Jiang Li baixou a cabeça por um momento, pensativo, e disse:
— Vou voltar para a clínica da família Ye!
Ele acreditava que, em qualquer coisa na vida, era preciso começar e terminar da maneira certa. Mesmo que não fosse mais trabalhar na clínica, precisava se despedir adequadamente. O mínimo que se devia a alguém era respeito. Afinal, foi lá que ele conheceu Dugu Bo e, caso a família Ye precisasse de ajuda no futuro, ele certamente estenderia a mão.
— Tudo bem. Aliás, eu e minha neta estamos voltando para a mansão Dugu. Podemos te levar no caminho — ofereceu Dugu Bo.
— Muito obrigado, mestre — agradeceu Jiang Li, franzindo os olhos de sono.
Francamente, ele não queria voltar sozinho. Embora pudesse se esconder dos perigos com a ajuda da Grama Azul-Prata, o progresso seria lento demais. Ele estava exausto, sem descanso há tanto tempo, e só queria voltar rápido para cair no sono.
— Segure-se bem — disse Dugu Bo, agarrando Jiang Li e Dugu Yan com cada mão antes de partir da Floresta do Pôr do Sol.
Meia hora depois, nas ruas da capital de Tianshui...
— Chegamos. Pode ir — Dugu Bo soltou Jiang Li, vendo o garoto quase cochilando em pé.
— Ah... Até logo, mestre. Até logo, sobrinha — bocejou Jiang Li, esfregando os olhos.
— Jiang Li! Eu já disse para não me chamar de sobrinha! Vovô, olha só ele! — Dugu Yan explodiu, furiosa, e avançou para bater nele.
Mas Jiang Li não era qualquer um. Depois de provocá-la, saiu correndo antes que ela pudesse alcançá-lo. Frustrada, ela virou-se para o avô com um olhar implorando por apoio.
— Ora, Yan, ele está certo. Pela hierarquia, ele é mesmo seu tio-educador. Você é que insiste em não aceitar — Dugu Bo suspirou.
— Hum! Não importa! Ele é mais novo que eu! Eu, Dugu Yan, prefiro pular daqui e morrer do que chamá-lo de tio! — Ela cruzou os braços, indignada.
Dugu Bo balançou a cabeça e deu um leve tapa na testa dela com dois dedos.
— Ai! Vovô, por que fez isso? — Ela esfregou a testa, reclamando.
— Nada. Você vai entender no futuro — respondeu ele, sorrindo.
Como um velho experiente, Dugu Bo percebia o que escapava à própria neta: ela gostava de Jiang Li, mas nem sequer tinha se dado conta. Ou talvez ele soubesse e estivesse evitando a situação de propósito, daí ficar provocando-a. Talvez fosse a idade... Enfim, era melhor deixar as coisas seguirem seu curso.
Enquanto isso, nas ruas da cidade...
— Atchim! — Jiang Li espirrou de repente, ainda sonolento.
— O que foi isso? Alguém está falando de mim... Foi a Dugu Yan? — murmurou, confuso.
— Provavelmente. Só porque a chamei de sobrinha... Que exagero.
Dugu Bo acertara: Jiang Li realmente percebera os sentimentos dela e os evitava de propósito. Para ele, era melhor focar no treinamento por enquanto. Quanto a romances... Isso podia esperar. Ele achava que o que ela sentia era gratidão por ele ter ajudado a família dela, mais nada.
Quanto a ele... Bem, gostar, talvez. Na vida passada, nunca tinha se envolvido com ninguém, então ainda era lento nessas questões. Mas quem não admiraria uma garota bonita, de pernas longas e com interesse em você? Todos são atraídos pelo que é belo, e Dugu Yan tinha uma personalidade encantadora. Não era absurdo sentir algo.
Quanto às provocações? Puro espírito de brincadeira. Afinal, sem uma cutucada de vez em quando, a vida fica sem graça.
— Tanto faz. Melhor ir logo à clínica da família Ye. — Ele sacudiu a cabeça, afastando o sono, e seguiu para lá.
Não demorou para chegar.
— Mestre Ye, o senhor já sabe que me tornei discípulo do mestre Dugu. Por isso, talvez eu não possa mais atender aqui.
Na sala de visitas da clínica, apenas ele e Ye Renxin estavam presentes. O rosto de Jiang Li transparecia remorso.
