A noite estava silenciosa.
Nem um sopro de vento.
No quarto, só se ouviam os batimentos cardíacos de Huo Ying e o crepitar da fogueira.
Os passos pararam do lado de fora da porta, mas depois... nada.
Huo Ying sentiu um arrepio percorrer sua pele, uma corrente de tensão percorrendo seu corpo.
Ele viu mais de dez criaturas cadavéricas cercando a casa.
Arrastando corpos em decomposição, com rostos pálidos e olhos podres fixos nele.
A Pedra Solar em seu peito queimou por um instante.
Huo Ying voltou a si.
Era outra ilusão. As criaturas do lado de fora estavam tentando confundi-lo de novo.
Instintivamente, ele olhou para a janela. Lá fora, apenas escuridão. Nenhuma criatura à vista.
— Glup.
Ele engoliu seco. O silêncio o deixava ainda mais inquieto.
O tempo passou devagar. Seus músculos estavam tensos. Ao notar que a lenha da fogueira já havia queimado pela metade, Huo Ying percebeu que estava nessa situação há quase duas horas.
— Isso não está certo!
Se havia um bando daquelas coisas lá fora, por que não atacavam? Elas poderiam simplesmente esgotar seus recursos até não sobrar nada.
— O que elas estão fazendo?
Sua energia interna já havia se recuperado em dois quintos.
— Ainda posso usar o Poder da Madeira mais uma vez...
Isso lhe deu um pouco de confiança.
— Esses desgraçados estão me assustando de propósito!
Ele entendeu o plano delas.
As criaturas haviam sido feridas por seu poder e estavam com medo da habilidade de Huo Ying de lançar fogo sem aviso. Agora, estavam criando uma atmosfera de terror para pressioná-lo, tentando enlouquecê-lo, deixá-lo fraco... Queriam vencê-lo com o mínimo de esforço.
— Cadáveres têm essa inteligência?!
Lembrou-se do que Zhang Yuqi dissera durante o dia: essas criaturas eram organizadas, planejavam e até se vingavam dos humanos. Só não os exterminavam completamente porque eram vulneráveis ao fogo do álamo e à Pedra Solar.
Huo Ying hesitou, mas decidiu confiar em seu instinto. Em vez de continuar na paralisia, pegou a Pedra Solar e uma tocha, escondendo-se em um canto onde não pudesse ser visto pela janela. Encostou-se na parede, fechando os olhos pela metade, descansando enquanto se mantinha alerta.
Horas se passaram. Quando já estava quase adormecendo, um rangido ecoou na porta.
Era o som de unhas arranhando a madeira.
Huo Ying acordou de repente, levantando-se num reflexo.
Mas o silêncio voltou. Como se o som nunca tivesse existido.
— Droga...
Mesmo entendendo o jogo delas, quem conseguiria descansar com um bando daquelas coisas lá fora?
Mais uma hora se passou, e o rangido veio de novo. Um único som, seguido de silêncio.
Huo Ying jogou mais lenha no fogo, reprimindo a vontade de sair e enfrentá-las.
— Elas estão me desgastando...
Se passasse a noite em alerta, não teria energia para coletar recursos durante o dia.
Se não dormisse à noite e ainda trabalhasse de dia, em poucos dias estaria tão fraco que nem resistiria às ilusões delas.
— O certo é ignorar essas provocações.
Com a Pedra Solar e o fogo, elas não conseguiriam arrombar a porta de uma vez. Ele teria tempo de reagir.
— Preciso descansar!
Relembrou mentalmente sua luta contra a aranha infectada. Repetiu a cena mais de dez vezes, até que seu coração finalmente se acalmou.
— Aquela aranha era perigosa, até Zhang Yuqi poderia ter caído na armadilha dela... Mas com o Poder da Madeira, eu venceria de novo!
— Eu não preciso ter medo. Elas é que deveriam me temer!
Continuou se encorajando até finalmente adormecer, mesmo com os sons perturbadores lá fora.
Não sabia quanto tempo havia passado quando um bater na porta o acordou.
Huo Ying abriu os olhos pesadamente. A luz do sol já entrava pela fresta da janela.
— Huo Ying, você está bem? Por que não dá sinal de vida?!
