Quando a bolsa de moedas do Trono foi enfiada em suas mãos, Taylor apenas sorriu e disse:
— Coisinha de nada, coisinha...
Não que Taylor não tivesse vergonha na cara, mas dinheiro nunca é demais, não é mesmo? Quando ele se aposentar, comprar uma fazenda, construir uma casa, ter filhos, casar... Tudo isso ia custar uma fortuna. A aposentadoria sozinha não daria conta!
Enquanto isso, Taylor olhou para os atacantes caídos no chão. Eram na maioria tripulantes mutantes, trabalhadores duros dos porões da nave. Muitos eram Filhos do Vazio — nascidos a bordo, que nunca pisaram em solo firme. A escória da sociedade daquela imensa nave. Sem alguém abrindo os armários de armas e destrancando os corredores, esses caras jamais teriam chegado até ali.
Taylor baixou a cabeça quando a voz melodiosa de Brandirra Lu chegou aos seus ouvidos:
— O que o senhor acha, meu caro?
Ele respondeu por instinto:
— Há rebeldes. Alguém quer você morta, e está dentro da nave. Se excluirmos as forças externas da Guarda Imperial — ou seja, meu regimento, os Cadianos — então...
De repente, ergueu o olhar e viu a mulher sentada em seu trono, observando-o de cima. Seus belos olhos azul-claro brilhavam com interesse. Taylor engoliu em seco e calou a boca. Sentiu-se como um rato sendo encarado por um tubarão. E se ela fosse mesmo um tubarão, certamente seria uma caçadora excepcional.
— Que diabos... — resmungou. — O que você quer de mim? Sou só um soldado raso, e você é a dona dessa dinastia toda! Por que me enche o saco?
A pergunta saiu sem pensar. A maioria dos criados olhava confusa, até que Brandirra Lu sorriu:
— Certo, todos podem se retirar. Preciso conversar a sós com o senhor Taylor.
Os serviçais saíram apressados, fechando as portas atrás de si. A mulher então ergueu levemente a barra de seu vestido, revelando pernas torneadas envoltas em meias de seda e sapatos de salto.
— Vamos? Tantos homens sonham em se arrastar aos pés de uma soberana... Você também, não? Venha, permito que lamba minhas botas.
O tom era provocante. Toda aquela afetação de inocência havia evaporado. Agora, sozinhos, ela deixara cair a máscara — ou será que essa também era uma farsa?
Taylor suspirou:
— Quando desembarcarmos no Setor Cadia, levo o segredo comigo. Tudo bem?
A resposta veio cortante:
— Não. Porque você é mais perspicaz, inteligente e perigoso do que imaginei. Achava que era um farsante — afinal, você foi carregado a bordo como um saco de batatas. Mudei de ideia. Primeiro quis usá-lo, agora proponho uma parceria. Mate meu administrador-geral, e lhe darei riquezas além da imaginação. Ele é meu primo, com direitos sucessórios... E uma fera gananciosa que abriu as portas e armou esses selvagens.
Taylor revirou os olhos:
— Mas ele não é o único com motivos e meios. E duvido que eu seja o único recrutado por você. Então, recuso. Não é que eu não queira sua... afeição, ou o que seja. Mas sou um homem simples, de sangue barato. Se quiser evitar que esta nave vire um caos no vácuo, é melhor me deixar descer logo.
Brandirra franziu os lábios perfeitos:
— Isso é uma ameaça?
— Não — ele respondeu. — É a realidade. Um demônio de alto escalão quer minha cabeça. Tenho ligações com a Inquisição. Os Marines do Caos me veem como praga. Recentemente, ainda pisotei um Patriarca Genestealer em pleno desenvolvimento. E isso é só o começo. A verdadeira bomba-relógio aqui... sou eu.
Ela respirou fundo, os seios erguendo-se sob o vestido.
— Hah... Que homem fascinante. Quero deitá-lo aqui mesmo, entre cadáveres e loucura, como pagamento por sua passagem. Não se preocupe — se engravidar-me, colocarei o óvulo em uma cuba. A criança crescerá saudável e herdará meu trono.
Taylor esfregou a têmpora:
— Isso é pelo bem da dinastia... ou só seu fetiche?
— Ambos — ela admitiu, sorrindo. — Nasci para ser exploradora, guerreira, soberana. Adoro dominar os fortes, brincar com os outros, sentir o poder do meu império. Venha, experimente minha cama de seda clonada, macia como pele humana. Toque este corpo que, em dezenove anos, jamais foi profanado. Garanto que será inesquecível.
Taylor engoliu seco outra vez:
— Ainda recuso. Sou tradicionalista, prefiro o velho casamento monogâmico. E até me aposentar e encontrar o amor verdadeiro, nem penso em... procriar.
Brandirra insistiu:
— Que homem estranho. Quer que eu levante o vestido e mostre meu aparelho reprodutor?
Ele ergueu as mãos:
— Só quero viver em paz.
Ela fez uma careta de nojo:
— Então somos incompatíveis. O que só me deixa mais curiosa sobre nossa prole. Excelência gera excelência, e dois exemplares como nós...
Taylor riu amargamente:
— Não acredito em eugenia. Crianças se formam na educação, não no DNA. Recuso novamente seu "convite experimental". Agora, por favor, me devolva à cela.
Brandirra suspirou:
— Tanto faz. Volte para os aposentos da Guarda Imperial. Mas não desistirei.