Ye Renxin permaneceu em silêncio por um instante antes de responder:
— Tudo bem. Desde o dia que você chegou, eu sabia que não ficaria aqui para sempre. Não direi muito, mas peço que, no futuro, cuide de Lingling.
— Isso... É um pedido de proteção?
Jiang Li ficou surpreso, o sono quase desaparecendo de vez.
— O que o senhor quer dizer?
— Exatamente o que está pensando. Estamos em perigo. Se algo nos acontecer, gostaria que você e seu mestre protegessem Lingling. Não deve ser difícil para vocês, certo?
— Bem...
Jiang Li hesitou. Não era difícil, mas que tipo de situação faria Ye Renxin se preocupar a ponto de fazer um pedido desses?
— Mestre, o que exatamente está...
Ye Renxin cortou-o antes que terminasse.
— Não pergunte mais. Isso não é assunto seu. Basta cuidar de Lingling.
Jiang Li assentiu.
— Entendido. Vou conversar com meu mestre.
Satisfeito, Ye Renxin fez um gesto de despedida.
— Pode ir.
Compreendendo a indireta, Jiang Li curvou-se levemente e virou-se para sair.
Mas ao abrir a porta, deparou-se com Ye Lingling, os olhos vermelhos e úmidos.
— Senhorita Ye... — Ele não soube o que dizer.
— Está tudo bem. Pode ir — respondeu ela, a voz suave embargada pelo choro reprimido.
Qualquer um perceberia que ela estava chorando. Jiang Li sentiu uma pontada no peito, mas não sabia como confortá-la.
— Desculpe.
Sem mais palavras, ele saiu apressadamente dali.
......
Fora da clínica, Jiang Li vagou sem rumo pelas ruas.
— O que está acontecendo, afinal?
Ele não conseguia entender o que deixara Ye Renxin tão preocupado, mas certamente não era algo pequeno.
Antes que percebesse, já estava diante de sua casa.
— Enfim, depois pergunto ao mestre. Ele deve saber.
Com um suspiro, abriu a porta e entrou, indo direto para a cama, onde caiu em um sono profundo em instantes.
Do outro lado, na Mansão Dugu.
O avô e a neta, Dugu Bo e Dugu Yan, estavam almoçando quando alguém bateu à porta.
— Dugu, você está aí?
O visitante era um homem idoso, vestindo um majestoso traje amarelo adornado com bordados de flores, mas sem parecer exagerado. Seus cabelos grisalhos estavam penteados com cuidado para trás. De estatura mediana e com um leve sobrepeso, sua postura era imponente.
— Xue Xing, o que te traz aqui? — perguntou Dugu Bo ao reconhecê-lo.
O visitante era o Príncipe Xue Xing. A razão pela qual Dugu Bo o conhecia era simples: anos atrás, ele havia sido perseguido pelo Templo Espírito Dourado e fora salvo pelo príncipe. Em gratidão, Dugu Bo tornara-se um protetor da família real do Reino de Tian Dou.
— Nada demais. Daqui a uma semana é o aniversário do meu irmão mais velho. Queria saber se você teria tempo para comparecer. Ele fala muito de você, sente sua falta — explicou o príncipe.
Dugu Bo ficou pensativo. Ele e Xue Xing não eram próximos, e mesmo que tivessem sido no passado, os anos em Tian Dou haviam esfriado qualquer laço. Além disso, ele não nutria muita simpatia pela nobreza e não estava com vontade de ir.
Mas, considerando que o príncipe havia vindo pessoalmente e mencionado que o imperador, Xue Ye, sentia sua falta, recusar seria difícil.
— Me passe o convite. Se eu puder, estarei lá — disse finalmente.
Xue Xing sorriu e entregou o convite.
— Então não vou mais atrapalhar. —
[Capítulo 36: O Passado da Família Ye]
O convite tinha uma capa vermelha adornada com fios dourados, e os caracteres que formavam a palavra "Convite" estavam gravados em ouro—um claro sinal de prestígio.
Dugu Bo olhou para o príncipe.
— Mais alguma coisa? Se não, pode ir.
O tom era claro: era uma indireta para que ele se retirasse. Mesmo assim, Xue Xing manteve o sorriso.
— Espero sua presença.
Assim que o príncipe saiu, Dugu Bo suspirou.
— Yan Yan, vamos comer.
— Tá.
Dugu Yan não gostava de nobres e por isso não havia falado nada. Ela sabia que o avô devia a vida ao príncipe e, como protetor do império, ele tinha obrigações a cumprir.
