Tradução pronta Shadov Slava / Shadow Slave: Capítulo 10

Quando decidiram parar, Sunny estava à beira do desmaio. Depois de horas e horas subindo a encosta íngreme da montanha, seu corpo quase não aguentava mais. Mas, para surpresa de todos, o Shifty parecia estar em estado ainda pior.

Os olhos do escravo trapaceiro estavam vidrados e sem foco, vagando sem rumo. Sua respiração era curta e ofegante, como se algo estivesse pressionando seus pulmões. Ele parecia febril e fora de si.

Assim que o Herói encontrou um local adequado para acampar, Shifty simplesmente desabou no chão. O mais assustador era a falta dos xingamentos raivosos a que todos já haviam se acostumado. O escravo permanecia imóvel e em silêncio, apenas o movimento do peito revelando que ainda estava vivo. Alguns instantes depois, com a mão trêmula, ele abriu o cantil e bebeu vários goles vorazes.

— Economize água — disse o Herói, com uma leve preocupação rompendo sua voz normalmente impassível.

Ignorando as palavras, Shifty continuou bebendo até esvaziar o cantil por completo.

O Sábio não parecia muito melhor. A escalada exaustiva tinha cobrado seu preço do escravo mais velho. Apesar do frio insuportável, ele estava suado, com os olhos injetados de sangue e uma expressão carregada.

Sunny, que era o mais fraco dos três, paradoxalmente tinha aguentado melhor o esforço.

— A gente não pode derreter a neve quando a água acabar? — perguntou Sunny.

O Herói olhou para o Sábio com uma expressão complexa.

— Pode chegar uma hora em que não poderemos fazer fogo, para não chamar atenção indesejada.

Ninguém comentou. Todos sabiam muito bem de quem estavam tentando se esconder. A lembrança do horror do Rei da Montanha ainda estava fresca em suas mentes.

Felizmente, naquele dia, o Herói tinha encontrado uma cavidade natural na parede da montanha, escondida atrás de um estreito penhasco. O fogo ficava bem oculto entre as rochas, permitindo que todos se aquecessem sem medo de serem vistos. Ninguém estava com vontade de conversar, então apenas assaram fatias de carne de boi sobre as chamas e comeram em silêncio.

Quando o céu já estava completamente escuro, Shifty e Scholar já dormiam, presos em seus próprios pesadelos. Hero pegou sua espada e se posicionou na borda do rochedo.

— Tente descansar também. Eu fico de vigia primeiro.

Sunny acenou com a cabeça e se deitou perto do fogo, exausto. Dormir dentro de um sonho era uma experiência nova para ele, mas, inesperadamente, acabou sendo algo bem comum. Assim que sua cabeça tocou o chão, sua consciência mergulhou na escuridão.

Depois do que pareceu apenas um segundo, alguém o acordou com um leve balanço. Atordoado e desorientado, Sunny piscou algumas vezes até perceber Hero inclinado sobre ele.

— Esses dois não pareciam muito bem, então é melhor dar mais tempo para se recuperarem. Não deixe o fogo apagar e nos acorde quando o sol começar a nascer. Ou se… se a besta aparecer.

Sunny se levantou em silêncio e trocou de lugar com Hero, que jogou mais alguns pedaços de lenha no fogo e logo adormeceu.

Por algumas horas, ele ficou sozinho.

O céu estava negro, com estrelas fracas e um fino crescente da lua nova. Mas sua luz não era suficiente para romper a escuridão que envolvia a montanha. Apenas os olhos de Sunny pareciam capazes de enxergar através dela.

Ele ficou sentado em silêncio, olhando para o caminho por onde haviam vindo. Apesar de terem subido bastante no dia anterior, ainda conseguia ver a faixa distante da estrada. Dava até para distinguir a plataforma de pedra onde haviam enfrentado o tirano.

Os pontinhos espalhados pelas pedras eram os corpos dos escravos mortos.

Enquanto observava, uma figura sombria surgiu lentamente na plataforma, rastejando de debaixo do penhasco. Ficou imóvel por um tempo e então avançou, arrastando suas garras pelo chão. Cada vez que uma garra encontrava um dos corpos, o tirano os agarrava e os levava à boca.

O vento trouxe até os ouvidos de Sunny os sons abafados de ossos sendo esmagados. Ele estremeceu, empurrando sem querer uma pequena pedra da borda. A pedra caiu, bateu na encosta e rolou montanha abaixo, fazendo com que outras pedras a seguissem.

