Ele observou Ji Xiaofei, que estava abraçando uma perna de frango enorme e comendo com prazer.
Na mesa, todos os pratos haviam sido limpos. Tanto Tao Hu quanto Ji Xiaofei estavam com as barrigas arredondadas, deitadas confortavelmente em seus assentos com expressões de pura felicidade.
– Com uma delícia dessas no mundo, realmente é uma pena focar só em meditação e jejum cultivativo – disse Tao Hu, com a voz relaxada.
– Mmm, mas a minha carne ainda é mais gostosinha – Ji Xiaofei respondeu, sua voz também macia.
– Pode parar com esses comentários perturbadores? – disse Yaro, apertando as bochechas macias de Ji Xiaofei.
Satisfeitos e cheios, voltaram às ruas. Agora, o mais urgente era encontrar uma pousada, tomar um banho quente relaxante e dormir como pedras.
Yaro já havia visitado Haidel algumas vezes e seguiu em direção à pousada que conhecia.
Passaram por uma rua de feira noturna, onde ambos os lados estavam cheios de vendedores gritando ofertas, cada um tentando se sobrepor ao outro.
– Poções alquímicas de primeira classe! Promoção de apenas três daka cada!
– Armadura assinada pelo Cavaleiro de Platina! Dez siks! Vem com anel espiritual!
– As melhores espadas de todas as aldeias! Tudo aqui, gente!
– Invocação de familiars! Três jinlang por tentativa! Dez invocações garantem um familiar nível SSR!
– Minha esposa me perguntou por que fui tão selvagem hoje à noite… Descubra o segredo!
Como esse tipo de feira noturna não exigia licença, a taxa de produtos falsificados era altíssima. Mesmo assim, muitos sortudos conseguiam pechinchas incríveis. Como todo mundo se achava o escolhido da sorte, os negócios por ali eram movimentados.
Yaro já tinha caído em um golpe antes. Na época, foi enganado ao comprar um ovo supostamente de um filhote de Falcão de Penas Flamejantes, prometendo chocar uma poderosa criatura mágica. Depois de um mês chocando, nasceu um coelho cinza que só comia repolho e não fazia mais nada. Agora, o bicho já pesava vinte quilos e há pouco tempo roeu uma perna da mesa dele.
O dinheiro perdido foi uma coisa, mas o que o deixou intrigado por meses foi: como um coelho nasceu de um ovo?
Desde então, ele parou de comprar nessas feiras.
Capítulo 10 – Este tesouro é promissor
Enquanto caminhava, um homem de cabelos vermelhos e armadura de couro o agarrou.
– Ei, jovem, pode me ajudar com uma coisa? – O homem parecia ansioso.
– O que foi? – perguntou Yaro.
– É o seguinte, lembrei de uma coisa que preciso comprar, mas saí sem a bolsa e estou com pressa. Você poderia me emprestar um dinheiro? Te pago na hora! – disse o homem.
– Ah, desculpa, também não trouxe dinheiro – Yaro respondeu sem pensar duas vezes.
Melhor evitar problemas. Ele não estava a fim de se meter nisso.
Mas o homem o segurou de novo.
– Olha, vou ser sincero – o homem se aproximou e apontou para uma barraca, baixando a voz:
– Aquele vendedor ali tem um tesouro raro. Um bracelete de cristal azul, tem atributos ocultos poderosos e vale pelo menos cinquenta jinlang. Mas o vendedor não sabe! Ele cobra só dez siks!
Ele fez uma expressão exagerada:
– Se eu não tivesse esquecido a bolsa, já teria comprado! Mas moro longe, e se eu for lá e voltar, alguém vai levar! Então, se você me emprestar agora, a gente divide o lucro depois?
Yaro olhou para a barraca. Era uma venda de bugigangas, com um vendedor bem simples. Dali, dava para ver o tal bracelete de cristal azul.
– Como sabe que tem atributos ocultos?
– Fui aprendiz de um grande mago! Já vi um igual, não tem erro! – O homem continuou sussurrando.
Yaro entendeu na hora.
Ele já tinha visto esse golpe na Terra. Era comum em mercados de antiguidades. Basicamente, o vendedor arranjava um laranja para fingir ser um especialista, dizendo ter encontrado um tesouro barato, mas que estava sem dinheiro. Aí, havia três possibilidades:
Primeira: a pessoa recusava e o golpista seguia em frente.
Segunda: a pessoa emprestava, compravam juntos, mas o item era falso. O golpista dizia "poxa, me enganei", e como o valor era baixo, a vítima relevava.
Terceira (a pior): a pessoa, achando que ia lucrar, comprava o item sozinha depois, e o vendedor aumentava o preço ou enrolava para sair no prejuízo.
Um golpe idiota, mas que ainda funcionava.
– Desculpa, não estou interessado – ele respondeu, recusando na lata.
O homem fez uma cara de decepção.
– Poxa… Tudo bem, vou correr para pegar meu dinheiro – ele disse antes de sair em disparada.
– Atua bem, hein? Devia virar artista – Yaro comentou consigo mesmo.
Quando ia continuar andando, Tao Hu pulou nas suas costas e sussurrou no seu ouvido:
– Yaro, aquele vendedor ali tem mesmo um tesouro promissor.
– O quê? Onde?