No mesmo momento, no Salão de Recepções do Clã Sete Tesouros de Gema.
— Saudações, Mestre — cumprimentou Qian Renxue, levantando-se e curvando-se respeitosamente ao ver Ning Fengzhi e o Espírito de Espada entrando.
— Sem formalidades — disse Ning Fengzhi com um sorriso, sentando-se no assento principal. —O que te traz aqui ao meio-dia, Qinghe?
— Meu pai fará aniversário em uma semana. Ele pediu que eu o cumprimentasse e o convidasse para a festa, se possível.
Ning Fengzhi concordou sem hesitar. O Clã Sete Tesouros tinha negócios por todo o continente e uma forte relação com a realeza, já que boa parte dos impostos de Tian Dou vinha deles. Além disso, como tutor do príncipe herdeiro, ele não poderia recusar.
— Entendido. Estarei lá.
Qian Renxue deixou o convite na mesa.
— Então, se não houver mais nada, me retiro.
— Quer ficar para o jantar? — Ning Fengzhi sugeriu.
"Raposa velha!", pensou Qian Renxue. Ele não queria jantar, queria era testá-la.
Apesar da raiva interna, ela sorriu.
— Já comi antes de vir. Tenho assuntos pendentes no palácio, então preciso ir.
Ning Fengzhi acenou.
— Cuidado no caminho.
Assim que Qian Renxue saiu, seus olhos se tornaram sombrios.
[...]
No final da tarde, Jiang Li acordou lentamente.
— Ugh, faz tempo que não durmo tão bem.
Desde que começou a treinar, ele raramente dormia. Seu talento espiritual mediano o forçava a praticar até altas horas, mas sua planta espiritual, a Grama Azul de Aço, lhe dava energia suficiente para aguentar.
Desta vez, porém, ele permitira-se descansar—talvez por ter resolvido seus problemas de treinamento, ou simplesmente por estar exausto.
— Melhor procurar o mestre.
Ele não se esquecera de Ye Renxin. Se suas suspeitas estivessem corretas, precisaria de um plano.
Logo, ele chegou à Mansão Dugu.
Dugu Bo acabara de preparar o jantar.
— Jiang Li! Senta aí e come conosco.
A mesa estava repleta de carne de bestas espirituais—de alto nível, ainda por cima.
— É isso aí! O vovô cozinha muito bem, e pouca gente tem essa sorte — gabou-se Dugu Yan.
Jiang Li riu e sentou-se. Se o mestre estava oferecendo, quem era ele para recusar?
E, de fato, a comida estava excelente. Muito melhor que a dele.
Durante o jantar, Jiang Li evitou tocar no assunto sobre Ye Renxin. Achou melhor não falar disso à mesa, preferindo esperar até terminarem de comer.
Pouco depois, os três terminaram a refeição. Depois de arrumar a louça, Jiang Li se preparou para revelar o motivo de sua visita.
— Mestre, tenho algo para contar a você — disse Jiang Li, quebrando o silêncio.
— Hmm? O que é? Pode falar — respondeu Dugu Bo, erguendo os olhos com curiosidade.
— É o seguinte... — Jiang Li então explicou o que Ye Renxin lhe havia dito, incluindo o pedido para cuidar de seu neto.
— Mas por que o velho Ye agiu assim? — perguntou Jiang Li, confuso.
— Ah... — Dugu Bo suspirou profundamente após ouvir o relato e a dúvida de Jiang Li. — Você já ouviu falar da Flor de Nove Corações, não é?
— Sim, conheço. É o espírito marcial de cura mais poderoso do continente, considerado um milagre. Dizem que pode salvar qualquer um, mesmo à beira da morte. Mas só pode existir em duas pessoas ao mesmo tempo — respondeu Jiang Li.
— Exato. Vou te explicar: como o poder de cura da Flor de Nove Corações é tão forte, muitas facções querem controlá-la. Por exemplo, o Clã Sete Tesouros de Cristal e o Templo do Espírito Marcial. Mas Ye Renxin sempre se recusou a se aliar a eles. Por isso, nos últimos anos, ele e o neto sofreram perseguições e pressões do Clã Sete Tesouros. No fim, só sobreviveram graças à proteção da família real de Tianshui e do Templo do Espírito Marcial — explicou Dugu Bo, com um tom de pesar.
http://portnovel.com/book/17/1787
Disseram obrigado 0 leitores