Capítulo 16: A Professora Elisabete
— Professora... — murmurou o urso, olhar perdido.
A visita era ninguém menos que a grande magista Elisabete, a mesma que transformara Serena num urso.
— Quanto tempo, minha querida Serena — disse Elisabete, um sorriso doce e calculista pairando nos lábios pintados.
Vestida de maneira provocante, ela mais parecia uma cortesã do que uma mestra em magia. Usava um chapéu de bruxa, uma blusa decotada que deixava pouco à imaginação, uma saia curta ao ponto de ser questionável e meias arrastão com ligas, completando o visual com saltos altos.
— Parece ter saído de um daqueles jogos de azar cheios de personagens exagerados — pensou Alor, observando a cena.
Elisabete caminhou devagar pelo cômodo, os saltos ecoando contra o chão de pedra. Parou diante da escrivaninha, pegou o diário com dedos afiados e folheou algumas páginas.
— Ah, entendi agora. Sempre me perguntei o que trouxe sua consciência humana de volta. Mas um diário? Claro... foi ele que te fez lembrar seu nome. Faz sentido.
Virou-se para o urso, sorriso orgulhoso.
— Mesmo como urso, você se esforça tanto, Serena. Sua professora está orgulhosa.
A expressão dela era mesmo a de uma professora satisfeita com o aluno.
— Mas essas coisinhas que atrapalham nossa relação... é melhor que desapareçam.
Chamas azuis surgiram em sua mão, envolvendo o diário.
— Não! — rugiu o urso, avançando, mas recuou assim que os olhos frios de Elisabete o atravessaram.
De repente, flashes de luz cercaram o urso, e seu corpo começou a desaparecer.
— Magia de teleporte? — Alor percebeu.
Mas o feitiço se dissipou quando Elisabete ergueu um dedo. O urso foi lançado contra uma estante, que desabou sobre ele, soterrando-o em livros.
— Nem pense em fugir, Serena. Sua magia nunca foi páreo para a minha.
O diário virou cinzas. Elisabete sacudiu as mãos, como se limpasse poeira.
O urso se levantou, ofegante.
— Como... como você me encontrou?
Ela suspirou, divertida.
— Minha pobre Serena... você realmente achou que eu deixaria um dos meus tesouros mais valiosos sem rastros?
O urso olhou para a placa de metal no chão.
— Mas eu apaguei todas as marcas!
— Oh, querida — riu Elisabete —, você realmente acreditou que poderia desfazer um feitiço meu?
— Havia um rastro mágico nele. No momento em que você o usou, eu soube exatamente onde estava. Satisfeita?
O urso cerrou os dentes, frustrado.
— Por que o feitiço não funcionou? Eu segui todos os passos!
Elisabete riu, uma gargalhada alta e cruel que deixou o urso trêmulo.
— Sabe por quê? — ela disse, enxugando uma lágrima de riso. — Porque você é um urso. A magia só funciona em humanos. Nem mesmo um dragão poderia usá-la. Você acha que funcionaria para um animal?
O urso engoliu em seco.
— Isso quer dizer... que eu nunca...
— Exato! — ela completou, sorrindo. — Minha maldição é irreversível. Nada neste mundo pode desfazê-la.
— Você nunca mais será humana.
As palavras soaram como uma sentença de morte. O urso cambaleou, quase caindo.
Elisabete respirou fundo, recuperando o ar sereno.
— Vamos, Serena. Não fique triste. Vamos para casa?
Ela estendeu a mão, como uma mãe chamando uma criança teimosa.
O urso baixou a cabeça.
— Professora... — começou, voz rouca. — Por quê? Se você ia me amaldiçoar desde o início, por que me ensinou magia por cinco anos?
Elisabete ergueu o queixo, os olhos brilhando com satisfação.
— Porque foi divertido.
— D-divertido?
— É claro! — Ela riu, o rosto iluminado por um prazer doentio. — Não é hilário? Uma garota bonita, talentosa, cheia de orgulho e futuro... transformada num urso grotesco. Toda sua educação, suas maneiras, reduzidas a nada. Agora você só sabe rolar na lama, comer carne crua, agir por instinto... Não é uma obra de arte?
O urso arregalou os olhos, horrorizado.
— Só... por diversão?
— E pela minha coleção, claro!
— Coleção?
— Sim! Todos os animais que crio são parte da minha arte!
