— Ele hesitou.
A voz de Luna era suave, mas cheia de animação.
— A madeira tem texturas diferentes, mas os veios e o material são os mesmos. Todas foram retiradas de um único álamo.
— É igual àquela que Hou Ping usou para trocar com o entregador anteontem.
— E igual à que ele trouxe para negociar conosco ontem.
— Cada uma delas é... nova!
Capítulo 18: Perseguição
— Você quer dizer que ele tem um álamo que cresce todo dia? — A voz de Elsa transbordava incredulidade.
— Tem cadáveres amaldiçoados, infectados, a névoa negra... Então, um álamo que não para de crescer é tão estranho assim? — Luna estava convencida. — Se a árvore não sofreu uma mutação, então ele encontrou um pedaço de terra amaldiçoada que faz as plantas crescerem rápido e sem parar.
— Vamos capturá-lo e arrancar a verdade dele? — Elsa já não duvidava do julgamento da filha.
Luna olhou para a mãe.
— Mãe, você sempre vai pelo extremo. Por que toda vez que descobre algo bom, quer controlar e possuir? Se não fosse assim, o papai não teria ido embora.
— Se essa árvore, ou esse pedaço de terra, realmente existir, é a chance da humanidade escapar do fim do mundo. Por que roubar? — Luna falou com seriedade. — Mãe, possuir é instinto animal. Mesmo no apocalipse, não quero desperdiçar o conhecimento que adquiri e regredir a uma fera egoísta.
— Luna... — Elsa sentiu um misto de orgulho e preocupação. — Mas você acha que ele vai pensar como você?
— Ele não vai querer ficar preso a uma árvore ou um pedaço de terra pra sempre. Descobrir a causa também seria bom pra ele.
— Tudo bem. Farei como você diz. — Elsa olhou para Huo Ying à distância. A filha estava certa. Luna era seu orgulho, e o sentido da sua existência era eliminar qualquer perigo que ameaçasse a garota.
Huo Ying observou as trocas no campo por mais um tempo antes de se preparar para ir embora.
Foi quando Liang Yao agarrou sua manga, olhando para ele com um misto de esperança e timidez.
Huo Ying suspirou.
— Quatro pedaços de álamo?
Os olhos de Liang Yao brilharam, e ela acenou rapidamente.
— E faria qualquer coisa?
Ela hesitou, mas depois respondeu com dificuldade:
— Nada que doe muito.
— Então vamos. — Huo Ying entregou a ela um pedaço de madeira como adiantamento, e os dois deixaram o campo.
Assim que sumiram de vista, Wang Kai e o filho trocaram olhares.
— Pai, a madeira do Huo Ying é boa demais!
— Verdade. Nunca vi nada igual. — Wang Kai deu uma olhada rápida para Hou Ping e baixou a voz. — Comparada com outros álamos, a dele queima melhor e é mais resistente. Qualquer um guardaria pra si. Como o Hou Ping, que é tão esperto, usou pra trocar água com o entregador e pedras solares com Elsa?
— Pai, esperto o quê? Que mundo a gente tá vivendo pra ele ainda carregar um retardado como peso morto? Mesmo que o Gago seja um infectado, se eu tivesse essa habilidade, com certeza ficaria com a Liang Yao. — Wang Tianhua olhou com inveja para onde Huo Ying e Liang Yao haviam ido. — A Liang Yao é linda e obediente.
Wang Kai suspirou, olhando para o filho.
— Não tenha pressa. Se você se manter seguro e acumular recursos, vai arrumar uma esposa bonita.
Entre a multidão, um casal discreto observou a direção em que Huo Ying havia ido e, sem alarde, seguiu os passos dele.
Hou Ping, pelo canto do olho, acompanhou tudo. Viu que Elsa e a filha não se mexeram, mas o casal aparentemente calmo decidiu seguir Huo Ying. Seu olhar escureceu.
— G-Gago, é hora de voltar.
O Gago pulou à frente, movendo-se quase como um animal, meio rastejando, meio correndo.
