Os Devoradores têm um apetite voraz, especialmente durante a época de reprodução. Um único Devorador poderia devorar cem casas — se não fosse a intervenção do infectado de terceiro nível, Xiao Huo, e da Jenny Huo, com sua habilidade de acalmar emoções, a cidadezinha teria sido dizimada esta noite.
— Não precisamos nos preocupar com o Devorador — disse Huo Zhaohui enquanto armazenava os vídeos em um chip. — Ele vai embora antes do amanhecer. Depois que ele partir, queimamos os ovos. Essa cidade já está bem segura, na verdade. Foi só hoje, durante o caos, que apareceu um Devorador. No geral, quase não se vê Zumbis Esqueléticos por aqui.
O sol finalmente nasceu.
Huo Ying libertou Liang Yao do porão. Depois de avisá-la para não abrir a caixa de madeira, ele guardou a caixa com as Sombras Cinzentas no subsolo e saiu em busca de Wang Haisheng.
No caminho, passou pelo Centro Cívico, onde havia deixado a múmia. Aproveitando que o cadáver envolto em bandagens ainda prendia uma das Sombras, Huo Ying usou sua técnica de madeira para aprisionar todas as Sombras acumuladas em uma única caixa.
— Quantos Zumbis Esqueléticos ainda restam nessa cidade?
Ele fez as contas: cerca de quarenta nas duas caixas, vinte eliminados no Mundo do Espelho, mais alguns outros abatidos esporadicamente. No total, ele mesmo havia liquidado setenta criaturas — e sem chance de ressuscitarem.
— Está cada vez mais difícil encontrar Zumbis. Será que eu os exterminei todos?
Não sabia se isso era bom ou ruim. Sem os Zumbis, a cidade ficaria mais segura e os moradores teriam maior chance de sobrevivência. Se as pessoas percebessem o sumiço das criaturas, talvez até voltassem a povoar o local, revitalizando a vila.
Mas sem os Zumbis, ele perderia sua fonte de progresso. Os monstros da fábrica e o verme gigante de ontem estavam fora de cogitação — mexer com eles seria loucura. Se dependesse apenas da espera, sua Árvore Divina levaria mais oitenta dias para evoluir.
— Quem sabe como serão os próximos dias...
Huo Ying olhou para o sol. O levante dos Zumbis parecia ter marcado um divisor de águas. Depois de ontem, o verão acabara. O calor do sol diminuíra, e o amanhecer demorava mais.
Ao chegar no local onde mantinha as aranhas infectadas, viu que elas, incapazes de escapar do cômodo selado por sua técnica, haviam começado a lutar entre si. Através das frestas, percebeu que os casulos se romperam, mas o número de aranhas diminuíra pela metade.
— Errei nos cálculos. Essas criaturas não se reproduzem tão fácil. E por ficarem confinadas, muitas morreram...
Felizmente, o progresso gerado pelas aranhas era mínimo — dez vezes menor que o das Sombras Cinzentas. Ele não ficou chateado, mas também não queria desperdiçar. Empunhando a Lâmina Solar, adentrou o local e acabou com cada uma delas.
Seguindo adiante, chegou ao Centro Cívico, agora em ruínas. A família Huo — Zhaohui, Xiao Huo e Jenny — remexia nos escombros, procurando algo.
— Você! — exclamou Zhaohui ao avistá-lo. — Que coincidência! Precisamos da sua ajuda.
— Use seu braço mecânico para ajudar a remover essas pedras. Precisamos encontrar e destruir os ovos do Devorador, ou em alguns dias teremos mais dessas criaturas por aqui.
Ele explicou o que eram os Devoradores, já dando ordens como se fosse natural.
[Destruir os ovos aumentaria meu progresso?]
Huo Ying arquivou a informação, mas não poupou Zhaohui de seu olhar gélido. O braço mecânico fora obtido em troca de carvão vegetal, e a energia dele dependia dos correios. Mesmo com suprimento infinito de ambos, ele detestava ser comandado.
Além disso, com sua técnica de terra, poderia adentrar os escombros sozinho — sem necessidade de remover os destroços.
Sem responder, Huo Ying passou por Zhaohui com frieza.
— Esse sujeito não tem noção do perigo! — resmungou Zhaohui, irritado. — Quando os ovos eclodirem, ele acha que vai escapar ileso?
Enquanto Huo Ying sumia na esquina, Xiao Huo, ainda catando entulho, perguntou:
— Será que esse sujeito tem ligação com o infectado de terceiro nível? De onde ele tirou tanto carvão? Conseguindo braço mecânico e lâmina solar...
