A arma não estava apontada para Huo Ying, mas sim para o saguão do centro cívico.
— Isso aqui é uma bala incendiária. Boa sorte.
Bang.
Um projétil flamejante foi disparado. A mulher soprou a fumaça do cano da arma e, como se atravessasse para outro mundo, saiu calmamente pelo portão.
— Coordenadas e oferendas.
Assim que ela partiu, aquele mundo distorcido diante de Huo Ying se dissolveu. O verdadeiro centro cívico agora estava em chamas. Se ele não saísse rápido, o lugar viraria cinzas — e, se isso acontecesse, ninguém mais entraria ali, e Huo Ying jamais conseguiria as coordenadas que procurava.
Sem medo, ele ergueu os olhos para o espelho enorme à sua frente.
— Espírito do Espelho, espero que você seja útil e não um fracote.
Ao dizer isso, Huo Ying colocou as mãos no chão. Jutsu de Madeira: Floresta de Árvores.
Metade de seu chakra foi consumido de uma vez. O piso do mundo espelhado rachou, e árvores brotaram violentamente, preenchendo o saguão em segundos. De cima, parecia uma pequena floresta.
Assim que as árvores pararam de crescer, galhos e folhas começaram a se espalhar, subindo as escadas e envolvendo o segundo e terceiro andares. Ramos se transformaram em braços, recolhendo os cadáveres mumificados espalhados pelo chão e jogando-os dentro do arquivo, onde as paredes já estavam negras de fuligem.
Usando Jutsu de Relâmpago para acender as chamas, Huo Ying incinerou os restantes.
Mesmo sendo apenas fragmentos do mundo espelhado, as sombras cinzentas eram quase vinte. Em instantes, o arquivo virou um inferno, com as criaturas se contorcendo no fogo antes de serem consumidas.
Rugido!
O som ecoou na mente de Huo Ying. Matar tantas sombras fez o monstro da fábrica encontrá-lo novamente.
A marca em sua palma mudou — presas afiadas surgiram, depois órbitas oculares. Algo se agitava dentro, como um globo ocular rodopiando sob a pálpebra.
E então, a pálpebra se abriu.
Uma pupila surgiu em sua mão.
Encontrei você!
O rugido ecoou em seus ouvidos.
A pedra solar em seu peito estilhaçou-se, e o saguão escureceu. Névoa negra invadiu pelo portão aberto.
Jutsu de Relâmpago: Chamas do Trovão!
Gastando seu chakra restante, Huo Ying incendiou a floresta de árvores no saguão. As chamas, carregadas de energia solar, fizeram a névoa se contorcer, gotas de líquido escuro escorrendo dela.
Rugido!
O grito horrendo explodiu em sua mente, e mesmo com sua resistência fortalecida, Huo Ying quase desmaiou.
Mas o som foi interrompido no meio, como se algo o tivesse cortado.
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Capítulo 46: Selamento
A névoa negra avançou, tentando agarrar Huo Ying.
Mas suas garras etéreas passaram por ele, sendo enredadas pelas árvores em chamas.
A névoa hesitou, confusa. Como podia tocar Huo Ying sem machucá-lo?
Huo Ying recuou um passo, observando o ambiente.
O balcão, cadeiras, piso — tudo de madeira estava queimando. Chamas vermelhas e fumaça cinzenta engoliam o centro cívico.
— Como eu pensei… o Espírito do Espelho não raciocina.
Ele correu para a saída. Lá fora, o sol queimava, iluminando escadas, o chão e até o chafariz. Tudo parecido real.
— Finalmente, saí.
Parado ao lado do chafariz, Huo Ying olhou para o prédio em chamas.
Quando a mulher usou o próprio braço como oferenda para escapar, ele começou a suspeitar: o Espírito do Espelho, ao contrário das sombras, não tinha consciência.
Senão, jamais permitiria que eles trocassem bilhetes, nem aceitaria um braço como preço para libertar alguém.
Por isso, ele apostou que criaturas vivas também podiam ser oferendas.
