Tradução pronta Shadov Slava / Shadow Slave: Capítulo 3

Durante alguns minutos, Sunny ficou com o humor sombrio. Mas então ele se recompôs e respirou fundo, tentando aproveitar o ar puro. Realmente, um ar daqueles era difícil de achar no mundo real: micropoeira e outros poluentes deixavam tudo áspero e desagradável, sem falar no cheiro ruim típico dos subúrbios. Nas partes mais nobres da cidade, sistemas sofisticados de filtragem trabalhavam sem parar — só que o ar filtrado tinha gosto de coisa estéril e parada. Só os muito ricos tinham acesso a um ar realmente bom de respirar.

E ali estava ele, desfrutando de ar puro e delicioso à vontade, como um rico herdeiro de uma grande fortuna.

— Realmente, ser escolhido pelo Feitiço tem suas vantagens.

Se pelo menos não fizesse aquele frio de rachar, se os pés não doessem e se os pulsos e as costas não estivessem uma agonia!

A caravana de escravos subia a montanha devagar, com cada vez mais pessoas tropeçando e caindo no chão de vez em quando. Alguns que não conseguiam mais andar eram retirados da corrente e jogados sem cerimônia para fora da estrada, lá embaixo no abismo que se abria à esquerda. Sunny os via cair com um pouco de pena.

— Coitados. Descansem em paz, almas sofridas.

No geral, ele estava de bom humor.

Era um pouco estranho se sentir bem no meio daquele pesadelo, mas, felizmente, Sunny tinha tido tempo de se preparar para essa possibilidade. Quando os sintomas do Feitiço apareceram pela primeira vez, ele não lidou bem com a situação. Morrer antes mesmo de completar dezessete anos não era algo fácil de aceitar.

Mas, no fim, bastaram alguns dias para Sunny se conformar. Depois de visitar o descanso improvisado dos pais — na verdade, como ele era pobre demais até para comprar o túmulo mais barato no memorial, eram só duas linhas gravadas numa árvore velha — e de acrescentar uma terceira linha para si mesmo, ele de repente ficou despreocupado e leve.

Afinal, ele não precisava mais se preocupar em ganhar dinheiro, conseguir comida, se proteger ou planejar o futuro. Quando o pior que podia acontecer já havia acontecido, do que mais ele poderia ter medo?

Portanto, ser escravizado e congelar até a morte lentamente não foi um choque tão grande.

Além disso, ele sabia que o frio não iria matá-lo — simplesmente porque já tinha visto o destino que aguardava a caravana mais à frente na montanha. A imagem de ossos empilhados espalhados pelo chão ainda estava fresca em sua mente. Muito provavelmente, um bando de monstros seria responsável pelo fim daquela caravana... e, pelo que parecia, o ataque aconteceria em questão de horas, não dias.

Então ele ainda tinha uma chance.

Aproveitando a oportunidade, Sunny decidiu dar mais uma olhada em seu status e convocou as runas novamente. Da última vez, ele estava tão indignado com seu Aspecto que não estudara direito os Atributos. Embora não fossem tão importantes quanto o Aspecto, os Atributos muitas vezes eram o fator decisivo entre a vida e a morte. Eles representavam características e afinidades naturais, às vezes até fornecendo habilidades e efeitos passivos.

[Destinado] Descrição do Atributo: "Os fios do destino se enrolam firmemente em você. Eventos improváveis, bons e ruins, são atraídos por sua presença. Existem aqueles que são abençoados e aqueles que são amaldiçoados... mas raramente os dois ao mesmo tempo."

[Marca da Divindade] Descrição do Atributo: "Você carrega um leve aroma de divindade, como se alguém tivesse sido brevemente tocado por ela muito tempo atrás."

[Filho das Sombras] Descrição do Atributo: "As sombras reconhecem você como um dos seus."

– Hmm... interessante.

Sunny logo identificou o primeiro atributo, [Destinado], como o principal culpado por sua situação difícil. À primeira vista, parecia indicar que ele estava destinado a um certo fim — morrer miseravelmente e desaparecer sem deixar vestígios, por exemplo. Mas, após ler a descrição, percebeu que ser "destinado" na verdade significava apenas que coisas improváveis tinham mais chance de acontecer ao seu redor.

— Acho que foi assim que consegui um dos Aspectos mais raros e inúteis — e ainda por cima uma versão esquisita!