Era a voz de Zhang Yuqi, cheia de preocupação.
Ele quase respondeu, mas então soltou uma risada.
— Esses cadáveres são persistentes... Querem me pegar enquanto estou vulnerável.
Zhang Yuqi nunca seria tão imprudente a ponto de bater assim na porta.
Silencioso, pegou a Pedra Solar e a tocha, aproximando-se devagar.
Ao ouvir o barulho dentro de casa, a voz parou abruptamente.
Passos apressados se afastaram.
— Aprendem rápido...
Depois do último ataque, elas não se arriscariam de novo.
Huo Ying cuspiu, decidindo não gastar sua energia. Esperou mais um pouco até o sol subir completamente. Ao testar a Pedra Solar e confirmar que não havia perigo, abriu a porta, pegou sua vara e correu para o riacho.
— Preciso lidar com essas criaturas.
Se até Zhang Yuqi, com suas habilidades, poderia morrer se elas entrassem, ele não sobreviveria a um ataque em grupo só com o Poder da Madeira.
— Vou tentar de tudo.
Se o riacho estava cheio de parasitas e micróbios perigosos, será que poderiam devorar essas criaturas também?
— Será que a água é uma arma que o céu nos deu?
Enchendo os baldes, ele voltou para casa. Desta vez, não filtrou a água.
Usando o Poder da Madeira, criou uma escada e subiu no telhado.
Analisando a posição, percebeu que, se construísse uma calha na beirada, poderia derrubá-la com um golpe quando as criaturas atacassem, despejando água exatamente na porta.
— E a janela também precisa de uma.
Posicionou dois troncos de álamo e usou seu poder. A madeira se moldou, formando dois recipientes alongados.
O gasto de energia foi grande, mas valeu a pena. Despejou a água, enchendo parcialmente o primeiro recipiente.
— Mais três viagens para encher um. E cinco no total para finalizar a armadilha.
Olhou para o sol, ainda alto.
— Tempo suficiente.
# Capítulo 11 - A Dupla
A vida estava em jogo, e Huo Ying estava cheio de determinação. No caminho, comeu duas batatas assadas e bebeu vários goles d'água. O sol ainda estava alto no céu, mal passava do meio-dia, e ele já havia enchido dois reservatórios.
O tempo ainda era cedo.
Se a armadilha no riacho não funcionasse, poderia irritar os cadáveres amaldiçoados. Talvez a batalha decisiva fosse ainda essa noite.
A madeira de álamo não era preocupação, mas oito pedras solares eram muito pouco.
Huo Ying calculou o tempo. Dessa vez, se não demorasse tanto e descesse a montanha mais cedo, a sombra na saída do morro seria curta. Ele ainda teria duas chances de usar a técnica de madeira, então o risco não era tão grande.
Assim, Huo Ying subiu novamente o morro baixo.
Acendeu um pedaço comprido de madeira de álamo e passou a chama sobre as pedras no chão. Com a experiência do dia anterior, a seleção ficou mais fácil.
Talvez fosse sorte, mas logo no começo da busca, ele encontrou duas pedras solares.
— Trocar madeira de álamo por pedras solares? Você é mesmo rico, hein?
Uma voz rouca ecoou acima de Huo Ying. A cerca de trinta ou quarenta metros, em cima de uma pedra grande, um homem de barba por fazer estava agachado como um gafanhoto. O homem vestia uma roupa de couro, não daquelas comuns do mercado, mas feita de pele de animal caçado. Huo Ying não reconheceu a origem, mas sentiu o cheiro de sangue impregnado no couro.
O homem se levantou devagar.
Agachado, parecia um gafanhoto magro, mas de pé, era grande e robusto como um lagarto. Ele mastigava um graveto e carregava um arco de madeira exagerado nas costas. Na cintura, trazia mais de dez flechas de ferro — algumas eram totalmente metálicas, enquanto outras tinham pontas feitas de madeira de álamo.
Huo Ying ficou alerta, especialmente com as flechas do homem, todas manchadas de sangue.
— N-não... não precisa ter medo. O macaco... o macacão não machuca gente boa.
Uma voz gaguejante surgiu ao lado de Huo Ying, fazendo-o pular.