— Eu viajei pelo mundo todo procurando pessoas como você — seres humanos excepcionais, arrogantes e orgulhosos de seu imenso talento mágico. Eu os treino, os ensino... e quando estão prestes a se tornar magos, de repente abrem os olhos e se veem transformados em criaturas imundas e inferiores! Você não imagina a emoção que sinto quando veio a dor e o desespero nos olhos deles!
Erílis apertou os próprios braços, com o rosto corado e a voz exaltada.
O urso olhou para ela com expressão atordoada, incapaz de acreditar no que ouvia.
— Só... só por isso?
Erílis se acalmou um pouco, ainda com um leve rubor no rosto.
— Você teve sorte, Selena. Eu poupei você daquele desespero. Deveria me agradecer por tê-la transformado em urso e apagado suas memórias.
Ela balançou a cabeça, parecendo decepcionada.
— Mas, veja só, um fator inesperado fez suas memórias voltarem. — Seus olhos brilharam enquanto olhava para a criatura. — Não importa. Quando voltarmos, vou treiná-la direito. Vou fazer de você um animal de verdade... sem precisar de magia. Vai ser divertido, minha querida Selena.
A boca de Erílis se curvou num sorriso cruel.
O urso recuou, rosnando, com uma aura mágica pulsando ao seu redor. Seus olhos vermelhos fitaram a professora com ódio.
Erílis arregalou os olhos, surpresa.
— Selena, você está mesmo pensando em me enfrentar? Usando a magia que eu te ensinei?
Ela riu, como se fosse a piada mais engraçada do mundo.
— Sabe porque ainda não acabei com você? Porque estou dando uma chance para que se arrependa. Você realmente acha que seu poder é suficiente para me derrotar?
— Só vou saber tentando, professora. — O urso cerrou os dentes, encarando-a furioso.
Erílis revirou os olhos, e a magia ao seu redor se intensificou.
— Então está na hora de dar uma lição na minha aluna rebelde.
No meio do tenso silêncio, uma voz hesitante cortou o ar.
— Hum... a briga de vocês não tem nada a ver comigo, né? Se não precisam de mais nada... eu tenho galinhas pra alimentar em casa, então vou indo.
Ambas pareciam ter se esquecido de que havia um terceiro ali.
Erílis olhou de relance para Alor.
— Que nojo. Por que ainda tem lixo aqui?
Sem interesse algum, ela ergueu um dedo na direção dele, pronta para eliminá-lo.
— Espere! Tenho algo importante a dizer! — Alor gritou, desesperado.
Erílis franziu a testa, mas parou.
— Você tem três segundos.
Alor sorriu.
— Deixe-me mostrar um truque. Se gostar, promete não me matar?
— Está maluco? — Ela deu uma risada seca.
— Ultimamente, eu mesmo me pergunto isso... — suspirou Alor.
De repente, virou-se para o urso e, com toda a força, berrou:
— Selena! Eu te amo! Quer namorar comigo?
Tanto a professora quanto a aluna ficaram petrificadas. A absurda declaração de Alor as deixou completamente perplexas.
O eco da voz dele ressoou pela caverna, e até mesmo Alor se sentiu envergonhado.
O olho de Erílis tremeu.
Ela percebeu uma coisa: o cara realmente não tinha nada na cabeça.
— Ele é mesmo louco... — pensou o urso, perplexo.
Mas então, algo estranho começou a acontecer.
[Conquista desbloqueada: Primeira Declaração de Amor! Seja corajoso para expressar seus sentimentos, não importa o resultado!]
[Protagonista Selena, vinculação concluída!]
Ao ver as notificações, Alor soltou uma risada baixa.
Tinha acertado.
Uma luz dourada envolveu o corpo do urso, transformando-o numa silhueta feminina esbelta.
Quando a luz se dissipou, não havia mais um urso robusto, mas uma jovem de cabelos curtos e castanhos, pele clara, lábios cor de cereja e um corpo curvilíneo.
Com orelhas de urso na cabeça.
Capítulo 17: O Esquisitão
— Eu... eu voltei ao normal...
Selena olhou para os próprios braços, agora lisos e delicados, com mãos humanas em vez de patas peludas.
Ao tocar o rosto, sentiu a pele macia, e não mais o pelo áspero. Sua voz também mudara — do rugido áspero para um timbre doce e claro.
Tremendo, ela acariciou o próprio corpo, como se não acreditasse no que via. Lágrimas escorreram pelo rosto, enquanto a felicidade inesperada a inundava.
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