Em outras palavras, eles estavam perdidos.
Tyler suspirou e perguntou:
— Quanto ainda temos de combustível, água e comida?
Katie respondeu:
— Combustível para uns 300 quilômetros, mais ou menos.
— Desligar o ar-condicionado pode render uns 20 km a mais!
Tyler rebateu:
— Isso só vai nos matar mais rápido. A água é preciosa. E quanto temos?
A moça do grupo, que respondia pelo nome de Letlin, calculou:
— Uns 120 litros.
Tyler ficou pensativo.
Era o mínimo para o grupo durar uns três dias. Com racionamento, talvez uma semana, mesmo que a falta de água quente e café fosse o suficiente para enlouquecê-lo.
Pelo menos ainda tinham o Frankstein — o veículo era a única coisa que os mantinha em movimento, economizando energia. Mas só enquanto o combustível durasse.
Francamente, estavam liquidados. Perdidos num mundo desconhecido, sem rádio, pontos de referência ou bússolas — e seu maldito terminal de dados estava completamente vazio.
Ele só conseguiu murmurar:
— Pelo lado bom, não encontramos insetos. Malditos insetos, certo?
Enquanto falava, pegou o binóculo e espiou pelo visor, olhando para todos os lados, temendo encontrar inimigos.
Depois de um tempo sem ver nada, Tyler achou que talvez estivesse sendo paranóico demais. Deviam focar em sobreviver e, se possível, levar as informações até as forças do Império.
O veículo avançava sem rumo. Quem sabia o que os esperava?
E foi justamente quando teve esse pensamento que o Frankstein começou a despencar ladeira abaixo. Tyler gritou:
— Que porra é essa?!
Katie, em pânico, respondeu:
— Chefe, o mar de areia tem distorção visual! Tem um barranco enorme aqui, mas não dá pra ver direito, é tudo areia amarela!
Tyler percebeu rapidamente a gravidade da situação. O veículo descia a uma velocidade absurda, como se estivesse surfando em um oceano de areia.
A duna era íngreme demais para ser natural — algo a usava como cobertura.
Agora, uma tempestade de areia se erguia sob as esteiras, enquanto o motor rugia e os freios chiavam sem parar. O Frankstein descia a uma velocidade insana.
Tyler entendeu. Estavam mortos.
Depois de uma vida inteira de suposto heroísmo, ele ia morrer em um acidente de carro.
Mas, pela graça do Imperador, o veículo estava descendo uma inclinação imensa. Desde que não batessem em nada, estariam seguros.
E, considerando a vastidão daquele deserto, as chances de colidir eram quase nulas.
No entanto, conforme a velocidade aumentava, Tyler avistou algo à frente — algo escuro.
Quando seus olhos focaram, ele reconheceu as carapaças quitinosas de insetos gigantes, parecidos com projéteis vivos.
Era um acampamento de artilharia dos insetos. E seu veículo desgovernado estava indo direto para lá!
A maldita duna era o esconderijo deles.
Ele berrou:
— Minha querida Katie, VIRA!
Katie, suando frio, respondeu:
— Não dá, chefe!
A blusa dela estava colada na pele, enquanto o ar-condicionado soprava vento gelado no máximo.
Tyler fechou os olhos e rezou.
Por sorte, os insetos artilheiros — com mais de seis metros de altura e bocas de canhão de plasma — não os viram.
O Frankstein passou raspando por eles e, em vez disso, atingiu um inseto gigante de quase cinco metros.
Com um estrondo, a criatura bípede, armada com garras afiadas, foi esmagada em pedaços.
O veículo saltou no impacto, e o aríete frontal arrancou a cabeça quitinosa do monstro. Os olhos compostos do inseto ficaram encarando o vazio, sem entender a própria morte.
Era um dos comandantes da colmeia. E sua queda causou um efeito dominó — o enxame que vinha pressionando os T’au entrou em colapso.
Com os artilheiros de plasma fora de combate e a rede de comunicação dos insetos desativada, os T’au aproveitaram a brecha.
Centenas de trajes de batalha e veículos pesados avançaram.
E, vendo os T’au agindo, a Guarda Imperial também se moveu. Tudo isso em questão de minutos.
Tyler, que mal havia conseguido parar o Frankstein, tentava tirar a caveira do aríete quando viu os projéteis pesados e mísseis T’au explodirem no campo inimigo.
A cena era como um sol caindo — o calor intenso e o cheiro de insetos carbonizados encheram o ar.
Taylor balbuciou:
— Acho que a gente fez alguma coisa... importante?
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[Capítulo 38: Andarilhos da Morte — Parte 1]
A vontade da colmeia transformara as bestas em soldados. Com a morte do comandante, a selvageria voltou a controlá-las, e os insetos agiram apenas por instinto — tornando-se vulneráveis.
Alguns poderiam achar que bestas são mais perigosas que guerreiros. Mas não num campo de batalha.
Antes, um inseto com garras avançaria sem medo, até mesmo se sacrificando por um objetivo maior. Agora, não.
O maior impacto, porém, foi nos insetos guerreiros. Quando seus artilheiros de plasma — essenciais para conter os T’au — perderam o controle, eles entenderam imediatamente o que significava perder a artilharia.
Enquanto isso, Tyler estava no acampamento imperial, tomando seu velho e conhecido café rekka.
Mesmo insistindo que preferia um refrigerante doce, em guerra, o café amargo e cheio de cafeína era o melhor companheiro para noites sem dormir — especialmente quando os Tiranídeos caíam do céu.
Mas sua fama, já duvidosa, atingiu novos patamares quando ele voltou com a cabeça de um tirano.