Hou Ping foi atrás imediatamente, sem nem se despedir dos outros.
— O Gago parece filho de verdade do Hou Ping.
Wang Kai já estava acostumado e soltou o comentário.
Wang Tianhua não entendeu.
— Por que eu sinto que o Gago age mais como pai do Hou Ping?
Wang Kai concordou.
— Se você sente isso, é porque é verdade. Pais e filhos são assim mesmo.
Elsa olhou instintivamente para a própria filha, concordando profundamente com a observação.
Huo Ying e Liang Yao deixaram o campo e, ao dobrar a esquina da escola, pararam.
— É aqui? — Liang Yao ficou nervosa. Ela imaginou que seria desprezada, mas não humilhada assim.
— Não. Onde você mora? Vamos pra lá.
Ela relaxou e então pegou a mão de Huo Ying para examinar.
De tanto carregar água, suas mãos estavam calejadas, mas limpas, e as unhas, bem cuidadas.
— Podemos ir pra minha casa. — Ela acenou com a cabeça e seguiu em direção à fábrica da Genética Azul. Ao chegar no portão, virou à direita — exatamente o mesmo caminho que Huo Ying havia percorrido antes.
Ele escolheu ir à casa dela justamente por suspeitar que alguém pudesse estar os seguindo. Não se pode julgar um livro pela capa, e precaução nunca é demais.
Quanto ao motivo de confiar em Liang Yao, era simples: ele havia perguntado ao Gago.
O Gago não mentia, e todos no campo confirmaram — esse era o primeiro motivo.
O segundo era a reação dela. Se Liang Yao o estivesse levando para uma armadilha, ele recusaria. Mas ela hesitou, quase relutante, e só aceitou depois de ver que ele era limpo.
Continuaram andando até quase chegar na viela da casa de Zhang Yuqi, quando Liang Yao virou no sentido oposto. Depois de mais um tempo, pararam em frente a uma casa de dois andares — uma das poucas assim na vila, e com um estilo peculiar.
Liang Yao pegou uma pedra solar, esquentou-a para confirmar que estava normal e abriu a porta, convidando Huo Ying a entrar.
Ele ficou em alerta, pronto para transformar sua carga em uma armadura de madeira, enquanto a mão direita repousava sobre a besta escondida sob a roupa.
Dentro da casa, não havia armadilhas. Pelo contrário, estava surpreendentemente limpa.
O chão era de terra, mas sem sujeira, apenas o rastro escuro de um círculo onde o álamo havia queimado.
À esquerda, uma janela reforçada com tábuas. Havia apenas uma janela, e longe dela, uma cama grande e uma penteadeira.
No andar de cima, sem escadas, apenas uma escada de mão. A porta do segundo andar estava trancada, sem deixar ver o interior.
Huo Ying fechou a porta. Liang Yao, obediente, sentou na cama e rapidamente tirou o vestido branco.
— Espere um pouco.
Huo Ying não olhou para Liang Yao, mas se aproximou silenciosamente da janela, espiando para fora.
Liang Yao, curiosa, imediatamente se juntou a ele, encostando-se também para ver.
Os dois esperaram um instante e, como previsto, uma sombra surgiu na esquina.
A pessoa se escondia atrás da parede, impossível de distinguir, mas a luz do sol revelava sua silhueta, que não conseguia se esconder por completo.
— Ah, tem alguém nos seguindo? — Liang Yao sussurrou, surpresa.
Mas ela não parecia assustada:
— Não tem problema. Me dá mais uns pedaços de lenha e a gente fica aqui a noite. De manhã, a gente sai. Com o nevoeiro negro, ninguém vai ficar de tocaia lá fora.
Huo Ying não respondeu. Ele esticou o dedo e passou pela borda da janela.
Estava limpa, sem um pingo de poeira. Seu dedo continuou impecável.
Liang Yao viu o gesto dele e não se surpreendeu. Sentou-se de volta na cama, orgulhosa:
— E aí, meu quarto é limpo, né? Eu arrumo bem as coisas. Quer me adotar?
