— E aquele demônio... Ele não foi libertado com os rituais adequados. Sua ação apenas o deixou extremamente fraco.
— Cácio? — Tyler logo pronunciou o nome famoso do Segundo Capitão dos Ultramarinos, um nome que todo o Império conhecia, pelas gloriosas façanhas daquele poderoso astartes. — Ele realmente conseguiu atravessar a Disformidade sem o campo Geller e capturar Magnus, o Rubro?
O inquisidor fez uma expressão complexa. — Quem sabe...
Tyler apenas sorriu amargamente. — Parece que não tenho nada a ver com isso.
Ele se levantou, tomando a iniciativa, e estendeu a mão.
— A partir de agora, você vai integrar o 15º Pelotão, meu território. Acho que já os conheceu... Nenhum deles é fácil de lidar, mas espero que vocês se entendam. O 15º Pelotão sempre acolhe aqueles que nos tratam como irmãos.
Tyler observou o inquisidor. Mesmo que ela não retribuísse o cumprimento, ele não ficaria surpreso.
Mas ela apertou sua mão e disse:
— Se eu descobrir que qualquer uma de suas vitórias veio dos presentes do Caos, serei a lâmina que os matará.
Tyler sorriu. — Minha consciência está limpa, senhora.
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Capítulo 61: Designado! Para um Campo de Batalha Apocalíptico!
Descer da infame Nave Negra da Inquisição já era motivo suficiente para Tyler se considerar sortudo por toda a vida.
Inúmeros psíquicos haviam sido levados para aquela nave e jamais retornaram, lançados à Chama Astronômica, tornando-se combustível para a civilização humana navegar pelas estrelas.
Não importava se eram bons ou maus, leais ou terríveis, bonitos ou feios. Uma vez que seu dom psíquico se manifestasse, seu destino era servir ao Império — ou serem consumidos, tornando-se faróis para incontáveis naves na galáxia.
Como um ato de rebeldia, Tyler decidiu "visitar" a lendária Nave Negra. Para sua decepção, porém, ela não era tão diferente de um cruzador imperial comum.
Talvez o mito e o mistério devessem permanecer intocados.
Com um suspiro resignado, Tyler desembarcou na nave de transporte. Ele bocejou, descendo como se tivesse saído de uma simples pousada — nem faltava, nem sobrava nada.
E suas armas lhe foram devolvidas.
Isso era esperado, mas Tyler se sentia inquieto. Seu equipamento também não era exatamente "limpo".
Como a lâmina de Lictor, por exemplo.
Felizmente, mesmo que usar partes de espécimes alienígenas fosse considerado profano pela Inquisição, o fato de ser empunhado em nome do Império fez a inquisidora fechar os olhos.
Quando o 36º Regimento de Scadia viu Tyler retornar, os soldados comemoraram seu irmão e herói.
A interferência da Inquisição só acrescentou mais misticismo à já lendária trajetória de Tyler. E mistério era algo sedutor — ainda mais em um regimento misto como o 36º, onde muitas das recrutas olhavam para ele com admiração e... outros interesses.
Mas quantas dessas paixões eram reais?
Num Império que venerava a guerra, além do rosto bem aparente de Tyler, sua fama como guerreiro falava mais alto — mesmo que ele sempre insistisse que nada daquilo era mérito seu.
— Tudo foi obra do Senhor dos Necrontiros. Eu só dei sorte de estar lá...
Mas ao reencontrar seus companheiros ilesos, depois de semanas longe, ele não resistiu e se deixou levar pela animação.
Alguns enlatados, lampiões de calor e sacos de frutas secas — era difícil acreditar que soldados pudessem ficar tão eufóricos por tão pouco.
Ainda assim, Tyler achou oportuno apresentar o novo membro do grupo: uma psíquica, uma inquisidora em treinamento.
Como esperado, os olhares desconfiados dos soldados não tardaram. A inquisidora não se importou. Tudo o que ela queria era confirmar a lealdade deles.
Sob aquela tensão, o banquete terminou rapidamente. Naquela noite em Lukka, Tyler finalmente encontrou a paz que tanto queria.
Ele se afastou da multidão e foi até o escritório do velho Tecaius, que, dessa vez, olhou para ele com rara expressão serena.
— Me chamou por quê? — Tyler estava desconfiado. Toda vez que Tecaius o chamava, raramente era algo bom.
Mas o velho surpreendeu ao puxar uma garrafa de Amset, um licor que, em tempos normais, jamais seria permitido no exército.
Ele serviu um copo do líquido transparente para Tyler, que parecia estar em pânico, e disse:
— Eu não sou totalmente insensível. Dessa vez... realmente achei que poderia perdê-lo.
— Sei que você não queria ser um militar.
— Então, descanse um pouco.
— Quando você partiu, percebi que o 36º de Scadia não pode mais viver sem você. O moral dos soldados caiu, e sem você... até eu senti falta de esperança.
Seu rosto marcado pelo tempo fitou Tyler.
— Nossa... que sentimentalismo — Tyler respondeu, envergonhado.
Tecaius sorriu. — Um regimento comum do Império dura no máximo três campanhas... ou menos. Se não fosse por você, não teríamos chegado até aqui.
Tyler esfregou o nariz e tomou um gole do Amset.
— O que importa é sobreviver, não é?
— Recentemente, eu vi demônios e necrontiros.
— E agora? Qual é a próxima missão? Sei que o Departamento Militar não vai nos deixar em paz!
O velho Tecaius riu sem graça.
