Liang Yao sorriu e disse:
— Antes de dormir, ainda preciso me lavar. Vou te ajudar a se limpar e depois vou dormir.
Ela pegou a mão de Huo Ying e apoiou o rosto na beirada da cama dele. Huo Ying fechou os olhos. Ele poderia muito bem consertar a casa de Liang Yao e mandá-la embora. Mas, se fizesse isso, perderia a chance de testar Zhang Yuqi e a Irmã Bai.
Além disso, Liang Yao tinha outra utilidade.
— Isso aqui é o fim do mundo.
Huo Ying suspirou mentalmente. Conforme ele fosse ficando mais forte, mais cedo ou mais tarde alguém perceberia suas habilidades. Se ele estivesse sozinho, os inimigos tentariam encontrar seu ponto fraco. Mas e se ele criasse uma vulnerabilidade de propósito? Os inimigos atacariam justamente onde ele quisesse.
A noite estava quieta. Dentro de casa, só se ouvia o crepitar da fogueira. Lá fora, a névoa negra era afastada pelo brilho do fogo, e nenhum cadáver demoníaco se aproximava.
No dia seguinte, Huo Ying acordou com o cheiro do mingau cozinhando. Liang Yao tinha acordado mais cedo e aproveitado as brasas da fogueira para preparar a refeição. Ele ficou alguns segundos olhando para o teto antes de se levantar. Depois do café da manhã, saiu de casa.
Andou até uma rua distante, ativou sua armadura de madeira e invadiu uma casa vazia. Sem encontrar monstros ou cadáveres, trancou a porta e colocou as mãos no chão. Usando sua habilidade de terra, criou um porão secreto.
Foi só o primeiro passo. Ele continuou cavando túneis subterrâneos, conectando-os ao porão de sua própria casa. Em duas horas, a obra estava pronta, sem que Liang Yao, lá em cima, percebesse nada.
Huo Ying reforçou o porão e criou armadilhas falsas. Se alguém invadisse sua casa, encontraria apenas o primeiro nível, sem suspeitar da passagem secreta.
— Agora sim, bem mais seguro.
O porão estava sem ar. Ele voltou para a superfície e usou sua energia para criar árvores de Hu Yang, transformando-as em carvão com relâmpagos. Depois, carregou tudo pelo túnel de volta para casa. O trabalho era pesado, mas ele encarou como treino, usando os raios para estimular suas células e tentar ficar mais forte.
Por três dias, sua rotina foi cheia: produzir carvão de manhã, purificar água ao meio-dia, verificar se o entregador tinha vindo e, à noite, deixar Liang Yao purificar seu corpo antes de dormir.
De vez em quando, encontrava monstros e cadáveres. Os monstros ele matava; os cadáveres, trancava em jaulas de madeira e jogava na casa onde os armazenava.
Desde que selara o monstro da fábrica no espelho, a marca em sua palma tinha sumido. Mesmo assim, ele não arriscava matar os cadáveres. Se a marca voltasse, o monstro poderia escapar. Ele preferia acumular cadáveres até a Árvore Divina evoluir. Assim, se o monstro aparecesse, ele estaria pronto para lutar.
[Progresso: 5,3%]
O progresso da Árvore estava lento, mas Huo Ying não se preocupou. Como sempre, foi até a estrada. Dessa vez, ouviu o ronco de um motor.
O entregador tinha chegado. Mas não era uma van de entregas — era um ônibus amarelo.
O motorista, vestindo um uniforme com os dizeres "ENTREGADOR", desceu primeiro. Atrás dele, sete pessoas saíram do veículo: três famílias, todas com expressões preocupadas. Um pai e filho, um casal e uma família com dois adultos e uma menina de uns oito anos.
— Esperem aqui, logo mais gente chega — o entregador anunciou pelo megafone, que emitiu um alarme estridente.