O barulho das pedras caindo ecoou como um trovão na noite silenciosa.

Lá embaixo, o tirano virou a cabeça de repente, encarando diretamente Sunny.

Sunny congelou, petrificado. Estava com medo de fazer até o menor ruído. Por um tempo, até esqueceu de respirar. O tirano olhava fixamente para ele, sem fazer nada.

Segundos torturantes se passaram, cada um parecendo uma eternidade. Então, com calma, o tirano virou o rosto e continuou a devorar os escravos mortos, como se nem tivesse visto Sunny.

– Ele é cego – Sunny entendeu de repente.

Ele inspirou, observando o Rei da Montanha com os olhos arregalados. Era verdade. A criatura não podia ver.

Relembrando tudo o que acontecera antes, ficou cada vez mais certo de seu palpite. Aqueles olhos leitosos, sem expressão. Pensando bem, nunca vira o tirano movê-los. E quando Sunny empurrara o carrinho penhasco abaixo, o tirano só reagira depois que o carrinho começara a cair, raspando alto contra as pedras.

– Claro! Tudo faz sentido agora – pensou.

Ao amanhecer, Sunny acordou os outros. Hero esperara que uma noite inteira de descanso fizesse bem a Shifty e Scholar, mas suas esperanças se esvaíram. De algum modo, os dois escravos pareciam ainda pior que antes. Era como se a escalada do dia anterior tivesse exaurido Scholar demais.

Mas a condição de Shifty não podia ser explicada por simples cansaço. Ele estava mortalmente pálido e trêmulo, com os olhos semiconscientes e um olhar perdido no rosto.

– O que há de errado com ele? – perguntou Sunny.

Scholar, que também não estava nada bem, balançou a cabeça sem jeito.

– Pode ser o mal da montanha. Afeta cada pessoa de um jeito.

Sua voz soava rouca e fraca.

Shifty resmungou, irritado:

– Tô bem, seus merdas. Saiam da minha frente.

O Shifty mal conseguia formar frases completas, mas ainda insistia que estava bem.

O Hero franziu a testa e pegou a maior parte dos suprimentos que o escravo teimoso deveria carregar, adicionando-os à sua própria carga. Depois de hesitar um pouco, deu uma parte também para o Sunny.

— Aconteceu alguma coisa enquanto a gente dormia?

O Sunny encarou ele por alguns segundos.

— O monstro comeu os mortos.

O jovem soldado franziu ainda mais a testa.

— Como você sabe?

— Eu ouvi.

O Hero se aproximou da borda e olhou para baixo, tentando enxergar a plataforma de pedra lá embaixo. Depois de um minuto, cerrou os maxilares, mostrando incerteza pela primeira vez.

— Então vamos ter que andar mais rápido. Se o bicho já acabou com os cadáveres, vai vir atrás de nós. Precisamos achar aquele caminho antigo antes do anoitecer.

Assustados e desanimados, seguiram adiante, continuando a escalada. O Sunny estava morrendo aos poucos sob o peso da carga extra. Felizmente, o Shifty e o Scholar já tinham bebido a maior parte da água, aliviando um pouco.

Isso aqui é o inferno, ele pensou.

Eles subiam mais, e mais, e mais. O sol subia junto, lentamente se aproximando do zênite. Ninguém falava, não havia risadas, só respiração ofegante. Cada um dos quatro sobreviventes estava concentrado nos próprios passos, tentando não escorregar.

Mas o Shifty ficava cada vez mais para trás. Suas forças estavam acabando.

E então, em certo momento, o Sunny ouviu um grito desesperado. Virando-se, só teve tempo de ver um rosto em pânico. O Shifty caiu para trás, o pé escorregando em uma pedra coberta de gelo. Bateu com força no chão e rolou ladeira abaixo, ainda tentando se segurar em algo.

Mas já era tarde.

Paralisados e impotentes, eles só puderam assistir enquanto o corpo dele despencava pela encosta, deixando marcas de sangue nas pedras. A cada segundo, o Shifty parecia menos um homem e mais um boneco de pano.

Alguns instantes depois, ele finalmente parou, batendo no topo de uma grande pedra saliente, reduzido a um amontoado de carne esmagada.

O Shifty estava morto.

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