— Não é impossível! — insistiu a garota Letlin, com firmeza.
— A taxa de sucesso para adultos é menos de 10%… — respondeu Taylor, tremendo.
A moça Letlin engoliu em seco.
— Entendi…
Taylor não queria se tornar um Astartes, e não apenas por isso. Os super-soldados estavam condenados a nunca se aposentar.
Enquanto a Guarda Imperial permitia aposentadoria após 4 a 10 anos de serviço, um Astartes servia até a morte.
Eles eram os Anjos do Imperador, e só deixariam o campo de batalha quando estivessem completamente consumidos. Se Taylor se tornasse um deles, estaria condenado a lutar para sempre — o que, para ele, soava mais como uma maldição.
Quando retornaram ao acampamento, foram recebidos com alegria por humanos e orks, grandes e pequenos, todos animados.
A sensação era boa, se ignorassem o sangue de hereges e os traços brutais da batalha que ainda carregavam.
Taylor, já de saco cheio, foi direto para o refeitório atrás de café da manhã — o sol já começava a subir.
Enquanto isso, o Sargento dos Ultramarines, após descobrir a traição, invadiu o acampamento humano e, em minutos, capturou vários oficiais com mutações visíveis.
Sob o "interrogatório" da Inquisidora, eles confessaram tudo: como foram corrompidos, como seus corpos mudaram e como foram coagidos a se tornar espiões.
No melhor estilo do Império, foram cremados vivos.
Enquanto os gritos dos oficiais ecoavam, o exército se reorganizou e o contra-ataque começou. Sem seus tanques Venator, os hereges caíram como palha diante das forças de Armageddon.
Enquanto isso, Taylor, seguro na retaguarda, aproveitava um café da manhã tranquilo, uma massagem da Senhora Katy e lia os relatórios de batalha em seu datapad, entendendo mais ou menos o que acontecera.
Ao mesmo tempo, Roland, o artilheiro, mecânico e "Grande Mecaboy", instalou o núcleo do sistema de cogitadores no Frankstein.
Aquilo não era uma inteligência artificial, mas um dispositivo auxiliar de cálculo — algo que reduzia erros, melhorava a precisão e, em termos leigos, ajudava a mirar e ajustar o ângulo de impacto para causar mais dano.
Ou, como diria um ork: "Faz o troço acertar mais e bater mais forte."
Roland limpou o óleo das mãos e resmungou:
— Chefe, não sei se essa bagaça vai funcionar direito no Frankstein. A gente devia chamar um tech-priest pra dar uma olhada.
Taylor foi direto:
— Ele ia nos chamar de hereges e nos despedaçar. A gente tirou isso de um Venator invadido. Melhor isso que nada.
— Liga essa porcaria!
Roland deu partida manualmente. O motor do Frankstein rugiu, mas ainda era cedo para ver qualquer diferença.
— O Imperador proteja. Pelo menos não quebrou — disse Taylor. — Qualquer coisinha extra já ajuda, né?
Roland encolheu os ombros.
— Sei lá…
Pouco depois, veio a notícia: vitória. Os hereges e os Astartes traidores, cansados da guerra, recuaram. A maioria dos cultistas foi abandonada no campo de batalha, enquanto os Astartes fugiram em suas naves.
Agora, o trabalho de Taylor era limrar o resto do lixo.
Os orks, já bastante reduzidos, se dispersaram felizes sob as ordens de Taylor. Alguns nobrezinhos logo começaram a brigar entre si, sonhando com o retorno do Esmagador de Ossos.
Enquanto isso, os Ultramarines estavam mais ocupados que a Guarda Imperial.
Na festa da vitória, Taylor viu o velho Tecaques puxar uma garrafa roxa de Amsekt — um luxo inacessível para a maioria, com seu gosto amargo e forte.
Taylor sentiu falta da cerveja de fungos dos orks. "Sou porco demais pra essas coisas finas", pensou.
Quando o clima esquentou, Taylor foi empurrado para um discurso. Foi então que o gigante azul apareceu novamente.
O Astartes tirou o capacete, revelando um rosto marcado por cicatrizes de guerra — impressionante, mas assustador.
— Taylor — disse ele, solene —, renovo meu convite para que você se junte aos Ultramarines.
No meio da festa, Taylor foi ainda mais claro:
— Desculpe, mas não sou feito pra isso.
— São muitas razões, mas, no fim das contas…
— Não quero abandonar meus companheiros.
O Sargento sorriu, como se já soubesse a resposta.
— Mesmo assim, seremos sempre aliados.
Ele estendeu a mão, e Taylor, com sua mão minúscula em comparação, trocou com ele o cumprimento tradicional — o mais alto gesto de respeito entre um Astartes e um mortal.
Não era uma igualdade completa, mas já era algo.
Agora, era hora de relaxar.
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Capítulo 79: Liberdade Reconquistada
Os dias em Armageddon eram monótonos, mas tranquilos. Taylor foi designado para as tropas de limpeza, passando os dias atirando nos hereges remanescentes com o Frankstein.
Mas ele não conseguia parar de pensar: será que os inimigos realmente recuaram? Ou será que já tinham alcançado seu objetivo e por isso fugiram?
Por enquanto, Taylor deixou o trabalho para seus subordinados e ficou admirando a cúpula ecológica da colmeia urbana.
Era a primeira vez que ele subia tão alto.
O ar era puro, sem toxinas, cheiros estranhos ou aquela sensação de queimação nos pulmões.