Ele sacudiu a cabeça:
— Você não é a primeira a dizer isso. Sempre foi assim comigo. Chamo isso de... má sorte no amor.
Depois de uma longa viagem pelo subespaço – que parecera durar três meses, mas na verdade foram apenas três dias –, o cruzador finalmente chegou ao destino.
Durante esse tempo, Taylor não havia sido incomodado. A Sra. Tuck demonstrara uma tolerância e confiança assustadoras, como se já o tivesse completamente sob controle.
Quando uma figura atravessou rapidamente o hangar, exigindo ser transportada na primeira leva de desembarque ainda de madrugada, todos do Primeiro Regimento de Redenção de Skadi – até mesmo o velho Tecaixas, que jurava entender Taylor melhor que ninguém – esfregaram os olhos.
Será que ainda estavam sonhando? Aquilo era tão improvável quanto o sol nascer no lado errado de Tera. Um verdadeiro milagre.
Dentro da aeronave de transporte, os soldados – que haviam herdado de Taylor o mesmo jeito desleixado – bocejavam, encostados nas frias paredes de metal, cabisbaixos como almas penadas.
— Aposto que ficaram a noite toda jogando cartas – pensou Taylor, com vontade de confiscar o baralho. Ele nunca ganhava, e aquilo só servia para acabar com o ânimo deles.
Mas então lembrou do que a garota ratling lhe dissera:
— Você está cada vez mais parecido com o velho Tecaixas…
Ele balançou a cabeça, reconhecendo a própria bobagem, e disse, num tom generoso:
— Coloquem o ás de copas no capacete!
Era um ditado comum da Guarda Imperial. O ás simbolizava boa sorte, uma espécie de benção – mas só se dizia em situações extremas, quando as coisas estavam no pior.
Falando aquilo agora, parecia um mau presságio, mas os soldados, meio desligados, só responderam com um:
— Certo, chefe…
A ratling, exausta, comentou:
— Chefe, você parece outra pessoa desde que saiu da solitária. O que aconteceu?
Taylor franziu o rosto.
— Você não quer saber… com certeza não.
Ela ficou preocupada. Poucas coisas deixavam Taylor tão perturbado – só as mais horríveis criaturas do universo, ou problemas realmente grandes.
Pelo menos essa soldada perspicaz percebeu: havia algo nessa nave mais assustador do que qualquer perigo que pudessem enfrentar na Fortaleza de Cadia.
Vencendo o cansaço, ela bateu nas costas dele – precisou ficar em pé para alcançar, e ainda olhou com certa satisfação para a Katy, que continuava meio adormecida. Ponto para a ratling!
Mas então notou que Taylor também tinha caído no sono, como os outros soldados, igual ao silêncio de Frankenstein. Ele estava exausto. E, quando viu que Katy tinha encostado a cabeça no ombro dele, a ratling não quis ficar para trás. Só que, por ser baixinha, não conseguiu fazer com a mesma intimidade – parecia mais uma criança agarrada.
Ela resmungou e, em vingança, se enfiou no meio dos dois.
Horas depois, Taylor acordou com o braço direito dormente.
— Droga…
Quando abriu os olhos, viu as duas grudadas nele como uma corrente humana. A ratling estava esmagando seu braço, e o peso combinado das duas o deixara sem sensação nenhuma.
Ele as afastou gentilmente, espreguiçou-se e foi até a frente da aeronave.
— Já chegamos?
A piloto, uma mulher eficiente de cabelo castanho curto, segurava uma xícara de café.
— Há três horas. Vocês dormiram tão profundamente que nem entendi por que queriam desembarcar logo.
— Ah, e peguei um pouco do café de vocês. Muito bom.
Taylor sorriu.
— Claro, amiga. Isso aí foi roubado do estoque particular de um coronel.
— Temos uma ratling no time.
A piloto riu.
— Impressionante. Bem, sejam bem-vindos à Terceira Fortaleza Vórtice de Cadia, o coração do setor. Dá pra ver o Olho do Terror daqui – aquela estrela roxa.
Taylor enxugou o suor da testa ao ouvir o nome.
— Dispenso…
Antes de enlouquecer de vez, ele queria manter distância do Caos – mesmo que já tivesse chamado a atenção de um demônio.
Era péssimo lembrar que estava no lugar do universo material mais próximo do subespaço. Se quisesse, poderia pular lá dentro e procurar o Grão-Mestre dos Cavaleiros Cinzentos, Rogal Dorn ou até o Próprio Leão… mas não tinha coragem para isso.
Estava ao lado do Olho do Terror. Parecia irreal, especialmente considerando que distâncias de anos-luz se resumiam a dias com os motores subespaciais.
Enquanto tomava café, conversou com a piloto sobre salários, benefícios e aposentadoria. Ao descobrir que ela ganhava tão bem quanto um tenente do Império, exclamou, invejoso:
— Olha só esse traje pressurizado! Quem veste isso já é gente fina!
Cutucou o uniforme laranja, deixando a jovem um tanto corada – até que o rosto envelhecido de Tecaixas apareceu na janela, acabando com a brincadeira.
Com sua voz grossa, ele berrou:
— Pensei que você tivesse virado um soldado exemplar! Procurei em todo lugar – refeitório, área de descanso –, mas sabe onde o encontro?
— Aqui, flertando com uma piloto?!"`
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