A marca em sua mão ainda mudava.
Ele a ergueu. A pupila em sua palma estava furiosa, e agora um contorno de boca surgira. Mesmo sem movimento, Huo Ying sentia o monstro rugindo em sua direção, de algum lugar distante.
O que era aquilo?
Ele percebeu: a marca servia como coordenada. O monstro estava usando-a para tentar escapar do mundo espelhado.
— Tão ansioso para me encontrar? Então venha!
Estendendo a mão, brotos de madeira brotaram, atravessando o fogo e entrando no prédio. Eles envolveram o espelho gigante, arrancando-o do chão.
Huo Ying o arremessou direto para o chafariz, onde a água verde borbulhou violentamente.
Sssss—
Bolhas subiram à superfície.
Não era o espelho sendo corroído, mas a névoa negra que vazava dele, dissolvida pela água. Aos poucos, o vapor recuou, sendo sugado de volta para dentro do espelho.
Quanto mais perto do Espírito do Espelho, mais a marca em sua mão ardia.
Huo Ying abriu a palma, mostrando a pupila a cena: o espelho, submerso na água verde.
— Hora do confronto final. Essa é sua única chance.
A pupila pestanejou, quase humana, antes de fixar em Huo Ying um olhar carregado de ódio.
Outra tentativa de névoa escapou do espelho, mas a água a devorou. Aos poucos, a névoa recuou, desistindo.
A pupila pareceu refletir. Então, a sensação de queimação sumiu. Ela se fechou, e a marca encolheu até virar um pequeno ponto negro.
— Patético.
Huo Ying zombou. O ponto tremeu, relutante, mas não reagiu.
Com o monstro contido, ele respirou aliviado. A criatura podia marcá-lo e usar isso para entrar no mundo espelhado — mas, se alguém acidentalmente cumprisse um ritual de oferenda, ela também poderia escapar.
A água verde, cheia de parasitas, era sua fraqueza. Mas deixar o espelho ali era arriscado.
E se a mulher da arma voltasse? E se algo acontecesse e o espelho saísse da água? O monstro não perdoaria Huo Ying.
— Aquela mulher… entrou no mundo espelhado por um motivo.
Jutsu de Madeira: Prisão de Árvores.
O salgueiro-tártaro se aventurou a penetrar nas águas verdes. Felizmente, embora assustadoras, elas seguiam as mesmas regras do riacho — os parasitas dentro delas não devoravam coisas que continham energia yang. Huo Ying, à beira do lago, usou os galhos para criar uma prisão de madeira completamente selada, encerrando tanto as águas verdes quanto a entidade do espelho.
— Grrrr!
A marca na palma de Huo Ying ficou agitada. Pela primeira vez, transmitiu um sentimento de pânico, percebendo o que ele estava fazendo.
— Você consegue enxergar? Ótimo. Então fique aí dentro da entidade do espelho e apodreça na prisão.
Ignorando a marca, Huo Ying moldou uma placa de madeira. Lentamente, palavras surgiram nela:
Wang Kai, residente de Ailing Zhen.
Ele havia criado uma tabuinha espiritual e a colocou nos degraus.
Wang Tianhua merecia morrer, mas Wang Kai fora um bom pai e um homem de verdade. No momento final, ele gritara a localização do Centro Cívico, uma última tentativa de proteger a cidade, tentando levar o Esquadrão de Expurgadores direto para a entidade do espelho.
Vestindo sua armadura de madeira para se proteger dos respingos da prisão, Huo Ying carregou o enorme cárcere nas costas e caminhou lentamente de volta para casa.
O cárcere era pesado, e seu passo era lento. Quando chegou à porta, as gotas que haviam respingado já haviam secado completamente.
Assim que ouviu os passos, a porta se abriu. Liang Yao estava lá, olhos vermelhos, cheios de expectativa. Ao ver a figura encoberta pela armadura de madeira, ela não se assustou — reconheceu Huo Ying imediatamente.
— Você...