Corria o boato de que o Tenente Tyler entregara a mensagem tranquilamente, matara um tirano de cinco metros no caminho, virou o jogo e obrigou os Tiranídeos a recuarem para o vácuo.
Ele queria desmentir. Mas percebeu que, no fundo, era exatamente isso que acontecera.
A mensagem fora entregue. O tirano fora morto. Se dissesse que foi só sorte, ninguém acreditaria — achariam que era falsa modéstia ou uma piada sem graça.
O Tirano do Enxame media impressionantes cinco metros de altura, todo revestido por uma carapaça quitinosa tão resistente que até um tiro direto do canhão principal de um tanque Rheinmetall dificilmente o impediria de continuar brandindo suas lâminas ósseas.
— Que tipo de "sorte" seria necessária para matar um monstro de guerra desses? — pensou Taylor.
As pessoas preferiam acreditar em "força" e "heróis". Alguns até imaginavam Taylor esquartejando lentamente a cabeça do Tirano indefeso com seu facão Catachan — afinal, muitos juraram ter visto "medo" nos traços da criatura.
O que era absurdo, já que insetóides não têm expressões faciais. E mesmo se tivessem, esse suposto medo levantava questões. Imagine um veículo gigantesco com lâminas afiadas voando em sua direção em velocidade sobrenatural. Sua mente processa o perigo, mas seu corpo não consegue reagir a tempo. Nesse limbo entre ação e paralisia, qualquer ser sentiria pavor.
Taylor duvidava que o medo fosse genuíno. Os Tiranos do Enxame eram imortais — suas consciências habitavam a Mente Coletiva, enquanto os corpos eram meros avatares descartáveis. Desde que houvesse biomassa, o Enxame podia fabricar novos Tiranos infinitamente. A única razão para recuar era quando o custo de conquista excedia os recursos do planeta.
O Devorador de Mundos não conhecia moral ou medo. Sua única equação era: investimento versus retorno. Taylor não conseguia imaginar exército algum resistindo a essa maré implacável.
Até que viu desembarcar da nave imperial um contingente de soldados mascarados marchando em perfeita sincronia. Dezenas de milhares de botas batendo no solo como um único organismo, fazendo o planeta tremer. Seus sobretudos cinza, armas de feixe e pás de trincheira penduradas na cintura lembravam soldados da Primeira Guerra de Terra Antiga — mas seus equipamentos modernos os colocavam firmemente no presente.
Eram os Death Korps de Krieg, a lendária infantaria pesada que trocava baixas massivas por poder de fogo brutal. Diferente de outras legiões estelares famosas por seus heróis — como o Comissário Cain de Valhalla ou o "Rambo" de Catachan — os Krieg não tinham figuras icônicas. Um oficial superior certa vez resumira:
— As ferramentas de guerra mais perfeitas do Império são os Krieg.
Nascidos em um mundo radioativo e tóxico, eram criados desde a infância para obedecer, matar e morrer. Toda a sociedade de Krieg existia para um propósito: produzir soldados. Até que o Imperador os dispensasse — o que nunca aconteceria, pois o Imperador estava silencioso. Sua existência se resumia a avançar, cavar trincheiras, vencer. Ou perecer.
Trinta mil Krieg desembarcaram para esta campanha. Taylor observou, fascinado, enquanto comiam rações de amido cadavérico com movimentos robóticos, mascando exatamente vinte vezes antes de engolir. Nunca vira humanos se alimentarem com tal sincronia militarizada.
— Vou lutar ao lado desses... monstros? — questionou-se.
"Monstros" era um termo gentil. Felizmente, os Krieg serviam ao Imperador — Taylor não queria tê-los como inimigos.
— Soldado! — uma voz feminina cortante interrompeu seus pensamentos.
Ao virar, Taylor deparou-se com uma comissária de sobretudo impecável. Seus reflexos de rato diante de um gato falaram mais alto que a cortesia:
— Eu... não estou sob seu comando, comissária. Não sou de Scadia ou de Vraks...
A loira, claramente uma graduada da Schola Progenium, ergueu uma sobrancelha:
— Nem eu. Sou da Death Korps.
— Então realmente existem?! — Taylor quase engasgou. — Comissárias Krieg! Achava que era lenda urbana!
CAPÍTULO 39: OS CAMINHANTES DA MORTE (PARTE 2)
Contra todas as expectativas, a comissária era surpreendentemente sociável — um contraste gritante com a frieza típica dos graduados da Schola. Explicou a disposição das tropas Krieg e, mesmo testemunhando Taylor espiando seus soldados como um voyeur, ofereceu uma aliança.
— O herói de Scadia seria bem-vindo em nossa linha de frente.
Taylor recusou antes mesmo de ela terminar a frase. Nenhuma glória valia um bilhete só de ida para a guerra. Ao ver o olhar decepcionado da comissária, entendeu: ela devia ser a peça diplomática dos Krieg — a única capaz de interagir com "pessoas normais".
É irônico como um fiscal da disciplina acabou sendo forçado a virar diplomata dos Aqua. Duvido que algum comissário político leal sonhasse em ser enviado para Krieg.
Taylor se despediu do coitado e começou a pensar em como aproveitar seus dias de folga. Olhou para a cabeça do tirano exposta na vitrine pelos soldados, mas franziu a testa.
Aquele era o troféu de guerra do 36º Regimento de Scadia. Para ser sincero, metade daquela coleção era obra do próprio Taylor.
[Nota do sistema: Aqua - tribo/cultura baseada em água no universo do jogo]
[Nota do sistema: Krieg - planeta-cidadela militar extremamente rigoroso]
http://portnovel.com/book/29/4075
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