Huo Ying voltou para casa, chamou Liang Yao e, na frente dela, abriu o porão. Pegou quatro caixas de carvão com uma vara de carregar.
— Você leva essas duas menores. Vamos trocar por suprimentos.
Liang Yao ficou surpresa com tanto carvão, mas não perguntou nada — só sorriu, feliz por ter recursos em abundância.
Quando chegaram de volta ao entregador, mais gente já estava na estrada. Entre os conhecidos, estavam Hou Ping, Elsa e Luna. Dois homens maltrapilhos também apareceram, cada um por conta própria.
— Só tem essa gente no vilarejo? — o entregador perguntou, surpreso. Seu olhar pousou em Huo Ying. — Belo capacete. Qual seu nome? Já se registrou? Nunca te vi antes.
Huo Ying não respondeu. O entregador levantou as mãos.
— Relaxa, não sou da equipe de investigação. Ignora o que eu disse.
Ele apontou para as famílias atrás dele.
— Esses são sobreviventes de outras cidades destruídas. A equipe os resgatou. Como ouviram que aqui tem minas de Yang Stone, decidiram ficar em vez de ir para XN City. Quem sobreviveu até agora não é qualquer um. Espero que todos cooperem.
— Isso aí foi o discurso oficial — o entregador esfregou as mãos, animado. — Mas agora vem a parte boa. Trouxe um monte de coisas úteis... Só que, bem, os preços subiram um pouco.
Capítulo 50: Braço Mecânico
— De novo aumentando os preços! — alguém reclamou.
Um homem desleixado resmungou algo, mas não tirou os olhos do casal.
Para ser mais exato, seus olhos estavam grudados na mulher de pele clara do casal.
O homem do casal revidou com um olhar furioso, mas a mulher hesitou e se adiantou:
— Eu sou a He Lili, este é meu marido, Wang Qunwei. Eu sou boa com costura. Se não tiver agulha e linha, podemos colher fibras na vila. Sempre trocamos roupas remendadas e vestes de fibra por suprimentos com os entregadores. Nós dois somos úteis.
A mulher olhou de relance para o homem desleixado e continuou:
— Meu marido é pedreiro, sabe consertar casas. Nenhum de nós está infectado. Chegamos agora e, se alguém puder nos abrigar, faremos de tudo para ajudar nos trabalhos de apoio.
O homem desleixado, de olhos cheios de cobiça, se animou na hora:
— Eu sou infectado, posso protegê-los. Minha casa tem dois andares, pode perguntar ao entregador. Eu sou forte, viu?
O entregador fez cara de nojo, mas confirmou com a cabeça:
— Hu Caigen tem músculos reforçados, é um infectado de combate. Mas não sei se ele vai proteger homens...
Ele tentou dar uma dica sutil.
He Lili encolheu os ombros e respondeu firme:
— Então não pode ser. Eu e meu marido não nos separamos.
— Quem disse? No fim dos tempos, é cooperação! Quanto mais gente, melhor! — Hu Caigen negou rapidamente, os olhos brilhando enquanto encarava He Lili. Ele se aproximou, agarrou a mão dela e a do marido, puxando os dois para perto de si. — Vocês vão morar na minha casa agora. Eu protejo vocês.
Wang Qunwei tentou se soltar, mas a mão de Hu Caigen era como uma tenaz. He Lili o acalmou:
— Querido, lembra o que você me prometeu? Temos que sobreviver juntos.
Ao ouvir isso, Wang Qunwei baixou a cabeça e parou de resistir.
Hu Caigen não esperava que He Lili fosse tão "compreensiva". Ele apertou discretamente a mão dela antes de olhar para Elsa e Luna:
— Minha casa ainda cabe mais duas. Querem vir?
Elsa encarou Hu Caigen com frieza. Ele sentiu um calafrio e recuou instintivamente, percebendo que ela também era uma infectada. Resmungando, ele virou-se para o entregador:
— Troca tudo por comida e água.