No capítulo 62, "Método de Uso", Zhaohui balançou a cabeça com desdém.
— Na minha opinião, por mais assustadora que seja a aparência dele, no fundo não passa de um caipira sem visão.
— Primeiro: ele desmontou o braço direito da própria armadura por um braço mecânico comum. Isso mostra que sua armadura, por mais impressionante que pareça, é inferior até à tecnologia civil — só serve para impressionar os aldeões ignorantes.
— Segundo: quando chegamos a Ailing, encontramos carvão em abundância no Centro Cívico. Ele ter um pouco não é nada especial.
— Terceiro: até um idiota sabe o valor do carvão no apocalipse. Entre carvão (que protege da escuridão) e um braço mecânico (com energia limitada), qual você escolheria? Ele preferiu o braço inútil, provando que é inseguro e quer aumentar seu poder rápido.
— Um infectado de terceiro nível, mesmo discreto, está anos-luz à frente de um comum. Se ele tivesse contato com um, acharia um braço mecânico impressionante? Se tivesse a proteção de um, será que estaria tão desesperado por segurança?
Xiao Huo e Jenny concordaram. A análise de Zhaohui fazia sentido.
— Agora entendo por que a organização enviou um pesquisador não combatente — disse Xiao Huo. — Conseguir deduzir tudo isso a partir de detalhes... Com você, identificar o infectado será fácil.
Zhaohui sorriu, lisonjeado.
— Eu só ajudo. O sucesso da missão depende de vocês dois. — Mesmo sendo modesto, não resistiu a olhar para onde Huo Ying desaparecera. — Estou curioso: quando encontrarmos o infectado e o levarmos de volta a XN City, será que ele vai se arrepender de poupar a energia de um braço mecânico tosco e perder a chance de ganhar nossa gratidão?
Xiao Huo deu de ombros. Percebia o orgulho de Zhaohui — o pesquisador só o tratava com respeito por ser um infectado de terceiro nível. No fundo, Zhaohui o desprezava, considerando-o um sortudo que tivera a sorte de evoluir.
O pequeno Huo Huo não se importava. Era o fim dos tempos, e sorte era o que mais importava. Mesmo quem fosse inteligente e estudioso o suficiente para entrar no Instituto de Pesquisa não valeria tanto quanto um infectado de terceiro nível.
Huo Huo olhou de longe para Huo Ying e sentiu um aperto no coração. Aquele boneco de madeira também era azarado. Por ter humilhado o orgulhoso Huo Zhaohui, quando a missão terminasse, o Instituto certamente levaria alguns moradores de volta à cidade para investigar o passado da vila e recriar o ambiente que produziu o infectado de terceiro nível. Huo Ying com certeza não estaria na lista e ficaria preso na vila, enfrentando os perigos com uma população cada vez menor.
Sem saber que já havia criado inimigos, Huo Ying chegou à área indicada por Wang Haisheng e ficou com dor de cabeça ao ver as casas todas juntas.
Diferente de onde ele morava, as casas ali eram pequenas e próximas umas das outras, mais parecendo um conjunto habitacional.
Depois de invadir várias casas vazias, Huo Ying percebeu que, se continuasse assim, levaria dias para encontrar Wang Haisheng.
Pensando melhor, ele parou no meio da rua, respirou fundo e gritou:
— Wang Haisheng, cadê você?
— Aqui! — Esquerda! — Olha aqui! — Atrás de você!
Várias vozes responderam de diferentes direções, todas imitando Wang Haisheng e vindas de casas escuras, longe da luz do sol.
Huo Ying sorriu e escolheu a mais próxima.
— Wang Haisheng, é você? — Ele parou na porta, hesitante.
— Sou eu, entra logo, estava te esperando! — Dentro da casa, o cadáver maligno imitava Wang Haisheng, ansioso.
— Mas espera... — Huo Ying fingiu dúvida, sem entrar na escuridão. — Sua casa antes era...
Ele cortou a frase de propósito.
— Ah, era lá no fundo, maior que essa. Mas com a revolta dos cadáveres, achei mais seguro vir pra cá. Entra logo! — O cadáver maligno respondeu sem pensar.
Huo Ying sorriu. Os cadáveres malignos eram bons em imitar, e ele apostou que eles deviam ter visto Wang Haisheng por ali.
Na última vez, quando Zhang Yuqi fugiu de caminhonete, os cadáveres haviam imitado o motor. Agora, Huo Ying os fez descrever a casa de Wang Haisheng.
— No fundo da rua, maior... — Ele ainda precisava de mais informações.
Ele sacou a lâmina yang.
— Tá bom, é você mesmo. Vou entrar.