— Eu não deveria falar nada... considere que é o álcool falando.
— Tossiu.
— Nossa próxima parada é um Mundo Forja. Além dos Adeptus Mechanicus, há uma infestação de orks, nossos velhos amigos verdes e barulhentos.
— Mas o principal são nossos aliados. Na verdade... os astartes que você encontrou da última vez também estarão lá.
— Nós somos os reforços.
Na mente de Tyler, passou a imagem do lobo desastrado e do Ultramarine com o capacete vermelho.
— O quê?! — sua voz saiu cheia de inquietação. — A gente vai reforçar astartes? Nós não somos super-humanos!
— Que tipo de inimigo é esse?!
— Você me confundiu com Taitus ou Cácio?!
— Claro que sim! O lugar pra onde vamos é famosíssimo, você vai adorar — disse Taikess com um sorriso.
— O quê?! — Taylor perguntou, a voz tremendo de medo.
Foi quando Taikess soltou o nome que fez os pelos do braço dele se arrepiarem. Nunca imaginara estar tão perto daquele lugar. Ali, o próprio Imperador havia sido ferido, o Comandante Horus humilhado. E hoje, era o lar de criaturas temíveis como o Esmaga-Ossos e o Velho Caolho.
Ao ouvir o nome, o rosto de Taylor ficou roxo como uma berinjela congelada.
— Armageddon! —
Taylor sacou a arma num pulo, brandindo o seu sabre militar Licator.
— Para com essa loucura! Isso é lugar pra ser humano, pelo amor do Imperador?
— Saiam da minha frente! Vou virar desertor, vou fugir!
A mão mecânica de Taikess agarrou Taylor antes que ele escapasse.
— Por isso eu disse que você não devia saber.
— E por isso te trouxe aqui!
A falsa embriaguez sumiu do rosto dele num instante.
— Chamem os reforços! Segurem o herói! A nave de transporte já está pronta, né?
Taylor deu uma risada histérica.
— Acham mesmo que me pegam? Não sei porquê, mas no desespero eu fico forte pra caramba!
O velho Taikess não se abalou.
— Por isso eu coloquei anestésico no seu drink. Boa noite, soldado.
Só então Taylor percebeu a fraqueza nos membros. Com um último surto de fúria, rosnou a pior maldição que conhecia.
— Seu @!?
Mas era tarde. Jovens da Defesa Planetária o arrastaram sem cerimônia para a nave...
Taikess sabia que os soldados do 36º Regimento não ousariam atacar Taylor.
Ironia do destino: o que nem os mais temíveis hereges ou xenos conseguiram, o velho comissário acabara de fazer.
Acesa o charuto, ele soltou uma baforada filosófica:
— É pro seu próprio bem. Sem feitos heróicos, a Inquisição não vai te perdoar...
— Se meteu com demônios? Azarão da porção mesmo!
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CAPÍTULO 62 - ARMAGEDDON, PARTE 1
Registro da Inquisidora Eldis, em nome do Imperador, sobre os feitos do herói Taylor Kael Ankor.
Este relato trata das atrocidades que ele enfrentou, e dos xenos que combateu. Afirmo minha narrativa como precisa e confiável.
Curiosamente, as opiniões sobre ele no Império são... contraditórias. Alguns o chamam de "o último aventureiro do 41º milênio", outros de "farsante adulador". Há quem o ame como um raio de esperança, e quem ache sua fama superestimada.
Mesmo tendo lutado ao lado do 15º Regimento, ainda me custa defini-lo. A única certeza? Sua lealdade é inquestionável.
Anotado nos Arquivos Secretos da Inquisição.
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Quatro dias após se juntar ao Pelotão 15, a inquisidora embarcou num cruzador imperial rumo a Armageddon. Detalhe curioso: ela não via Taylor há três dias, mas seu rosto estampava todos os pôsteres de recrutamento e manuais da campanha.
Para uma agente treinada, era óbvio o desdém nas expressões dele nas fotos.
— Cada vez entendo menos esse homem — murmurou, rindo. — Herói ou covarde?
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada do sujeito em questão. Taylor usava um uniforme berrante, totalmente fora do seu estilo, e se escorava na parede com ar de quem perdeu a vontade de viver.
— Gatinha ratling, quais são minhas chances se pular pelo duto de escape?
A baixinha de olhos puxados respondeu sem pensar:
— Zero, chefe. Absoluto zero. Ainda não vi ninguém sobreviver a isso — virou estátua de gelo no vácuo.
— Então estamos mortos! — Taylor olhou para a cabine, um compartimento generoso reservado a oficiais, com vista para as estrelas.
Lá fora, o planeta Luca se afastava: atmosfera branca, solo esmeralda e oceanos azuis criando um mosaico deslumbrante. Era belo. E essa era a tragédia.
Taylor sabia que nunca desfrutaria aquela paisagem na aposentadoria.
E Armageddon... ah, Armageddon. Depois de três guerras, o planeta era um esgoto de orks e cultistas. Entrar ali seria como jogar gasolina numa fogueira.
A Inquisidora Chu tentou acalmá-lo:
— Desde que o Esmaga-Ossos foi derrotado e o Comissário Yarrick assumiu, não houve conflitos em larga escala...
Taylor soltou uma melodia dramática, como um ator de ópera:
~ Antes da tempestade... ~
~ Vem a calmaria! ~
A plateia riu. Talvez ele só quisesse animar o clima. Ou talvez... já tivesse enlouquecido de vez.
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