Uma garota de cerca de um metro e vinte, sem que ele percebesse, havia se agachado ao seu lado. Seu rosto era doce, mas as costas curvadas a faziam parecer assustadora. Huo Ying recuou um passo, afastando-se.
Ele percebeu então: a garota tinha um enorme tumor nas costas, que a fazia andar curvada e só conseguir se mover agachada, parecendo mais baixa do que era.
— Ah! É... é o irmão bonzinho!
A garota ergueu a cabeça com dificuldade, reconhecendo o rosto de Huo Ying, e sorriu.
— Você me conhece? — perguntou Huo Ying, surpreso.
Apesar da aparência assustadora, o sorriso da garota era puro, e seus olhos brilhavam com sinceridade. Mesmo desconfiado, Huo Ying não conseguia evitar de sentir uma certa confiança nela. Se não fosse pelo tumor, ela seria como um anjo na terra.
— O irmão... me deu comida uma vez — ela concordou, mas seus olhos se encheram de dúvida. — Mas... o irmão não... não foi morto por uma mulher?
"Morto por uma mulher?"
O coração de Huo Ying apertou.
O Huo Ying original de fato havia morrido — ele era um viajante que ocupara esse corpo.
E se foi uma mulher que o matou...
Desde que acordou, ele só conhecia duas pessoas, e ambas eram mulheres!
— Já falei mil vezes, meu sobrenome é Hou. Me chame de Tio Hou, não de "macacão" — o homem de barba abriu as mãos, mostrando que não tinha intenção de atacar, e se aproximou devagar. — Meu nome é Hou Ping. Não sou dessa cidade, então é normal que você não me conheça.
— Não! Você... você é o macacão! Você... você é meu bichinho de estimação! — A garota gaguejante pulou até Hou Ping e puxou seu casaco de couro, balançando-o.
— Tá bom, tá bom, eu sou seu macacão, uó-uó! — Imitando um macaco, Hou Ping olhou para Huo Ying e explicou: — Eu me machuquei caçando bestas infectadas, e a gaguejinha me encontrou fora da cidade. Ela é um anjo, um presente do céu. Foi ela que me salvou.
— Ela é uma infectada — disse Hou Ping, olhando para o tumor nas costas da garota com dor no coração. — Quando a infecção se espalhou, queimou o cérebro dela. Por isso ela gagueja e tem um pouco de dificuldade para entender as coisas. Mas ela nunca mente.
Hou Ping cheirou o ar perto de Huo Ying.
— Estranho... Se a gaguejinha disse que você foi morto por uma mulher, é porque ela viu que você não tinha chance. Como você sobreviveu?
— Hm? O cheiro de cadáver amaldiçoado em você está forte. Você invadiu um ninho deles?
De repente, Hou Ping puxou a garota para trás, como se Huo Ying fosse uma praga.
— Cheiro de cadáver amaldiçoado? O que quer dizer?
Vendo que Hou Ping queria se afastar, Huo Ying quebrou a tocha de álamo ao meio e jogou uma parte para ele.
— Nossa — Hou Ping pegou a madeira e não pôde evitar um sorriso. A tocha de Huo Ying era grossa e longa, de ótima qualidade. Mesmo metade dela poderia queimar por dez horas.
— Eu também sou um infectado. Meu olfato ficou mais aguçado — explicou Hou Ping, guardando a madeira. — Quem é marcado por um cadáver amaldiçoado fica com um cheiro específico. E o seu... está bem forte. Você foi marcado por vários deles.
— Se a gaguejinha disse que você morreu, então você morreu mesmo. Não sei como voltou, mas sinto muito. Com tantos cadáveres amaldiçoados atrás de você, você vai morrer de novo — Hou Ping encolheu os ombros. — Esse cheiro é contagioso. Se ficarmos perto de você por muito tempo, vamos ficar marcados também. E quando você morrer, eles virão atrás de nós.
Ele revirou os bolsos, tirou uma pedra solar e a jogou para Huo Ying.
— Estamos quites. Uma resposta e uma pedra solar. Não estou te enganando.
— O macacão... também é bonzinho. Não... não é aproveitador — a garota piscou para Huo Ying, séria.
— Quem foi que me matou? — perguntou Huo Ying, a voz firme.
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