— Vem, vem! Preparei comida pra gente! — A voz do cadáver soou triunfante, achando que Huo Ying havia caído na armadilha.
No instante seguinte, Huo Ying entrou na sombra e abriu a porta sorrindo.
O cadáver maligno mostrou sua forma verdadeira e atacou com garras afiadas.
Mas seu sorriso desapareceu quando percebeu que nada funcionava contra Huo Ying.
A lâmina yang cortou o cadáver ao meio, e o selo de madeira aprisionou a sombra cinza antes que fugisse, transformando-se em uma caixinha do tamanho de um copo.
— Ótimo, menos cadáveres, caixas menores.
Huo Ying guardou a caixa e voltou para o meio da rua.
— Wang Haisheng, cadê você?
— Aqui! — Olha aqui! — Atrás!
Ele escolheu a voz mais convincente e repetiu o processo.
— Espera, sua casa não era lá no fundo, maior, com uma cerca na frente...? — Ele ficou na linha entre luz e sombra, fingindo hesitar.
— Isso, isso! — O cadáver dentro concordou rápido. — Tinha uma cerca, mas achei que chamaria atenção dos cadáveres malignos, então vim pra cá.
— Faz sentido. Então vou entrar. — Huo Ying sorriu, montando o quebra-cabeça da casa verdadeira.
— Vem logo, a porta tá aberta! — O cadáver mal podia esperar.
Huo Ying entrou e saiu com outra caixinha.
Para garantir, ele repetiu o processo até não ouvir mais respostas, coletando quatro caixas no total.
Com as informações completas, ele foi até a casa verdadeira de Wang Haisheng, no fundo da rua, grande e com cerca.
A porta estava trancada, e dentro, um silêncio mortal.
— Wang Haisheng?
Nenhuma resposta.
Huo Ying franziu a testa, sacou a lâmina yang e forçou a porta com um selo de madeira.
Dentro, a casa era simples: uma cama, uma mesa e um esqueleto limpo, como se tivesse sido lambido.
Na mesa, uma vela de madeira de álamo, quase nova, apagada recentemente. No chão, uma pedrinha — a mesma que Wang Haisheng usara para escrever no penhasco.
— Não virou cadáver maligno... A vela apagou. Então foi consumido pela névoa e pelos insetos negros.
Huo Ying revirou o lugar, desconfiado. Alguém que sobreviveu anos na vila não morreria tão fácil, ainda mais depois de entrar em contato com ele.
A pergunta era: quem matou Wang Haisheng?
A porta do quarto de Wang Haisheng estava bem trancada, sem sinais de arrombamento. O local era simples, claramente habitado por apenas uma pessoa. Se Wang Haisheng tivesse morrido durante o dia, como a vela de cera teria sido acesa? Quem a teria acendido, assassinado Wang Haisheng e depois apagado a vela?
Se ele tivesse morrido à noite e depois sido devorado pelos insetos até virar um esqueleto, quem seria capaz de agir no escuro, matá-lo e ainda sair ileso? Se o assassino fosse tão poderoso, por que se preocuparia em apagar a vela e deixar os insetos acabarem com o corpo?
Huo Ying sentou-se na cadeira, os dedos batendo levemente na mesa.
Usar insetos para devorar Wang Haisheng provava que o assassino não era tão forte — alguém poderoso não precisaria de tanta complicação para matar. Assim como o próprio Huo Ying, se quisesse eliminar um cadáver amaldiçoado, bastaria entrar e desferir golpes. Nada disso faria sentido.
Ele revistou o quarto novamente. As paredes eram sólidas, e a janela estava bem fechada com madeira e pregos, deixando apenas pequenas frestas, sem sinais de violação.
Depois de observar por um bom tempo, seu olhar parou nos pregos. Então, virou-se para o esqueleto de Wang Haisheng.
— Antes de morrer, ele deve ter percebido algo. Os insetos não o devorariam instantaneamente... Será que ele deixou alguma pista para mim?
Huo Ying examinou o esqueleto com atenção até notar algo: a cabeça do cadáver estava erguida, como se olhasse para cima.
— A dor faz a gente se encolher... Mas ele está com a cabeça levantada. Isso deve ser uma mensagem.
Seguindo a direção do olhar do esqueleto, Huo Ying encontrou uma parede vazia, exceto por um calendário velho pendurado.
O calendário não era do ano atual, mas Wang Haisheng o usava como se fosse.
Huo Ying folheou cada página, mas não havia nada escondido entre elas, nem nenhuma anotação.
Fechando os olhos, ele massageou a testa e começou a examinar tudo de novo.
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