Se não fosse o imposto ambiental de 30 Thrones por mês, ele até consideraria morar ali.
Mas logo sacudiu a cabeça.
"Quem diabos se aposentaria em Armageddon?"
Mesmo assim, não pôde evitar sentir inveja dos veteranos que conseguiam sair. Pela lei imperial, um ano de serviço dava direito a 3 Thrones ou 50 acres de terra para cultivar.
Ele já ouvira falar de um veterano que serviu por quatro anos e, num mundo isolado e pouco explorado, ganhou um pedaço de terra do tamanho de uma fazenda. Hoje, provavelmente, era uma figura importante na região, com sua foto pendurada na sala de estar pelos filhos.
Sempre que alguém perguntava, ele tinha histórias sem fim sobre glórias e conquistas.
Do lado de fora da cerca da propriedade, vinhas carregadas de uvas. O ar era puro, campos verdes se estendiam, com riachos ou lagos.
Todo fim de semana, levava os filhos para brincar por perto. O menino de macacão, a menina de vestido, a esposa preparando o piquenique à beira do lago, enquanto o próprio veterano segurava uma vara de pescar, enfrentando a natureza.
Taylor sentia uma inveja danada. Era essa a maldita aposentadoria dos sonhos! Ele já até se pegava debatendo se devia morar num hive urbano ou virar um fazendeiro.
Viver totalmente autossustentável era difícil, mas a vida no hive era cara. Os mundos afastados tinham paisagens lindas, mas também riscos.
Por mais que pensasse, Taylor ainda não decidira. Era como se algo o impedisse. Talvez, na hora de se aposentar, a resposta viesse?
Pensando nisso, puxou um pano à prova d’água sobre o rosto, mas passos próximos interromperam seu cochilo.
Ao levantar, viu o Comissário Taikess e a Inquisidora se aproximando com expressões sérias.
— Taylor, após análise, o Tribunal Superior decidiu absolvê-lo — anunciou Taikess.
— Era o esperado… — respondeu Taylor.
Mas a Inquisidora completou:
— Mas o fato de você ter libertado um demônio ainda pesa. Sem culpa, mas com responsabilidade.
— O que quer dizer? — perguntou Taylor.
— Você precisa caçar aquela coisa.
— Um demônio?! — ele quase engasgou.
Taikess emendou, enfático:
— Um demônio de alto escalão, para ser exato. Só fica abaixo dos Príncipes Demoníacos.
— E os Astartes não resolveram isso?
— Eu disse: é responsabilidade, não culpa. Você deve ir atrás. Essa é a decisão do Tribunal — respondeu a Inquisidora.
Taylor suspirou.
— Mas ainda estou em serviço.
— Por isso — Taikess franziu o rosto —, agora também é dever do 36º Regimento de Skadi. Aliás, fomos renomeados. Tecnicamente, estamos sob o Tribunal, mas ainda vinculados ao Departamento Militar. Agora somos o 1º Regimento de Redenção de Skadi.
Taylor esfregou as têmporas.
— Não, não… Essa piada não tem graça.
— Não é piada — a Inquisidora encarou-o. — É a verdade. Não decepcione o Imperador, meu amigo.
Taylor, incrédulo, cobriu o rosto com o pano e resmungou:
— Isso é um sonho… Só pode…
— Quando eu acordar, tudo vai voltar ao normal…
E fingiu dormir, porque ninguém acorda quem não quer.
Horas depois, ele se espreguiçou na cadeira e murmurou:
— Faz tempo que não dormia tão bem…
A soldada ratling, já acostumada, entregou-lhe uma água com gás para despertá-lo. Numa vida de pressão, um gole doce era essencial, saúde ou não.
Ele engoliu alguns goles antes de perceber algo estranho. Olhou para cima: as estrelas haviam sido substituídas por lâmpadas de promécio.
— Onde estamos?
— Num quarto de um cruzador lunar — respondeu a ratling.
— Chefe, você adormeceu no acampamento. Recebemos ordens para trazê-lo — explicou Ketti.
— E ainda ficou murmurando que não ia caçar demônio nenhum — completou Roland.
Taylor cuspiu a água, tossindo, e encarou o mundo com desespero.
O Tribunal achava que ele era um Cavaleiro Cinza?
Caçar um demônio? Era mais fácil o demônio caçar ele…
Respirou fundo, tentando se acalmar, e perguntou:
— Para onde vamos agora?
Ketti pegou o relatório tático.
— Skatlan III. Um típico mundo forja do Mechanicus. Há relatos de atividade herege por lá, e é a principal fonte de munição do setor.
— E o ambiente?
— Atmosfera corroída, tóxica, sem vida, radiação alta. Pode causar câncer.
Taylor sorriu amargamente.
— Agora sim, o Império que eu conheço.
— Estou ferrado…
O pessimismo subiu pela espinha. Agora se arrependia de ter recusado Macragge. Se tivesse tentado virar um Astarte, pelo menos a morte seria rápida.
Mas não. O Império preferia esfolar ele devagar.
Como sempre otimista, Taylor decidiu ignorar. Pegou o relatório e o datapad e os jogou pelo duto de ar.
Uma semana depois, quando o empurraram para o transporte, ele ainda se enganava:
— Vou para um mundo lindo, com gente decente…
Mas quando a nave revelou a paisagem — estruturas monstruosas como tumores sob uma cúpula de energia sufocante —, o sonho se desfez.
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