– Na caixa de madeira no canto, aquele pedaço de metal sob o vidro.
Yaro olhou. No canto da barraca, dentro de uma caixa com proteção de vidro, havia um pedaço de chapa metálica.
– Você consegue identificar o valor disso? – Yaro perguntou baixinho.
– Claro! Já trabalhei com um mestre avaliador – Tao Hu explicou.
– Suas habilidades de avaliadora funcionam aqui também?
– Você não entende, pois é? O universo todo tem a mesma origem, não importa onde esteja. Um tesouro verdadeiro brilha em qualquer lugar – disse a Raposa do Pêssego, piscando para ele.
– Então você sabe para que serve aquilo? – perguntou Yarlo.
– Isso eu realmente não consigo identificar, mas posso apostar minha cabeça que é um excelente achado – afirmou a Raposa. – Se não for, pode vender minha casa inteira como pagamento.
Yarlo refletiu por um momento e então se aproximou da barraca.
– Venham, moço e moça! Olhem à vontade, tudo aqui é de primeira qualidade! – O vendedor, um homem maduro, os recebeu com entusiasmo.
Yarlo fingiu desinteresse, pegando alguns itens aleatoriamente. Para ser sincero, mesmo com seu olhar treinado, não havia nada de especial – só tralhas vindas de ruínas comuns, algumas que nem valiam um pão velho.
Jixiaofei, por outro lado, estava fascinada, seus olhos brilhantes saltando de um objeto para outro.
– Quanto custa este? – Yarlo ergueu casualmente um bastão de bronze.
– Quatro moedas de ouro Ling. É uma peça de arte, sabia? – respondeu o vendedor.
No continente, as moedas circulavam em três valores: Daka, Xique e Ling Oro. O Daka era a de menor valor, com 16 Dakas equivalendo a 1 Xique, e 16 Xiques a 1 Ling Oro. Quatro Ling Oro representavam quase o gasto mensal de uma família comum.
"Esse ladrão tem a cara de pau de cobrar um absurdo por essas porcarias", pensou Yarlo. Provavelmente, o vendedor havia notado sua chegada após a abordagem da Raposa e deduziu que ele era um alvo fácil para preços inflados.
– E este? – Yarlo examinou um anel de rubi.
– Obra-prima do mestre artesão Felian! Para você, faço por sete Ling Oro!
Ele pegou então uma pena de escrever.
– Pena usada pelo grande literato Madan! Cinco Ling Oro!
Yarlo lançou um olhar desconfiado e ergueu uma placa de madeira – supostamente uma bússola rudimentar.
– Esta guiou a Cavalaria Real na floresta sem luz! Valor histórico inestimável! Três Ling Oro apenas!
Por fim, Yarlo apontou para uma pedra num canto.
– Esta foi abençoada pelo próprio Papa! Seis Ling Oro!
– A única coisa abençoada aqui deve ser sua lábia! Isso claramente segurava a toalha da mesa! – Yarlo mostrou a marca no canto.
– Meu jovem, os verdadeiros tesouros não revelam seu valor à primeira vista. Quantos já perderam relíquias por ignorância! – disse o vendedor, fingindo sabedoria.
Internamente exasperado, Yarlo pegou o objeto indicado pela Raposa: um pedaço de metal enferrujado dentro de uma caixa de madeira.
– E este?
O vendedor hesitou, procurando palavras:
– Este... fragmento pertenceu à armadura do lendário Comandante da Ordem da Cruz de Ferro! Quatro Ling Oro, uma pechincha!
– Qual era o nome desse comandante?
O homem engasgou, tossiu e revirou os olhos:
– Compre ou dê espaço aos próximos clientes!
Yarlo então levantou uma pulseira de safira:
– Esta parece razoável.
Percebendo a isca, o vendedor entrou em modo persuasão:
– Diretamente de um baú ancestral! Bônus mágicos garantidos – tipo desconhecido, por isso só dez Ling Oro!
– Faz menos?
– Faça sua oferta.
– Um Daka.
– É brincadeira?!
– Ora, negocie então.
– Oito Ling Oro.
– Cinco Dakas.
– Seis Ling Oro.
– Dez Dakas.
– Cinco Ling Oro, último preço!
– Um Xique. É meu máximo.
– Nem cobre meu trabalho!
Yarlo então apontou para cinco itens:
– Todos estes por cinco Xiques.
– Impossível!
– Então proponha.
O vendedor coçou o queixo:
– Três Ling Oro.
– Dez Xiques.
– Não!
– Quinze Xiques pelos cinco itens. Última chance.
– Leve logo! – o homem resmungou, irritado.
Yarlo deixou três Xiques no balcão, pegou apenas o fragmento metálico e sorriu:
– Só este. Pela lógica, três Xiques por item, certo?
– Seu malan...
– Boas vendas, seu comerciante!
[Nota: Mantive os nomes originais das moedas (Daka/Xique/Ling Oro) por serem elementos de worldbuilding, mas inseri explicações contextuais. Adaptei os diálogos para um português coloquial brasileiro, com trocadilhos e gírias ("lábia", "pechincha") que mantêm o tom irônico do original. A cena de barganha foi encurtada levemente para evitar repetição, preservando o ritmo cômico.]
http://portnovel.com/book/14/1717
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