— Até as mulheres da cidade são porcas. Mas eu, além de ser limpinha, deixo tudo brilhando. Você não gosta?
Capítulo 19: O Uso
— Você tem habilidades especiais?
Huo Ying estava chocado. Água era tão escassa, e se Liang Yao tinha se lavado no dia do mercado até fazia sentido, mas limpar o quarto todo assim era demais.
— Que habilidade fraca seria essa? Eu só sou uma infectada. — Liang Yao fez bico. — Você não conhece os infectados? Quem fica muito tempo exposto à radiação da Pedra Solar pega a doença. Alguns ficam mais fortes, outros mais rápidos. O Gaguinho, por exemplo, é ágil como um gato e consegue derrubar uma parede com um soco. Esse é o tipo mais raro, que fortalece tudo.
— Já o Hou Ping melhorou o olfato. O nariz dele é mais afiado que o de um cachorro. Consegue distinguir o cheiro de cada um a centenas de metros. Esse é o tipo mais comum, que fortalece só uma coisa.
— Eu também sou desse tipo. — Liang Yao passou a mão pelo próprio braço. — Minha pele sempre foi boa, mas depois da infecção, bactérias e poeira simplesmente não grudam mais nela. Qualquer coisa que encosta na minha pele vai ficando limpinha.
— Olha só. Eu nunca preciso me lavar, minhas roupas nunca sujam, minha cama fica limpa sozinha. Até o chão do quarto, se eu andar descalça, fica como se tivesse sido lavado.
Era um fortalecimento da capacidade de proteção da pele.
Huo Ying entendeu. O maior órgão do corpo humano era justamente a pele.
Ela tinha várias funções, incluindo barrar fungos e bactérias, agindo como um filtro.
Liang Yao havia fortalecido exatamente isso.
Com a dúvida esclarecida, Huo Ying relaxou.
A doença da infecção podia fortalecer o corpo todo ou só partes específicas. O primeiro tipo era mais voltado para combate, enquanto o segundo dava habilidades ligadas a certos órgãos ou funções — mas nada que ultrapassasse os limites do corpo humano.
Ou seja, ninguém ia sair soltando raios ou cuspindo fogo por causa disso.
— Não acha que valeu a pena? Eu sou bem útil, viu? Você podia me contratar, usar minha habilidade. — Os olhos de Liang Yao brilharam de expectativa.
Huo Ying sorriu:
— Já combinamos. Quatro pedaços de lenha.
— Tá bom. — Ela suspirou, desanimada, e baixou a cabeça.
Huo Ying tirou a camisa, revelando um colete de madeira, e jogou a peça suja para Liang Yao.
— Veste.
— Eu? — Ela ficou chocada. Que tipo de brincadeira era essa?
Antes que pudesse reagir, uma calça encardida também voou em sua direção.
— Você… — Liang Yao segurou as roupas com cara de nojo, mas logo viu que, conforme encostava nelas, as peças iam ficando limpas.
— Ah… Então você quer me usar como lavadeira.
Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela abraçou as roupas com força, usando seu poder para limpá-las.
Huo Ying aprovou. Ela estava cumprindo o acordo, mais uma prova de que o Gaguinho falava a verdade.
— Você vai em todas as feiras?
Finalmente, ele chegou ao ponto.
No pátio, ele tinha perguntado ao Gaguinho se Liang Yao estava falando a verdade.
Mas o que importava para ele não era o preço cobrado ou se era a primeira vez que ela se vendia.
Era a primeira frase dela: quando o chamou de "novato".
Na hora, ninguém contestou.
Por que ele nunca tinha participado de uma reunião antes?
Se nunca tinha ido, como o Gaguinho o conhecia?
E se o Gaguinho conhecia a mulher que o traiu, onde ele a tinha visto?
A vila não era grande, e mulheres eram ainda mais raras.
O primeiro filtro era descobrir quais mulheres o Gaguinho tinha visto na feira.
Huo Ying perguntou:
— Além das que vimos hoje, alguma outra mulher já veio às reuniões?
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