Ela estava emocionada. Não importava o quão estranha a armadura parecesse, nem o enorme cárcere que ele carregava. As palavras se acumularam em sua garganta, até que, de repente, ela sorriu.
— Você deve estar com fome. Vou preparar algo.
Puxando Huo Ying para dentro, Liang Yao correu para o fogão.
O quarto estava impecável, graças a ela. Ajeitando a mesa, ela começou a lavar o arroz, explicando:
— Eu sei que arroz é precioso. Eu... acabei vendo, mas não comi nenhum. Como você voltou hoje, é uma ocasião especial. Vou fazer só um pouco.
Ela se virou, escondendo o rosto.
Huo Ying deixou o cárcere no chão, tirou a armadura e tocou levemente seu ombro.
— Coloca mais arroz. Se você continuar chorando, vai virar mingau.
Liang Yao não conseguia parar as lágrimas. Tentando disfarçar, lavava o arroz de costas.
— Eu... — Seus olhos ficaram ainda mais vermelhos ao ser descoberta. — Minhas lágrimas são estéreis. É só pra economizar água.
Inventando qualquer coisa, ela riu. Huo Ying a havia consolado, e isso a deixou feliz.
Com o arroz no fogo, ela descascou batatas — cortou algumas em rodelas e as fritou, enquanto outras viraram palitos para uma sopa.
Com tão poucos ingredientes, ela ainda fez dois pratos.
Durante a refeição, Liang Yao mastigava cada grão de arroz com cuidado, os olhos grudados em Huo Ying. Quando ele terminou, ela se levantou rapidamente. De repente, a alça do seu vestido escorregou, revelando seu ombro pálido.
Sem se ajustar, ela se aproximou e segurou sua mão.
— Você passou o dia todo lá fora, cheio de poeira. Deixa eu limpar você com minha habilidade.
Ela apertou sua mão, abraçando seu braço contra o peito, e se ajoelhou ao lado dele, olhando para cima como um filhote, seus olhos brilhantes refletindo apenas Huo Ying.
Capítulo 47: O Lugar Distante
— Você não precisa fazer isso.
Huo Ying falou com seriedade:
— Eu preciso da sua habilidade. O que temos é uma troca justa. Não gosto de misturar relações pessoais com isso.
— No fim do mundo, trocas são mais confiáveis que sentimentos.
— Eu permito que você fique aqui porque você é fraca, não representa perigo e sua habilidade me é útil. Não porque temos algum laço.
— Não temos nenhuma relação. Se enfrentarmos perigo, podemos nos abandonar a qualquer momento. Assim, não há dilemas. Quando não há perigo, também não há motivo para traições.
Liang Yao concordou, obediente:
— Eu entendo.
Mas mesmo concordando, ela encostou o rosto na mão dele.
— Eu nunca tive medo do fim do mundo. Sempre senti que já vivia nele. No fim de cada dia, tudo parecia sem sentido. Como as árvores na calçada — plantadas em fila, enraizadas na cidade. Quanto mais fundo as raízes, mais longe estavam de onde deveriam estar.
— Nunca entendi a diferença entre mim e aquelas árvores. Nossas vidas verdadeiras devem estar acontecendo em algum lugar distante, sem a gente. Quanto mais nos ligamos a este mundo, mais perdemos a nós mesmos.
— Quando os mortos-vivos invadiram a cidade, o fim chegou, mas nada mudou pra mim. De dia, eu sobrevivia. À noite, imaginava como seria minha vida real.
Huo Ying acariciou sua cabeça. Se não fosse por este mundo, ele também se sentiria assim — preso em estudos e trabalho, cada vez mais conectado ao mundo, mas cada vez mais distante de si mesmo.
Num lugar errado, a vida parece nunca ter começado.
— O fim vai passar. Tudo vai melhorar.
Liang Yao, como um gatinho, se aninhou no conforto dele, murmurando só para si:
— O fim já acabou.
Porque, desde que conheceu Huo Ying, ela parou de imaginar como seria sua vida verdadeira.
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