Jogou uma sacola pesada de pedras solares no colo do entregador.
O entregador olhou surpreso para He Lili antes de fazer a troca. Assim que pegou os mantimentos, Hu Caigen arrastou He Lili para longe, com Wang Qunwei seguindo para trás, cheio de raiva.
Outro homem desleixado esperou Hu Caigen ir embora antes de se aproximar do entregador.
— A vila está cada vez mais caótica. No outro dia apareceram exilados, e hoje chegaram tantos novatos... — Ele colocou um pacote de pedras solares na mesa. — Você trouxe gente. Pode levar alguém embora? Quanto custa para ir até XN?
— Wang Haisheng, se XN fosse fácil assim, eles estariam aqui? — O entregador apontou para os recém-chegados. — Sua habilidade é inútil. Não atende ao padrão de absorção de XN. Se quiser entrar, só assinando contrato para construir muralhas.
Wang Haisheng franziu a testa e suspirou. Sua habilidade estava na língua — papilas gustativas reforçadas. Inútil no apocalipse.
— Três anos de trabalho? Para um normal até vale, pode virar infectado com as pedras. Mas eu já sou infectado, só vou piorar...
— Deixa pra lá. Me dá água e comida. E o que era esse "produto especial"?
O entregador olhou ao redor antes de voltar ao ônibus e trazer uma mala com cadeado.
Ao abri-la, revelou um braço mecânico.
— Braço mecânico civil, bateria cheia, dura 24 horas. — Ele explicou. — Mesmo sendo civil, é do Instituto de Pesquisa. Usa na mão direita e ganha 500 quilos de força.
— Só troco por pedras solares, carvão ou algo de valor. — O entregador limpou a garganta. — Ah, e dá pra recarregar. É só me devolver que levo para XN. Cada recarga custa 50 quilos de pedras ou carvão.
— Vai começar a época de ataques dos zumbis. Meia tonelada de força é quase igual a um infectado de força pura, e dura 24 horas seguidas! Um normal com isso segura um portão a noite toda!
— Quanto custa? — Luna pareceu interessada.
— 250 quilos de pedras ou carvão. Preço baixo, é um investimento duradouro.
Luna ficou em silêncio. Não tinha nenhum dos dois.
Huo Ying pensou e tirou um inibidor que escondia no peito.
Nunca soube se era real e não ousou usar.
— Posso trocar por isso?
O entregador arregalou os olhos:
— Onde conseguiu isso?
Inibidores eram raros até em XN, só para a elite da Sociedade do Barco. Protegiam autoridades e cientistas, com produção mínima.
— Dá... mas não é o suficiente. — O entregador se explicou rápido. — Inibidor é caro, mas se eu levar, vai dar problema. Autoridades já têm acesso. Normais querem virar infectados. Só um infectado trocaria isso para proteger um familiar, mas esses compradores são raros.
— Quanto falta?
O entregador olhou para as caixas de carvão de Huo Ying.
— Mais quatro caixas de carvão. Já que vai trocar, quer mais algo? Se for barato, eu consigo.
Ele esfregou as mãos. Carvão e pedras eram o verdadeiro dinheiro — dava até para desviar um pouco. Só com o inibidor, ele não ganhava nada.
— Certo. — Huo Ying não ousava usar os inibidores. Era melhor trocá-los pelo braço mecânico. Além disso, o braço só estava barato porque precisava ser recarregado, e com seu domínio sobre o Raio Celeste, ele não precisaria gastar com isso depois.
A única desvantagem de Huo Ying era a falta de poder de ataque. Mesmo com o reforço da Árvore Divina, sua força não chegava a mil jin. Com o braço mecânico, porém, ele poderia se tornar muito mais forte rapidamente.
— O resto eu quero trocar por plantas de abrigos e alguns vegetais frescos. Sei que são caros, não precisa ser muito, um de cada já está bom.