Se [Destino] era seu Atributo natural, os outros dois vinham do Aspecto [Escravo do Templo]. A [Marca da Divindade] era mais ou menos óbvia — devia permitir entrada em lugares sagrados do Reino dos Sonhos e fortalecer alguns tipos de magia. Como não havia nada sagrado por perto e o Aspecto de Sol não tinha nada a ver com magia, era inútil também.

Já o [Filho das Sombras] era mais estranho. Nunca tinha ouvido falar e não fazia ideia do que fazia — pelo menos até o sol se esconder atrás da montanha e o céu começar a escurecer. Para sua surpresa, Sol se viu enxergando perfeitamente no escuro, como se ainda fosse dia. Só essa habilidade já era algo, e era bem possível que as sombras lhe dessem outros presentes ainda desconhecidos.

— Finalmente algo bom. Será que...

— Alto aí! Montem acampamento!

Com a ordem do soldado-chefe, os escravos pararam e caíram no chão, tremendo de exaustão. A clareira onde a estrada alargava era um pouco protegida do vento por uma rocha saliente, mas ainda fazia frio demais para descansar.

Os soldados se apressaram a encurralar os escravos num círculo apertado, forçando-os a se aquecerem juntos, e acenderam uma grande fogueira no centro — depois, é claro, de cuidar dos cavalos. A carroça pesada, cheia de comida, água e outras provisões, e onde a corrente principal estava presa, foi empurrada para bloquear o vento. Enquanto olhava em volta, Sol notou o jovem soldado de antes encarando a montanha com uma expressão complicada.

— Que esquisitão.

Logo, a fogueira estava acesa. Os escravos mais fortes tentavam chegar perto do fogo, enquanto os mais fracos, como Sunny, eram obrigados a ficar na parte de fora do círculo, com as costas geladas pelo frio. Claro, qualquer movimento era dificultado pelos grilhões que ainda os prendiam à corrente. Por isso, o escravo corpulento e conhecido acabou exatamente no mesmo lugar, apesar de todos os seus esforços para se aproximar das chamas.

— Malditos imperiais! — resmungou, visivelmente irritado.

Os soldados circulavam entre os escravos, distribuindo água e comida. Sunny, como todo mundo, ganhou alguns goles de água gelada e um pedaço minúsculo de pão duro e mofado. Apesar do aspecto pouco apetitoso, ele forçou-se a comer tudo, só para continuar com a mesma fome de antes.

Pelo visto, não era o único.

O escravo esquivo que estivera atrás dele olhou em volta, angustiado.

— Por todos os deuses, até nas masmorras me alimentavam melhor!

Cuspiu no chão, desesperado.

— E a maioria de nós, homens inocentes, estava lá só esperando para visitar a forca também!

A poucos passos dali, onde a estrada pavimentada acabava e as pedras afiadas começavam, havia umas frutinhas vermelho-brilhantes brotando da neve. Sunny já as tinha notado antes, surgindo aqui e ali ao longo do caminho, e até achara bonito como aquelas coisinhas resistentes contrastavam com o branco. Os olhos do escravo esquivo brilharam enquanto ele tentava rastejar de quatro em direção às frutas.

— Eu aconselharia a não comer aquilo, amigo.

Era o escravo de voz suave de novo. Sunny se virou e finalmente o viu de perto pela primeira vez. Era um homem alto, na casa dos quarenta, magro e estranhamente bonito, com um ar digno de um erudito. Como um homem como ele tinha virado um escravo era um mistério. Mas lá estava ele.

— Você e seus conselhos de novo! O quê? Por quê?

O erudito sorriu, com um ar de desculpas.

— Essas frutinhas se chamam Perdição de Sangue. Elas crescem onde o sangue humano foi derramado. Por isso sempre tem um monte delas nos caminhos usados pelo comércio de escravos.

— E daí?

O homem mais velho suspirou.

— A Perdição de Sangue é venenosa. Algumas frutinhas bastam para matar um homem adulto.

— Droga!

O escravo de olhos desconfiados recuou e fulminou o estudioso com o olhar.

Sunny mal prestou atenção neles.

Enquanto olhava ao redor, finalmente reconheceu o local do acampamento - era exatamente o mesmo lugar da sua visão, no começo do Pesadelo, onde os ossos dos escravos estavam enterrados sob a neve. E ele apostaria que, seja lá o que tivesse matado todos eles, aconteceria muito em breve.

Como se respondesse a seus pensamentos, um estrondo ensurdecedor ecoou lá de cima.

E no segundo seguinte, algo gigantesco despencou do céu...

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