno verde-esmeralda bordado com emblema de árvore decrépita, anunciou:
— Liu Miaomiao está presente?
Lumingfei reconheceu-o imediatamente:
— Há quanto tempo, senior Ye Sheng!
Na memória, o destino cruel aguardava: em breve, Ye Sheng e sua amada Yaji repousariam nas profundezas do rio Yang-Tsé, sem jamais confessarem seus sentimentos.
[Na Kassel, cada morte ecoa nos sinos da capela. Pombas voam, levando votos de paz para uma próxima vida longe de nós...]
Os ouvidos de Lu Mingfei ainda ecoavam as palavras do seu veterano. Quando a notícia das pesadas baixas da equipe em Sanxia chegou, toda a academia ficou de luto por eles. Mas desta vez seria diferente — ele mesmo reescreveria aquele final trágico e a dolorosa despedida!
A bela pianista Liu Miaomiao levantou-se de repente, como uma aluna surpreendida pelo professor durante o treinamento militar. Sua voz tremeu levemente:
— Presente!
— Sou o examinador Ye Sheng. Por favor, venha comigo — o jovem sorriu, mostrando dentes brancos como neve.
Liu Miaomiao entrou com passos elegantes, e a porta se fechou atrás deles. Os outros quinze candidatos trocaram olhares nervosos — todos estavam tensos, exceto Lu Mingfei, que cantarolava despreocupadamente "Tornado", de Jay Chou:
— O amor chega rápido como um tornado...
— Ei, vocês pesquisaram no site da Academia Kassel? — Zhao Menghua baixou a voz, olhando para Su Xiaoqiang e Chen Wenwen. — Dizem que é uma universidade de elite, vários professores de Harvard foram pra lá!
— Sim — Chen Wenwen concordou. — Mas eu nem me inscrevi e recebi o convite para a entrevista.
— Universidades top são assim, não ligam para taxas de inscrição, só querem talentos — Zhao Mengha comentou.
— Se fosse só por talento, como esse aqui passou? — Su Xiaoqiang lançou um olhar desdenhoso para Lu Mingfei.
— Nossa, Xiaoqiang, você me acha tão ruim assim? — Lu Mingfei reclamou, balançando os ombros com ar de quem não estava nem aí.
Su Xiaoqiang virou o rosto, ignorando-o.
A porta se abriu. Ye Sheng conduziu Liu Miaomiao para fora com educação. Ela agradeceu, tentando disfarçar a decepção, mas o fracasso estava estampado em seu rosto.
Todos viram a talentosa pianista, que tinha até certificado de nível 10, ser reprovada em menos de dez minutos. Até o orgulhoso Zhao Menghua ficou apreensivo.
— Próxima, Su Xiaoqiang! — anunciou Ye Sheng.
Liu Miaomiao estava com os olhos vermelhos. Já estava arrasada por não passar e, sob os olhares curiosos dos colegas — como se fosse um animal raro —, sentiu-se ainda pior. Pegou a mochila e saiu rapidamente.
Lu Mingfei observou a figura solitária de Liu Miaomiao e balançou a cabeça. "Jovens ainda não conhecem as maldades do mundo. Quando se deparam com candidaturas já decididas, é difícil segurar a onda."
Su Xiaoqiang torcia as pontas do vestido, sem vestígio da arrogância de antes. Quando Ye Sheng a chamou, endireitou as costas e entrou na sala de reuniões, rígida como uma estátua.
— A saudade vira mar, do lado de fora não pode entrar... — Lu Mingfei agora cantarolava "Mar de Flores".
— Lu Mingfei, você não parece nem um pouco nervoso? — Chen Wenwen olhou para ele, curiosa.
— Nervoso pra quê? Se você entra na Kassel ou não, já estava decidido antes mesmo de você nascer. Se o DNA não ajuda, não adianta forçar — ele respondeu, filosofando.
— Não liga pra ele, Wenwen. Vamos nos preparar para a entrevista — Zhao Mengha olhou para Lu Mingfei com desdém.
Su Xiaoqiao foi pior que Liu Miaomiao — não durou cinco minutos.
— Que tipo de pergunta idiota foi essa? — ela resmungou, irritada.
Ye Sheng sorriu educadamente atrás dela. Su Xiaoqiang lançou um olhar furioso antes de sair, e Ye Sheng chamou Zhao Menghua.
O examinador parecia menos entrevistar e mais executar — cada vez mais rápido. Zhao Menghua, o melhor em inglês oral da turma, não durou três minutos. Saiu com um olhar perdido.
— Próxima, Chen Wenwen — chamou Ye Sheng.
— Boa sorte — Lu Mingfei encolheu os ombros. Mesmo não gostando mais dela, ainda tinha consideração.
Chen Wenwen olhou para ele e acenou levemente.
O tempo passou em silêncio. Chen Wenwen durou quinze minutos. Quando saiu, seu rosto estava impassível, os olhos fixos nos pés.
Lu Mingfei não foi perguntar nada. Ela hesitou, olhou para ele e foi embora.
— Lu Mingfei — Ye Sheng acenou. — Você é o próximo.
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