Ao ouvir as palavras de Huo Ying, os olhos de Lúcia brilharam instantaneamente. O entregador coçou a cabeça, desconcertado:
— Você quer usar o braço mecânico pra construir um abrigo e depois pra plantar, é isso? Amigo, sua ideia é meio ambiciosa... A energia não vai dar pra tudo não...
Capítulo 51 — Contaminação
O entregador continuou:
— Vegetais e plantas de abrigo eu não trouxe hoje. Se quiser mesmo trocar, posso trazer na próxima. Mas sugiro que você pegue comida pra aguentar a revolta dos cadáveres malignos.
— Em Vila Colina Baixa tem uma biblioteca. Depois do caos, você pode dar uma olhada lá. Melhor do que gastar carvão à toa. E vegetais? Nem vale a pena. Troca tudo por batata. Sério, tô pensando no seu bem, reflita direito.
Huo Ying franziu a testa. O entregador não tinha nada do que ele queria. Lembrando do espírito do espelho selado em uma caixa de madeira em casa, ele perguntou:
— E informações sobre entidades malignas, você tem?
— Isso eu tenho! — O entregador puxou rapidamente uma pilha grossa de papéis do ônibus. — Isso aqui é o que nossa organização de entregas distribui pra todos os mensageiros. A gente paga uma taxa pra receber. Tem registros de entidades malignas em XN e dicas de outros entregadores. Eu até anotei uns métodos pra lidar com algumas específicas, mas não dá pra confiar cegamente, ouvi só de boca em boca.
— Beleza, fico com isso. Na próxima, me traz uns vegetais de complemento. — Huo Ying decidiu tentar a sorte na biblioteca, mas não abriu mão dos vegetais.
O entregador assentiu:
— Feito. Mas vai demorar um pouco. XN tá cheia de cadáveres malignos também, e o caos lá tá durando bem mais que aqui. Não tão perigosos, mas por enquanto não dá pra retomar as entregas.
— Boa sorte! — Ele bateu na armadura de madeira de Huo Ying. — Até a próxima.
Huo Ying pegou o braço mecânico, mas não o vestiu — com a armadura, era complicado tirar na hora.
Lúcia, vendo que ele ia embora, correu para trocar rapidamente alguns mantimentos com o entregador e então interceptou Huo Ying e Lián Yáo.
— Espera! — Ela olhou para Lián Yáo, os olhos ardendo de interesse. — Você disse que queria vegetais, né?
Se Huo Ying não tivesse terra que acelerasse o crescimento das plantas, jamais teria tanto carvão, muito menos condições de sustentar uma mulher.
No dia da assembleia no pátio, Lúcia já havia notado que os álamos eram novos. Agora, ele vendia carvão de álamo em grande quantidade. Além disso, após o acordo entre Huo Ying e Lián Yáo naquele dia, os dois estavam sempre juntos e ainda queriam comprar vegetais. Tudo indicava que Huo Ying tinha um terreno fértil e colhia recursos em massa.
— Eu tenho sementes de vegetais em casa, todas modificadas. Se plantar, o resultado vai ser muito melhor que os vegetais que você compraria do entregador.
Huo Ying ficou curioso:
— Da última vez você também veio me procurar pra negociar. Por que não planta sozinha?
— Você trocou um braço mecânico e ainda quer comprar vegetais. Não é pra plantar? — Lúcia explicou: — A gente até planta, mas só em vasos dentro de casa. As sementes não acabam, por isso quero negociar.
— Que tipo de sementes você tem?
— Se for plantar lá fora, tem cenoura e topinambur — esses não são devorados pela névoa negra nem pelos insetos. Se for dentro de casa, eu tenho cebolinha, alho, pimenta... coisas fáceis de cuidar. — Ela citou de propósito temperos. No fim dos tempos, tudo era insosso, e esses ingredientes eram um tesouro cobiçado.
Lián Yáo, ao lado de Huo Ying, engoliu saliva sem perceber.
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